• Alexandra Oliveira

Guerra, substantivo feminino

(texto de 8 de março de 2010, por Alexandra, para um movimento de blogagem coletiva pelo Dia da Mulher) Antes de mais nada, aviso que este será um texto cheio de parênteses para explicar o contexto das coisas. Ontem me mostraram a postagem de um blog que falava das mulheres. A princípio até achei que era de uma das muitas mulheres que se costumam se limitar ao que se espera delas, mas depois soube que tinha sido um homem que escreveu. A pessoa que me mostrou disse que ele provavelmente estava querendo parecer solidário, naquela tentativa típica de “inferioridade” de “eu sou só um homem e blabla”. Mas o fato é que ele fazia o que a maioria faz: associar a guerra ao masculino (e como uma coisa ruim, a de invasão de território etc) e reservar ao feminino apenas a parte de sentar para conversar e de interceder silenciosamente no seu canto (e como se isso fosse bom e exclusivo da mulher). Para quem tem uma visão amazona, vai perceber que o tiro dele saiu pela culatra. E isso me lembrou uma discussão sobre Ares e, ao final da noite, essa ideia terminou de ganhar forma quando vi uma mulher ganhando o Oscar de Melhor Diretor/a por um filme sobre Guerra. Então vou retomar o que costumo falar quando tratamos de Ares e sua relação com a guerra. Era uma mulher quem perguntava como cultuá-lo, se a guerra não era uma coisa ruim, que ela era uma pessoa pacífica e não acreditava em alguém que gostasse de guerras. Hoje ela parece já ter entendido que não é bem assim. Mas partiremos daí: as pessoas que querem cultuar Ares comumente caem na historinha de centrar-se nos outros aspectos dele (ou até de tentar vê-lo como um deus agrário), quando não se deve ignorar uma de suas características centrais, justamente essa belicidade, essa coisa marcial. Cícero fala de o que mais apavora é uma “guerra camuflada de paz”, que é o que temos hoje. Não se iludam em achar que estamos em paz, não estamos. Aliás, é isso que os dominadores querem que pensamos, para continuarmos alienados. O mesmo Cícero falava de precisar travar a guerra se quisermos desfrutar da paz, ideia presente também no romano Publius Flavius Vegetius Renatus, em sua famosa frase “si vis pacem para bellum” (se queres a paz, prepara a guerra). Nós não desfrutamos da paz hoje, porque não somos livres, ainda precisamos lutar todos os dias. Guerra não é só gritaria, carnificina, sangria etc. Nós lutamos por aquilo em que acreditamos, por aquilo que amamos, por aquilo que honramos e respeitamos. Se você, por exemplo, sofre violência doméstica (ou abuso sexual ou assédio moral etc) e fica calada, acaba sendo co-responsável por outras vidas que sofrem o mesmo. Você tem que enfrentar o que é preciso para acabar com a opressão e trazer a justiça, guerrear por isso é digno, mesmo que seja mais fácil ficar sentada em silêncio. Quando calamos, consentimos, e o que se disfarça de pacifismo acaba sendo cumplicidade com o agressor e um ato de covardia. Guerras não são apenas – como disse o rapaz do blog que me mostraram – invasões de território para posse e serviço aos interesses de velhos decrépitos. Lutar pelos seus direitos de trabalho (como fizeram as mulheres da fábrica de tecidos que deram origem ao Dia Internacional da Mulher) é um dos exemplos de ação “guerreira” dos domínios de Ares. Na astrologia, Marte também tem essa característica de planeta da ação, o que te cutuca para você levantar da cama e ir fazer alguma coisa de útil e produtivo, para você assumir sua parte no grande exército daqueles que fazem a diferença no mundo. É frustrante ver as pessoas transformarem a essência dos deuses em outras coisas, como querer fechar os olhos para o aspecto guerreiro de Ares e tentar vê-lo como divindade agrária. A estes eu aponto uma análise de Dumézil (La religion romaine archaïque, 1966) que é citada no livro do Marcel Détienne com o Jean-Pierre Vernant sobre ‘Métis – as astúcias da inteligência’ (2008): “Contra todos aqueles que falam com abundância de um Marte agrário, Dumézil mostrou, com um rigor perfeito, que Marte jamais fora uma potência da fecundidade, mesmo quando ele intervinha no domínio da agricultura e da criação de animais: seus modos de ação, mesmo num quadro rural, designam-no como um combatente sempre pronto a destruir um inimigo, um deus de vocação decididamente guerreira.” Eles comentam isso para lembrar a relação que também fazem de Atena com o campo, por causa do mito de Mírmix. Mesmo que Atena tenha inventado o arado, isso foi por causa da capacidade TÉCNICA dela (estratégica e sábia) de inventar coisas, e não por uma associação com a plantação/colheita/etc. E, já que falei de Atena – claro! – não posso deixar de lembrar que as mulheres mortas que inspiraram a criação do dia de hoje eram tecelãs, domínio de Atena que vemos principalmente na sua disputa com Arachne. Tecelãs e militantes. Elas não só planejaram estrategicamente mudanças nos direitos trabalhistas, elas foram atrás de protestar por esses direitos. É Ares. É guerra. Se não fosse, não estaríamos aqui hoje fazendo blogagem coletiva. Então, nesse dia da mulher, eu comemoro as mulheres que conseguem ter a consciência de que Guerra também é do domínio feminino! Não sei se preciso lembrar da observação que fez Harriet Rubin: “quase todos os deuses da guerra tinham nomes femininos: Nêmesis (vingança), Bia (agressão), Ártemis (sacrifício), Atena (batalha), as Fúrias (ira)”, mas – de qualquer forma – celebro a vitória de uma diretora que faz um filme de Guerra e espero que isso marque na consciência coletiva que mulher também é guerreira e que há um tipo de guerra (o de se posicionar) que é necessária para sairmos do lugar e melhorarmos o mundo… #deuses #greciaantiga #helenismo #mitologia #rituais #crenças #gregos #Ares #Atena

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​​​Alexandra Oliveira ​© 2020 | Desde março de 2003.

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