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Maioridade - Histórico

CATALISANDO A MATURIDADE 
A Maioridade na Antiga Hélade

Traduzido por Alexandra Oliveira 

Conteúdo:


A primeira percepção que recebemos quando estudamos os antigos ritos de passagem helênicos para a idade adulta é a maneira intricada, sutil e equilibrada na qual as estruturas da vida cívica, social, familiar e religiosa eram integradas umas com as outras. É possível que isso seja devido a essa abordagem civilizada e receptiva à estrutura e à ordem dentro de cada faceta da vida helênica de que específicos ritos de passagem eram necessários para desenvolver as qualidades essenciais para assimilar uma jovem pessoa dentro de uma bem-sucedida vida adulta. A abordagem antiga à proximidade dos Deuses em todos os aspectos da vida e do mundo endossava estruturas cívicas, sociais e familiares com uma natureza sagrada que está tristemente perdida no mundo moderno. Os papéis da idade adulta eram reflexões santificadas da natureza e todos eram esperados de assumir o jugo do mundo adulto no devido tempo, na época apropriada. Porém, para aceitar esse fardo da responsabilidade e deveres adultos, requeria-se maturidade.

Os antigos Helenos pareciam entender que a maturidade não é uma consequência natural nem de puberdade fisiológica nem da culminação da educação de alguém [como é a ideologia do mundo moderno]. A maturidade surge da aceitação da estrutura e das responsabilidades e deveres inerentes que são parte de preservar, continuar e avançar tal estrutura.

Os ritos de passagem associados com a maioridade e aceitação da responsabilidade adulta são, portanto, os rituais e procedimentos que preparam um adolescente para isso e assim catalisam a maturidade necessária para emocionalmente, intelectualmente e espiritualmente aceitar as consequências naturais de alcançar a maturidade sexual.

Muitos desses ritos associavam a transição da infância à idade adulta com a transição da vida à morte. Tornar-se um adulto é a morte da criança. Aceitar responsabilidades e deveres adultos é a morte da vida que conhecíamos e amávamos como crianças. A maturidade é a morte da existência puramente física da infância e a transição para um mundo profundo de espírito, intelecto e emoção. O sucesso desses ritos de passagem dependia inteiramente de o quão pronta a criança estava para aceitar a maturidade em doses uniformes por um período de tempo.

É importante notar que não havia uma clara diferenciação social ou de gênero (além da simbólica) entre crianças pequenas macho e fêmea. As distinções de gênero só eram introduzidas pela puberdade na Atenas iônica e na Esparta dórica, na idade de sete anos, devido aos programas cívicos separados desenvolvidos para meninos e meninas. As razões para isso são simples; indiferente de região ou tribo, havia um reconhecimento cívico e societário de que meninos e meninas amadureciam em idades diferentes e de formas diferentes. Isso é evidente na estrutura familiar, social e cívica, que representa a aceitação da maturidade feminina acontecendo a uma idade bem anterior do que sua contraparte masculina. Uma garota era considerada pronta para gerar filhos e criar seus pequenos durante a adolescência, enquanto um garoto só era considerado um adulto completo pronto para ter sua própria família por volta da idade de trinta anos ou mais.

A tendência moderna a homogeneizar o desenvolvimento de gêneros é antiética à abordagem helênica antiga. Os papéis de gênero e as funções do adulto eram extremamente bem definidas e delineadas na antiga família helênica, no ambiente social e dentro do estado. Níveis avançados de maturidade eram necessários para qualquer adolescente aceitar seu novo status adulto graciosamente. Os desejos individuais eram secundários à primazia da família, da tribo e do estado. Os conceitos religiosos e filosóficos de virtude e ética ecoavam, clarificavam e refinavam a concepção da maturidade [e do autocontrole] necessária para viver uma boa vida dentro da estrutura cívica e social. Por isso, a ideologia que apoia os ritos de passagem não pode ser vista fora do contexto da estrutura familiar, social e cívica da época. Compreender isso nos oferece uma percepção maior das antigas filosofias helênicas assim como das ideias relativas à virtude e ética de indivíduos e estado, e da importância de um bem maior e beneficente ao definir papéis e funções familiares, sociais e cívicos. Nem a filosofia nem a religião podem ser propriamente entendidas sem o contexto da estrutura da cultura helênica antiga.

