MELISSAS – AS MULHERES ABELHA E O CULTIVO DA HAGNEIA
- Alexandra Oliveira

- há 4 minutos
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pesquisa e texto da Raquel Frigg, revisão da Alexandra
Melissas (Μέλισσα do grego) significa literalmente "abelha"; no entanto, na Grécia antiga, este termo era utilizado como um título honorífico, reservado principalmente a sacerdotisas iniciadas nos mistérios de deusas específicas como Reia/Cibele, mas particularmente aquelas a serviço de deusas ctônicas e da terra, que eram consideradas mensageiras divinas e canais de profecias.
A abelha não era vista apenas como um inseto, mas como um símbolo carregado de virtudes; as melissas surgem na mitologia principalmente como ninfas associadas à natureza selvagem e símbolos da nutrição, pureza, organização, doçura e sabedoria; sendo a mais proeminente a ninfa cretense Melissa ou Melis (Μέλις) reconhecida por ser a cuidadora de Zeus, o nome Melis deriva diretamente da raiz Méli (μέλι) significando "Aquela que é de mel" ou "Doce como o mel".
No mito cretense, Melis foi a ninfa que escondeu e alimentou o bebê Zeus no Monte Ida para protegê-lo de seu pai Cronos. No esconderijo ela o nutria com mel (enquanto a cabra Amalteia dava o leite); de acordo com a literatura, em gratidão, Zeus a teria elevado como uma divindade, em outros textos Zeus transforma seu corpo em abelha após sua morte, ou ainda abençoando sua linhagem.
O termo "Melissa" no aspecto histórico e cultural também recai fortemente como um título para as sacerdotisas da deusa Deméter e Perséfone; de acordo com Porfírio "os antigos chamavam as sacerdotisas de Deméter de Melissae (Abelhas), sendo elas iniciadas da divindade ctônica, e a própria Core (Perséfone) de Melitodes (Semelhante ao mel)…".
Nas festividades de Deméter (como as Tesmofórias e os Mistérios de Elêusis), as Melissas eram as guardiãs do conhecimento que prometia esperança após a morte, apresentavam a dedicação e pureza necessárias para lidar com os mistérios da terra e dos grãos; e assim como as abelhas e sua laboriosidade e cuidado com a colmeia que vai além da mera produção de mel, o papel desempenhado por essas sacerdotisas era fundamental para a comunidade (koinon), partindo desde a orientação político-social ao conforto espiritual.
Embora o trecho do hino a seguir seja para Apolo, Calímaco menciona a pureza das Melissas de Deméter: "As Melissas não trazem água de qualquer lugar para Deo (Deméter), mas apenas a fonte pequena, pura e imaculada que brota de uma fonte sagrada, a flor das águas.", o que reforça a ideia da preservação dos ritos e da pureza, mostrando que elas eram extremamente seletivas e cuidadosas em suas funções rituais.
O mel estava associado à profecia, Apolo é relacionado às abelhas desde a origem sendo iniciado nas artes da profecia pelas Thriai, de acordo com o Hino Homérico a Hermes eram três irmãs que, nutridas com mel sagrado ou hidromel, eram tomadas por um transporte profético, viviam no Monte Parnaso (perto de Delfos) sendo elas quem o deus Apolo indicou a Hermes como método intermediário para interpretação de sinais, ao invés da profecia oracular concedida diretamente por Zeus.
(…) Mas vou dizer-te outra coisa, rebento afamado de Maia
Junto de Zeus porta-égide, nume da sorte dos deuses:
Fato é que existem algumas augustas, nascidas irmãs,
Virgens, que ostentam tal qual ornamento suas rápidas asas,
Três elas são, de cabeça empoada com branca farinha,
Fazem morada debaixo da escarpa do monte Parnaso;
São professoras das artes proféticas, que eu, junto ao gado,
Quando menino treinei, pois meu pai não se opôs que o fizesse.
Lá de onde moram, voando alternado de um canto para outro,
Nutrem-se em favos de mel e dão fim para todas as coisas.
Quando se inspiram depois de comerem do fúlvido mel,
Zelosamente desejam então proclamar a verdade.
Mas se se encontram privadas do doce alimento dos deuses,
Falam mentiras e num burburinho conjunto se agitam.
Essas concedo-te. Tu, de maneira precisa inquirindo,
Faze alegrar tua mente. Mas, se a homem mortal ensinares,
Frequentemente ouvirá tua voz, se tiver boa sorte.
A Pítia (melissa de Delfos) operava no templo de Apolo localizado na cidade de Delfos ( nas encostas do Monte Parnasso) era vista como parte da linhagem de "mulheres abelha", a sucessora terrena ligada ao Monte Parnaso e a Apolo; o estado de transe (voo profético) da Pítia era às vezes comparado ao zumbido e ao voo errático das abelhas, simbolizando a comunicação direta com o divino.
