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Melissomancia

  • Foto do escritor: Alexandra Oliveira
    Alexandra Oliveira
  • 23 de jan.
  • 4 min de leitura

Melissomancia: a previsão através das abelhas


(pesquisa e texto da Raquel Frigg, revisão da Alexandra)


A abelha é associada à Eunomia (boa ordem) e ao trabalho sagrado, e desde a Antiguidade são observadas crenças populares e do folclore que interpretam o comportamento e a presença desses insetos como sinais ou presságios. 

 

A melissomancia pode ser entendida tanto como a observação do voo das abelhas quanto como a "leitura" do mel e das colmeias como manifestações da vontade de Zeus ou de Ártemis; Cook detalha que o título Zeus Melissaios (Zeus-Abelha ou Deus das Abelhas) não é apenas um epíteto agrícola, mas uma indicação de que o deus se manifesta através do enxame.

 

A "adivinhação através das abelhas" ou Mantikḗ (μαντική)presságio (mancia) , baseia-se principalmente na observação desses sinais e na interpretação do seu simbolismo dentro do contexto cultural e espiritual de quem os observa. As interpretações espirituais sobre as Abelhas podem nos oferecer percepções profundas e valiosas desde sua presença em nosso dia a dia e até em diferentes contextos da vida humana.

 

"Melissa" era um título ritualístico honorífico dado às sacerdotisas de Deméter, Ártemis e Perséfone, assim a abelha não era apenas um inseto, mas um símbolo de pureza e uma mensageira entre o mundo ctônico (subterrâneo) e o mundo dos vivos. O comportamento das abelhas (seu voo, zumbido e enxamear) era lido como o movimento das próprias ninfas ou das "Melissas" (sacerdotisas).

 

A melissomancia grega refere-se a práticas divinatórias ou crenças envolvendo abelhas na Grécia Antiga. Burkert e outros especialistas em mitologia (como Karl Kerényi) citam as Thriai, as três irmãs ninfas do Monte Parnaso que teriam ensinado a adivinhação a Apolo, sendo descritas no Hino Homérico a Hermes como mulheres-abelha que se alimentam de mel para entrar em estado de transe divinatório.

 

Em sua obra "Ancient Greek Divination" - adivinhação na Grécia Antiga, Sarah Iles Johnston destaca que os gregos não viam o mundo natural como um cenário passivo, mas como um campo vibrante de mensagens enviadas pelos deuses. O "sinal" (semeion) exigia uma interpretação técnica (presente nos ritos de mistério) e, muitas vezes, intuitiva, assim como outros exemplos de oráculos, como a Ornitomancia (o voo das aves), a Piromancia e Empiromancia (sinais no fogo), a Cledonomancia (sinais auditivos casuais) e a Teratoscopia (fenômenos anômalos como trovões, relâmpagos e terremotos).

 

O mito das Ninfas Thriae (ou Trías), descrito principalmente no Hino Homérico a Hermes (versos 550-568), fundamenta a prática e a compreensão da melissomancia na tradição grega, estabelecendo não apenas a origem divina da prática, mas também a "fisiologia" do transe profético associado às abelhas e estabelecendo que a adivinhação baseada na natureza (melissomancia) é tão antiga e legítima quanto o oráculo de Delfos. Além disso, nos revelando que mesmo um deus da profecia como Apolo precisou "aprender" os sinais da terra através dessas figuras ligadas às abelhas.

 

A melissomancia, portanto, baseia-se na crença de que a abelha extrai a "verdade" das flores e a destila em mel, tornando-se uma mensageira física da vontade divina. "Quando elas se alimentam de mel dourado, ficam inspiradas e desejam dizer a verdade; mas se forem privadas do doce alimento dos deuses, elas tentam desviar as pessoas do caminho com mentiras." O trecho do hino homérico descreve o mel com um catalisador do transe sendo este um processo “biológico espiritual” específico, fundamenta a ideia de que o mel não é apenas um alimento, mas uma substância mediadora.

 

Porfírio comenta passagens da Odisseia de Homero e explica que o mel, por ser um orvalho caído dos céus, simbolizava a limpeza e a pureza, associando o mel à alma que desce do céu para a geração (vida terrena), reforçando por que as ninfas (como as Triae) usavam essa substância para profetizar. E se o mel vem do céu (orvalho) e as abelhas o trazem para a terra, elas literalmente são as “transportadoras de substâncias celestes”, tornando o mel o veículo para a "visão divina" (profecia), bem como a ponte entre opostos, o mel sendo uma substância que conecta o que está "acima" com o que está "abaixo".


E, ainda segundo Porfírio, o mel é usado para purificar, contendo nele propriedades que impedem a putrefação, assim, o associando às almas "limpas" que retornam ao divino. Ele afirma que as almas que descem para a encarnação ou que vivem de forma justa são chamadas de "Mélissas" (abelhas) e cita que o mel é um símbolo de prazer que atrai a alma para a vida, mas também uma substância de sabedoria.


Acreditava-se que os mortos eram "sombras" sem voz e o mel (muitas vezes misturado com leite ou água) oferecia uma nutrição celeste que permitia aos mortos recuperar temporariamente a memória e a capacidade de falar com os vivos, na mesma lógica da Nekyia (a evocação dos mortos feita por Odisseu no Livro XI), sendo o mel o mediador entre o estado de inconsciência e a "clareza" (conhecimento / voz).


Diferente dos grandes oráculos estatais, a melissomancia fundamentada pelas Triae era uma forma de divindade rústica e direta, e conforme a corrente homérica afirma, “ler as abelhas” era ler a "Mente de Zeus" manifestada na ordem da natureza.


Muitos animais são considerados mensageiros, carregando significados profundos que vão além de suas funções ecológicas. As Abelhas, como vimos, desde a antiguidade não são reconhecidas apenas por sua vital importância na polinização e manutenção da biodiversidade, mas também como portadoras de mensagens espirituais significativas e de como a natureza e os animais eram intrínsecos ao ritual.

 

(Texto por: Raquel Frigg – A Hierofântide – Sete Lagoas (MG) , 13 de janeiro de 2026.)

 

Referências:

  1. Arthur Bernard Cook, Zeus: A Study in Ancient Religion

  2. Porfírio, De Antro Nympharum

  3. Sarah Iles Johnston, Ancient Greek Divination

  4. Homero, Odisseia (Livros: IX, XIII , versos 102-112)

  5. Hino Homérico a Hermes (versos 550-568)

  6. Walter Burket, Greek Religion

 

Glossário:

Mantikḗ (μαντική): O termo geral para a arte da adivinhação ou profecia.

Sēmeion: Um termo geral para um sinal divinatório, que poderia incluir pronunciamentos de oráculos ou eventos naturais.


OBSERVAÇÃO (da Alexandra): Embora sem registro antigo, podemos considerar alguns pontos a observar durante essa mancia, como se o zumbido é alto e intenso, qual a direção do vôo, se voam em conjunto ou separadas, qual o desenho da movimentação na colmeia, em que momento ela entrou na casa etc, mas no geral abelhas sinalizam bons presságios ou proteção espiritual, podendo trazer avisos.









 

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