A morte da criança e o nascimento do novo adulto é um processo gradual que é realizado peal aceitação de certos papéis, deveres e responsabilidades dados a idades específicas que não foram determinados pelas necessidades ou desejos do adolescente individual, mas sim por expectativas da família e pelos costumes sociais, reforçados pela lei cívica. O chamado da ética filosófica pelo controle de desejos individuais pelo bem de algo maior pode ser mais bem compreendido com o contexto do sistema de valores social e cívico. A virtude helênica é simultaneamente trazida em perspectiva como aquela que serve tanto ao bem maior do Estado helênico e do povo helênico quanto às unidades familiares coletivas e individuais dentro de uma tribo ou região. Dentro desse contexto, a filosofia é o exame da verdadeira natureza humana e da compreensão, aceitação e avanço disso. Remover a filosofia e ideologia helênicas do contexto do ‘Hellenismos’ (cultura e povo helênicos antigos) é, portanto, perder a função e o propósito de tal filosofia.

Nunca se pretendeu que a questão da aceitação da maturidade em nome do bem individual e coletivo significasse o subjugo do indivíduo pelo bem de algum ideal humanitário global. Seu objetivo principal era a promoção da aceitação intelectual do benefício da maturidade [e, assim, da razão] tanto para o individual quanto para o coletivo, dentro de uma estrutura social e cívica locais.

O gênero trágico do teatro está intimamente relacionado ao conceito do herói de culto ancestral e histórico. Muitas das tragédias ilustram a transição de um status individual do herói de um estado a outro. Um tema comum dessas transições de status do gênero trágico ilustram as consequências da não aceitação da ordem natural da vida e o sofrimento resultante que ocorre devido à falta de completude do rito de passagem para a maturidade e a vida adulta.

Os trabalhos que sobreviveram relativos à transição do status da infância à idade adulta exemplificam os procedimentos costumeiros e rituais da transição bem-sucedida, assim como as consequências de uma transição malsucedida. O estudo desses textos oferece uma compreensão criteriosa dentro da estrutura genérica dos ritos de passagem em geral. 



a. Geracional e Fases de Passagem 

Para identificar o valor das sutilezas dos ritos de passagem dos antigos Helenos, é útil ter um entendimento básico dos elementos primários do que abrange um rito de passagem em geral. As cerimônias que marcam esses acontecimentos memoriais na vida e as ideologias que os apoiam são os costumes que corporificam a aplicação prática do sistema de valores de não apenas da família, tribo e Estado, mas também da própria religião.

Os elementos rituais e os axiomas ou doutrinas que eles incorporam e expressam são, primeiro de tudo, os procedimentos para reconhecer ou catalisar uma mudança para o status de um indivíduo no mundo.

Há três maiores acontecimentos memoriais na vida de qualquer pessoa: nascimento, maturidade e morte. Essas fases da vida formam a base para uma série de rituais que introduzem um indivíduo dentro os papéis e responsabilidades necessários ao crescimento e progressão naturais. Em essência, esses ritos de passagem se consistem de um grupo de rituais altamente criteriosos baseados no reconhecimento pragmático da verdadeira natureza do masculino e feminino da espécie humana. Esses costumes e valores ritualizados são raramente completados em uma única cerimônia, mas antes são constituídos de uma coleção de ritos que são executados a vários estágios de desenvolvimento dentro de um papel particular.

Todos esses ritos de passagem são baseados no simples e importante axioma de que ‘cada geração é uma continuação da geração anterior’. Essa verdade essencial é amparada por muitos dos mitos e ensinamentos da religião helênica. A passagem geracional acontece em cinco níveis diferentes embora interconectados:

A continuação da espécie humana;
A continuação de um Oikos (lar, linhagem e riqueza familiar);
A continuação da tribo;
A continuação do estado (e da identidade cívica);
A continuação da psique (alma).

