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O Clero no Reconstrucionismo HelĂȘnico

  • Foto do escritor: Alexandra Oliveira
    Alexandra Oliveira
  • 2 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

(texto de 2013)


Existem e existiram muitas formas de sacerdĂłcio e ofĂ­cios sagrados. Normalmente hĂĄ o que executa os rituais, o vidente ou profeta, o poeta ou cantor e, comumente, uma quarta figura, que conhece bem a teoria e a prĂĄtica e observa os rituais para evitar que ocorram erros.


Entre os Celtas: os Druidas vigiavam os rituais e serviam como conselheiros; os Vates eram os videntes e condutores dos rituais, e os Bardos eram os que conheciam as mĂșsicas e histĂłrias. Entre os Romanos: os PontĂ­fices vigiavam o sacerdĂłcio, os Flamines conduziam os rituais, o Auguros servia como adivinho, o Rapsodo cantava. Entre os VĂ©dicos: os BrĂąmanes observavam os rituais e corrigiam erros; os Hotri presidiam e invocavam as deidades; os Adhvaryu preparavam o local e conduziam o sacrifĂ­cio; e os Udgatri cantavam ou entoavam os hinos. Na China antiga: havia o Zhu (invocador ou sacerdote), o Wu (xamĂŁ), e o Adivinho que corria com os rituais e mantinha a ordem sagrada. No DaoĂ­smo: existe os Guagong (Alto Sacerdote ou Mestre Ritual) que liga o homem aos espĂ­ritos, o Dujiang Ă© o cantor chefe que conduz os cĂąnticos sagrados, e o Jianzhai (Inspetor de Banquetes) que cuida da regularidade do ritual e corrige os erros.


Tal divisão é vista entre os Helenos também, com os Hiereus que cuidavam dos rituais, garantindo que tudo fosse preparado e executado propriamente e invocando os deuses; com os videntes ou Mantikoi (adivinhadores e oråculos) que falavam em nome dos deuses e observavam os pressågios e as profecias, para aconselhar nas açÔes, e ajudavam com técnicas de adivinhação; e os Aedos que cantavam e mantinham os mitos e a poesia sagrada.


Quando se especializavam no que faziam melhor, eles provinham um serviço melhor naquela habilidade. Não se tentava dominar todas as åreas de serviço ao mesmo tempo, talvez apenas se executava alguma tarefa de alguma outra função, como por exemplo um sacerdote ou sacerdotisa que atuava de Skirophoros (carregador do dossel) no festival da Skirophoria. E nenhum se sentia intimidado ou desacreditado por não ser bom em uma coisa e ser em outra. Isso também descentralizava os poderes e as responsabilidades de uma pessoa em vårios participantes dos ofícios sagrados.


Agora vamos ver quanto a ordens menores no sacerdĂłcio.


Os VĂ©dicos tinham assistentes, sacerdotes menores, atĂ© o nĂșmero de 16 pessoas trabalhando ao mesmo tempo: os quatro sacerdotes principais e trĂȘs ajudantes para cada um. Os Hotri eram auxiliados pelos Maitravaaruna e os Graavastut. Os Adhvaryu eram auxiliados pelos Pratisprasthaar, os Neshtri e o Unnetri. Os BrĂąmanes eram auxiliados pelos Braahmanaacchansin, os Agniindra e os Potri. Os Udgatri tinham os Presstaava, os Pratihartri e os Subrahman. No XintoĂ­smo, o Kannushi Ă© auxiliado pelas Miko, xamanesas profetisas, entre outras coisas. No TaoĂ­smo, hĂĄ os Shixiang ou Atendente do Incenso (que antigamente eram chamados de Miazhu, ou Sacerdote do Altar), os Shideng ou Atendente da Lanterna, e os Shijing ou Atendente do Sino. No Cristianismo, hĂĄ os bispos, presbĂ­teros/sacerdotes, diĂĄconos, os acĂłlitos, os exorcistas, os ministros de eucaristia, os coroinhas, o turibulĂĄrio, o naveteiro, os leitores e os cantores, entre outros que servem aos maiores.


