• Alexandra Oliveira

Razões Principais para NÃO se Praticar o Helenismo

(Texto do Sannion, de 2012 - resumido, traduzido e adaptado pela Alexandra.) (Advertência: este texto é irônico, interpretem as palavras com humor...) "-> Responsabilidade Pessoal. Cristãos têm sorte, podem se apoiar no negócio do pecado original e dizer que, por causa de uma cobra que falou com seus antepassados para comer o fruto de um árvore, eles nasceram maculados de pecado. Ou seja, todo o mal que eles cometerem - de assassinato a comer peru demais na ceia - veio daí. E eles não precisam fazer nada além de pedir desculpas e aceitar Jesus e PUF!, ficam magicamente purificados. Pros helênicos não é tão fácil assim. Se você ferrar tudo, a culpa é sua. Não tem como culpar outro, recai tudo nas suas costas. E se você se enfiar num buraco, é você quem vai ter que sair dele. Ninguém vai lhe dar um bilhete com passe para sair do inferno. Você que vai ter que se redimir, mesmo que peque sem saber (como Édipo) ou uma divindade lhe tenha feito perder a razão (como Agamenon). -> O dever-de-casa. Nos anos 70, Asatrus se vangloriavam de ser a religião com dever-de-casa. O Hellênismos é a religião com dever-de-casa e testes-surpresa! Os helênicos tem uma reputação pelo esnobismo intelectual e gosto pelos livros. Deixa eu te dizer uma coisa, é bem merecido. Ao contrário de outras religiões pagãs, os livros helênicos não vêm em versões simplificadas. Eles são enormes tomos acadêmicos com amplas notas de rodapé e imensos pedaços de texto em latim ou grego. Qualquer helênico digno vai estar familiarizado com Homero, Hesíodo, os hinos órficos, Platão, Plutarco, Pausânias, Píndaro, Safo e Heródoto, assim como os importantes neoplatonistas mais recentes. Além da religião, eles podem conversar sobre filosofia, história, economia, política, e questões de gênero. Muitos serão até fluentes no grego - ático, koiné, arcaico e moderno. Através de um sistema rigoroso de revisões e criticismo, eles adotaram padrões acadêmicos de comunicação, especialmente o citar as fontes e construção de argumentos com inferências lógicas. Falhar em se adotar esses padrões pode resultar em severa zombaria. E, não é só nos websites, publicações, listas de e-mail e painéis: eu conheço helênicos que aplicam notas de rodapé nas conversações casuais. Esse nível de nerdice não é para qualquer um. Houve estudantes universitários que largaram a religião porque ela dava muito trabalho. -> Dias sagrados demais. Wiccanos são sortudos, eles só tem 8 festivais maiores no ano: Samhain (Out 31), Yule (Dez 21), Imbolc (Fev 1), Ostara (Março 21), Beltaine (Maio 1), Litha (Jun 21), Lughnasadh (Ago 1), e Mabon (Set 21). Helênicos têm muitas cerimônias a cada mês! Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, diz que o Agathos Daimon recebe sacrifício no segundo dia do mês, Atena no terceiro, Afrodite, Héracles, Hermes & Eros no quarto, Ártemis no sexto, Apolo no sétimo, e Poseidon e Teseu no oitavo. A Noumenia, festival da lua nova, acontece no primeiro dia do mês, e sacrifícios eram feitos a Hécate e aos espítos dos mortos nos últimos dias do mês. Isso só os regulares, cada mês tem uns três ou quatro festivais a mais agendados, e há meses como o Skirophorion que tem sete, o Metageitnion tem oito, o Pyanepsion tem onze! É quase um dia para estar em festival e outro dia para preparar o próximo. E eles não são simples também. Tem purificação, procissão, música, competição, banquete. Alguns deuses aceitam biscoitos e refrescos, mas os olimpianos são um pouco mais exigentes. -> Nomes 'criativos' são desencorajados. Se você já esteve num evento wiccano, a primeira coisa que nota são os nomes maravilhosos: Estrela-Brilante do Arco-Íris, Elfo Encantado, Mulher-Gamo da Lua-Menstruada, e mais um monte de jasmines, ravenas, merlins, morganas etc do que você possa apontar com um bastão. (E, por falar nisso, esse bastão de preferência estará coberto de purpurina e penas e cristais.) Os helênicos são meio entediantes com essas coisas. Muitos usam nomes normais ou escolhem um nome grego simples. -> Não há títulos estilosos. Títulos sonoramente impressionantes abundam nas religiões pagãs. Você pode ser um Arquidruida, um Sumo-Sacerdote, um Mago, um Papa Discordiano, uma Rainha Bruxa, um Senhor Golfinho da Verdadeira Irmandade Atalante, um Mestre Reiki de Terceiro Nível e por aí vai. Você