Píndaro assim como outros autores, referiam-se à Pítia como a "Abelha de Delfos"; este epíteto não se trata apenas de uma alusão poética em sua obra, mas um indicativo da “serva mais pura” do Deus Apolo, ou seja a abelha de Delfos eram sacerdotisas que mantinham um estado de pureza ritual rigorosa.
Em Éfeso, no Artemision, o simbolismo da abelha era central onde o templo operava com uma divisão de funções que imitava perfeitamente uma colmeia biológica, Ártemis era a "Rainha Abelha", e suas sacerdotisas (Melissae) e sacerdotes (Essenes) mantinham a ordem do santuário como uma colmeia sagrada.
Diferente da Ártemis caçadora de Atenas, a Ártemis Efésia era uma divindade de fertilidade, proteção e soberania sobre a natureza selvagem; sua conhecida estátua, além das protuberâncias (frequentemente interpretados como seios, bulbos de plantas, testículos de touro ou ovos de abelha), possui representações de abelhas esculpidas em suas vestes, demonstrando sua autoridade sobre a vida organizada.
E, diferente de outras sacerdotisas gregas, as Melissas de Éfeso tinham obrigações muito específicas ligadas ao conceito de Hagneia (Pureza Ritual): eram sacerdotisas virgens, agiam como as "operárias" espirituais, eram responsáveis por manter a pureza do templo, realizavam os sacrifícios de libação (com mel e água) e utilizavam tambores em procissões; o som rítmico era associado ao zumbido que "acalma" a natureza e atrai a presença divina, ao entoar hinos que imitavam o zumbido das abelhas (bombos), acreditando-se que esse som facilitava a comunicação com a Deusa.
As Melissas supervisionavam a produção de mel e cera na região, produtos que eram a base da economia e da medicina de Éfeso, sendo as únicas autorizadas a tocar e vestir a estátua sagrada de Ártemis, tratando-a como a "mãe" da colmeia. Havia também os Essenes - “zangões” (do termo Essen em grego antigo que significa "Rei das Abelhas”, pois na antiguidade acreditava-se que o líder da colmeia era um macho). De acordo com o geografo grego Estrabão, os essenes eram sacerdotes que faziam votos de castidade temporários (geralmente por um ano) para servir à Deusa; eles cuidavam da administração, dos banquetes rituais e da proteção do santuário.
Filóstrato descreve a fundação de Éfeso e a ligação mística com as abelhas, tornando-as emblema cívico cunhado nas moedas (o semon da pólis) "Diz-se que as abelhas levaram os jônios para a terra de Éfeso... e é por isso que a abelha é o sinal da cidade.", bem como Aristóteles que descreve a abelha como um ser político (politikon zoon), que possui um rei (líder) e uma organização social exemplar. Para os efésios, cunhar a abelha era afirmar que sua cidade era tão organizada e harmoniosa quanto uma colmeia; enquanto Pausanias menciona a fundação da cidade por Androclos (herói fundador e o primeiro rei de Éfeso) e a relação com o santuário de Ártemis, onde a simbologia da abelha permeava toda a administração pública.
O estudo das Melissas de Éfeso nos oferece uma lição sobre interdependência: No sistema efésio, ninguém servia sozinho, sustentando a ideia que, assim como na colmeia, se uma abelha falha, a colmeia sofre. De modo geral o estudo das Melissas nos leva à reflexão acerca do valor da Eusebeia (piedade) como um esforço coletivo para manutenção da harmonia entre o mundo humano e o divino.
Para o devoto contemporâneo, as Melissas são lembradas com profunda reverência, pois representam o auge do serviço sacerdotal feminino dedicado às deusas da terra e do mistério; adotar o titulo ou autodenominar-se Melissa pode ser visto como um ato de arrogância (hybris) ou apropriação indevida, uma vez que os ritos que conferiam esse “status” foram interrompidos. Embora o titulo histórico tenha adormecido, o devoto moderno pode incorporar o ideal da “abelha sagrada” em sua rotina, cultivando a Hagneia (pureza) e assim gerando Kharis (reciprocidade) com os Deuses, através de um trabalho diligente como o estudo dos hinos, adotando em suas ofertas o uso do mel, mantendo padrões de purificação antes dos ritos e por fim agindo em prol do coletivo e da comunidade helênica.
Referências:
Walter Burkert, em Religião Grega
Porfírio, em Sobre a Gruta das Ninfas (De Antro Nympharum, 18)
Hino Homérico 4, a Hermes tradução por (C. Leonardo B. Antunes)
Píndaro, em Quarta Ode Pítica (Pítica IV, v. 60)
Estrabão, em Geografia (Livro XIV, 1.3)
Aristóteles (História dos Animais, IX)
Pausânias (Descrição da Grécia, 7.2.7)
Sete Lagoas - MG, 07 de janeiro de 2026.












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