Na Antiga Hellas (GrĂ©cia), tambĂ©m hĂĄ ordens menores similares. Os Neokoroi mantinham o santuĂĄrio limpo e ajudavam os Hiereus (sacerdotes). O Neokoros (mantenedor do templo) servia como cuidador ou “sacristĂŁo” do santuĂĄrio. Os Hieropoioi (administradores dos ritos) e os Agonothetai (diretores das competiçÔes) organizavam o sacrifĂ­cio, incluindo obter a oblação a ser sacrificada, e executavam a oblação. Posteriormente, eles vendiam as peles, distribuĂ­am a comida nĂŁo-consumida, e vendiam a ĂĄgua que nĂŁo era distribuĂ­da. Os Epimeletai (inspetores, supervisores), os Hierophylakes (guardas sagrados) ou os Hierotamiai (coletores do dinheiro sacro) observavam as finanças dos sacrifĂ­cios. Outros auxiliavam na procissĂŁo ou Pompe, tais como o Kanephoros (Carregador da Cesta), o Hydrophoros (ou Carregador da Água), o Pyrphoros (Carregador do Fogo), os Skaphephoroi (Carregadores de Bandeja), o Kriophoros (carregador do arĂ­ete), os Thallophoroi (Carregadores dos Ramos), o Phaidryntes (Limpador), o Kittophoros (carregador da hera) e os Liknophoroi (carregadores da peneira de joio) e os Oskhophoroi (Portadores dos Ramos da Videira) dos festivais dionisĂ­acos, as Arktoi (Ursas) de Ártemis, os Pharmakoi (Bodes-ExpiatĂłrios) de Apolo, os Epheboi (jovens rapazes) e as Loutrides (banhistas) e as Arrephoroi (Carregadoras das Coisas NĂŁo-Ditas) e as Ergastinai (Trabalhadoras) de Atena, as Arkhousai (Oficiais) de DemĂ©ter, o Thyroros (Porteiro), entre outros. MĂșsicos e dançarinos tambĂ©m auxiliavam no ritual, como os Kitharodoi (tocadores de lira) e os Auletes (flautistas). Outros sacerdotes especialistas vigiavam os MistĂ©rios, tais como o Hierofante (Sumo-Sacerdote, o revelador) que introduzia os participantes no Sagrado, o Dadoukhos (Carregador da Tocha), o Kerykes (Arauto), o Hierokerykes (Arauto Sagrado) e sacerdotes e sacerdotisas menores (de purificação) que auxiliavam os iniciados em potencial a se preparar para o ritual, e os Mystagogues (guias dos iniciados).


Essas ordens menores provém papéis menos exigentes que não requerem o mesmo compromisso que os dos sacerdotes maiores, e provém uma alternativa para pessoas que desejam auxiliar no culto. Eles também permitem que sacerdotes sejam treinados, em estågios, enquanto progridem na hierarquia.


Aqueles que gostariam de dedicar a vida Ă s deidades de uma foram contemplativa ou de contĂ­nua devoção, tambĂ©m encontram vertentes helĂȘnicas com precedentes. Um exemplo sĂŁo os PitagĂłricos, que criaram sociedades em comum, focadas em uma vida e uma religiĂŁo virtuosa e de contemplação. Outro exemplo seriam os misteriosos Therapeutae (“curadores” ou "servos", cujos membros femininos da seita eram chamados de Therapeutridae, e tratava-se de uma ordem cenobita prĂ©-cristĂŁ que o escritor judeu helenizado Filo de Alexandria conheceu em uma baixa colina perto do lago Mareotis, prĂłximo a Alexandria), que dizem terem sido influenciados pelo Budismo e terem um nome possivelmente originado da distorção da palavra Theraveda (“caminho dos anciĂ”es, uma escola budista). MonastĂ©rios foram encontrados nos reinos greco-bactriano sob a influĂȘncia do greco-budismo. Contemplação e Meditação no Sagrado e no Bem tambĂ©m existiam na Academia e no Liceu, enquanto IĂąmblico (filĂłsofo grego) e outros procuravam viver os princĂ­pios pitagĂłricos. Os antigos Nympholepts (distinguidores das ninfas) tambĂ©m viviam como Eremitas e Cenobitas (koinos = comum, bio = vida) a contemplar e comungar com as Ninfas, muito semelhante ao que os ermitĂ”es e monges taoĂ­stas fazem, comungando com os espĂ­ritos naturais.


Semelhante aos Jesuítas, os gregos poderiam ter ordens dedicadas a Atena, uma vez que esses focavam no intelecto e na disciplina militar e em uma vida contemplativa que se encaixaria bem na devoção a esta deusa.


Havia outros funcionårios sagrados também, como por exemplo o Exegetas. Os Exegetai, na Grécia antiga, eram especialistas religiosos que davam conselhos sobre os cultos de deuses diferentes. Eles interpretavam leis religiosas e costumes e guiavam as pessoas que solicitavam.


Esses modelos podem nos ajudar a prover ajuda Ă s necessidades espirituais das pessoas que seguem nossa religiĂŁo e a aumentar ou manter as chances de nossas crenças sobreviverem no mundo moderno. É por isso que a maioria das antigas religiĂ”es que ainda existem possuem essas subdivisĂ”es no ofĂ­cio sagrado, apesar de todas as pressĂ”es dos monoteĂ­stas.


Por fim, seria interessante que uma espĂ©cie de treinamento de ‘seminĂĄrio’ existisse com relação aos rituais, Ă s leis, aos mitos, e Ă  Ă©tica, a fim de se formalizar um sacerdĂłcio. Isso ajudaria com a nossa reputação como religiĂŁo sĂ©ria em vez de sĂł um punhado de sacerdotes e sacerdotisas auto-proclamados. Se acrescentarmos um treinamento apologĂ©tico, teolĂłgico e filosĂłfico, responder a crĂ­ticas e ataques teolĂłgicos seria mais fĂĄcil, e isso fortaleceria os suportes intelectuais das nossas crenças. Alguma espĂ©cie de estrutura disciplinar, seja por ostracismo ou nĂŁo, por uma comunidade, por ordens e organizaçÔes religiosas, ajudaria a refrear o mau comportamento dos sacerdotes. Uma ameaça real de ser deposto, exonerado, de ser privado do ‘hĂĄbito’, poderia impedir problemas com sacerdotes e sacerdotisas que se engajam em comportamentos anti-Ă©ticos e fraudulentos.


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