nem precisa merecer esses títulos. O único limite é sua imaginação e a credulidade das pessoas que você está tentando convencer. O Hellenismos é um tanto sedativo a esse respeito. Não temos títulos ou hierarquia rígida. Na antiguidade, não havia classe especial de sacerdotes que se aproximava dos deuses em favor das pessoas: qualquer um poderia sacrificar no altar aos deuses, ou fazer súplicas a eles em preces. Na verdade, os sacrifícios mais importantes eram feitos dentro de casa, pelo chefe de família. Até os casamentos e funerais eram feitos em família. Ser sacerdote era mais um posto cívico do que um chamado espiritual. Eles presidiam sobre os templos, no caso de grandes festivais com danças especiais e banquetes públicos, e tinham que sacrificar o animal e levar para casa sua porção da carne. Era basicamente isso. O resto do tempo eles eram apenas um helênico qualquer, sem mais autoridade do que outro membro mais velho da comunidade. -> Nada de super-poderes ou conspirações ameaçadoras. Praticamente todo wiccano diz ter poderes incríveis. Eles levitam coisas com a mente, fazem pessoas se apaixonarem recitando poesia mal-feita, falam com animais, viajam nos reinos astrais, banem fantasmas e demônios, fazem nuvens se juntarem e a chuva cair; todos têm destinos especiais, como o de deter o fim do mundo. Sempre que eles perdem o emprego, terminam um relacionamento ou ficam gripados, foi porque foram atacados psiquicamente por uma bruxa má ou um coven negro secreto. Helênicos não têm nada disso, a única coisa que nos difere da sociedade em geral é o fato de que fazemos preces e sacrifícios para mais deuses do que eles. -> O fardo de ser um herdeiro da cultura helênica. Para muitos, a cultura grega é o marco inicial da civilização ocidental. A Grécia deixou sua marca na matemática, física, astronomia, medicina, arquitetura, escultura, filosofia, política, economia, poesia, drama, história etc, tanto que você não pode discutir esses assuntos sem mencionar a contribuição grega. Bem, muita das palavras que usamos vêm do grego. E a maioria dos gregos eram versados em arte, política, filosofia, assuntos militares, atletismo, religião e agricultura. Só os escravos eram especialistas em um único assunto. É muita responsabilidade isso, principalmente nos dias que você só quer andar de cueca fumando unzinho, comendo burritos de microondas, assistindo seriados, jogando Playstation e olhando pornô. Esses são os dias que eu acho que na verdade deveria estar saqueando vilarejos ou escrevendo um épico de 50 mil linhas sobre a fundação da cidade de Tebas ou algo impressionante assim. Mas eu só viro pro lado e volto a dormir e deixo pra lá a culpa de uma vida desperdiçada passando por mim. -> Não há celebridades helênicas. Os mórmons têm Donny e Marie Osmond. Os budistas têm o Ricky Martin e os Beastie Boys. A wicca tem a Cybil Shepherd e o Sully do Godsmack. Santana e Shirley Maclaine são da Nova Era. Tom Cruise é cientologista. Marilyn Manson é satanista. Mel Brooks e Adam Sandler são judeus. Moby e Scott Stapp do Creed são cristãos. Cat Stevens é do islamismo. Mas não tem nenhum famoso helênico, então provavelmente isso é uma coisa ruim de se ser. E a principal razão para não ser um helênico: -> Os deuses realmente escutam nossas preces. Você acha que isso é uma coisa boa, né? Isso é porque você nunca teve Dionísio te arrastando pro deserto para ter uma conversinha franca, enquanto o templo onde você fazia seus ritos começa a ser consumido pelo fogo. Ou você nunca teve sua carteira roubada toda vez que fazia preces a Hermes. Ou nunca teve quatro pessoas proclamando seu amor imortal a você dentro de 24 horas depois de você reclamar para Afrodite que se sentia sozinho. Ou teve sua internet desligada depois de pedir que o caos da sua vida online fosse removido. Os deuses só tiveram uma mão-cheia de adoradores dentro dos últimos 1600 anos, então é uma grande mudança do jeito que costumava ser antes, quando as cidades inteiras se reuníam numa hecatombe. Eles não tiveram muito o que fazer desde então, e acho que estão meio entediados, sabe? Então eles tendem a se interessar bastante pelas nossas vidas. Às vezes até demais. É uma experiência perturbadora."


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​​​Alexandra Oliveira ​© 2020 | Desde março de 2003.

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