Cada rito de passagem consiste de três diferentes fases de passagem ou mudança, que ocorre em uma ordem específica e de acordo com uma antiga fórmula para catalisar a transformação do status de um indivíduo de um estágio de desenvolvimento a outro. Qualquer uma das fases de passagem pode consistir de um ou mais rituais e costumes planejados para auxiliar o indivíduo a aceitar a mudança graciosamente e integrá-la positivamente dentro de suas vidas. Os ritos de passagem são diferentes das iniciações rituais voluntárias porque eles refletem e expressam os processos naturais e inevitáveis da vida. 

Essas fases de passagem são:

1. Separação: Os ritos de separação forma a primeira fase de qualquer rito de passagem. 
Esses rituais e ensinamentos são planejados para marcar ou começar o processo de separação de um estado particular de ser ou de um status particular na vida. Os ritos marcam o final de uma fase da vida e abrem o indivíduo para o novo papel e responsabilidades que são uma consequência do marco que eles alcançaram. Nenhum rito de passagem está completo nem é bem-sucedido até que o indivíduo tenha sido devidamente separado do seu estado anterior de existência.
2. Transição: (Também conhecido como a fase liminar). Essa fase de qualquer rito de passagem literalmente se refere aos inícios, fronteiras, bordas e limites de construções binárias.
Uma construção binária se refere a qualquer sistema que usa duas situações ou condições alternativas. Portanto, a fase liminar de qualquer rito de passagem consiste dos costumes rituais que informam, desenvolvem e tornam possível a transição de um indivíduo a um novo estado de ser.
3. Incorporação: A fase final de qualquer rito de passagem consiste dos rituais designados a incorporar e integrar o indivíduo em seu novo papel, completo com funções e responsabilidades aperfeiçoadas.

A passagem geracional e as três fases de passagem podem ser encontradas em ritos de passagem de todas as fases da vida (nascimento, maturidade e morte) de uma maneira significativa, e o tema principal delas é a 'Anthropopoeis' ou 'o ato de fazer/tornar-humano'. Isso é realizado pelo desenvolvimento do indivíduo através da conservação e herança da genealogia, cultura, costumes, cidadania e religião do seu coletivo.

b. As Fases de Passagem para a Idade Adulta

Os ritos associados com o alcançar a puberdade, desenvolver a maturidade e assumir os papéis e responsabilidades da idade adulta participam da passagem geracional da seguinte maneira:
Na continuidade da espécie humana através da maturidade sexual e do processo de procriação;
Na continuidade do Oikos (lar) através: a) da perpetuação de uma linhagem genealógica através do casamento e produção de uma prole legítima, e b) da preservação de um lar ou prosperidade familiar através do rito de nascimento de um herdeiro;
Na continuidade da tribo através da aceitação dos jovens adultos como membros da tribo em pleno funcionamento;
Na continuidade do estado (e identidade cívica) através: a) do ato de tornar-se cidadão do estado, b) de proprietários de terras que pertencem à jurisdição do estado, c) de pais de futuros cidadãos, e d) de protetores do estado em tempos de guerra;
Na continuidade da psyche (alma) através: a) da participação no processo procriativo e na produção de crianças, e b) no comprometimento cívico de uma maneira virtuosa e benéfica que desenvolva e refine a alma.

Os costumes e rituais dos ritos de passagem para a vida adulta participam nas três fases de passagem da seguinte maneira:

1. Separação: Cada rito de passagem para a idade adulta (maturidade sexual, aceitação tribal, casamento, cidadania, herança e serviço militar) tem um elemento da fase de separação dentro dos seus procedimentos e costumes. Cada faceta da vida adulta a que uma jovem pessoa deve se submeter, e assumir deveres e responsabilidades por ela, separa-lhe um pouco mais da sua infância. A maturidade sexual é a primeira e a mais significativa dessas fases de separação, uma vez que o estado do corpo da criança passa por uma transição física para a idade adulta. A aceitação tribal também age como um rito de separação no qual o jovem adulto se afasta da sobrepujante influência da família e entra no ambiente tribal, onde a sua própria individualidade será desenvolvida pela influência de pessoas de fora da sua família imediata. O casamento requer uma fase de separação para a noiva, que deve se separar de sua família para se tornar uma parte inteira do oikos (lar) do seu marido. Da mesma forma que as noivas são separadas de suas famílias pelo casamento, os jovens rapazes são separados de seus lares para assumir seus deveres militares. Tornarem-se cidadãos é tanto um ato de separação como de incorporação no qual se destaca o jovem adulto da irresponsabilidade e liberdade concedidas às crianças. O ato de separar o jovem adulto da sua infância é crucial para desenvolver maturidade e aceitar responsabilidades. A separação da criança da sua família, portanto, é também a liberação do novo adulto dentro da autonomia e senso de dever necessários a ser incorporado com êxito ao mundo adulto. Em um sentido religioso, esses ritos de separação incluem a partida dos Deuses que presidem a infância. A separação dos garotos e garotas adolescentes um do outro é também significante, já que esse é o rito de separação que irá também ser resolvido através da reincorporação dos homens e mulheres através do casamento.
2. Transição: A passagem transicional da infância para a idade adulta se refere à deliberada e mensurada transferência de poder da família para o jovem adulto. O rito inteiro de passagem para um garoto irá começar por volta dos quatorze anos e continuar até que ele esteja com aproximadamente trinta ou trinta e cinco anos. Enquanto as fases de transição masculinas podem ser medidas em idade, o rito de passagem para as garotas é determinado pela ocorrência de eventos. Os ritos de transição femininos começam com a transformação da puberdade, desenvolvem-se com as mudanças necessárias para adaptar-se à vida de casada (e a um novo lar) e culminam com a transição para a maternidade. Depois de gerar suas primeiras crianças, as jovens mulheres são percebidas como tendo completado plenamente seu potencial feminino e lhes é concedido o status de adulta completa. Tanto para garotos quanto para garotas, os rituais de transição são eventos que lhes introduzem em seus novos papéis em épocas determinadas: a) pelo crescimento natural; b) pelo alcance de uma idade prescrita; ou c) pelo destino. Os rituais que acompanham esses ritos introduzem os jovens adultos nos grupos sociais que preservam e continuam aspectos particulares da estrutura da sociedade adulta tanto no contexto familiar quanto no cívico. Os ritos de transição marcam os acontecimentos memoráveis de mudança da criança para o adulto, assim como degraus da escada da juventude para a maturidade.
3. Incorporação: A incorporação dos jovens adultos para seus novos grupos de iguais provém os adolescentes com guias e modelos de papéis experienciados para serem assimilados com êxito dentro de seus novos papéis. A passagem de incorporação primeiramente toma a forma de rituais que dão as boas-vindas ao adolescente dentro de seu novo status de adulto, embora sejam as experiências aprendidas de suas novas identidades e papéis na vida real que irão provar serem seus agentes últimos de maturidade. Essas experiências e papéis específicos de gênero auxiliam os jovens adultos a negociar a reincorporação da sociedade masculina e feminina que acontece pelo casamento.

As funções, os ritos de 'maioridade' e o agente de maturação da experiência e tempo não são apenas o processo de 'formar seres humanos', mas são mais especificamente os costumes que transformam os garotos e garotas em homens e mulheres helênicos.



Ritos são passados de geração a geração e objetivam preparar uma criança que entra nas suas identidades adulta e cívica ao cultivo das qualidades masculinas e femininas e às funções dentro de suas psiques. Essas qualidades irão transformar as faculdades espirituais, intelectuais e emocionais dos adolescentes que, por sua vez, irão suportar as mudanças biológicas ocorrendo dentro de seus corpos. Os costumes masculinos e femininos são diferentes uma vez que a anatomia, os papéis, as funções, as responsabilidades e deveres de homens e mulheres adultos diferiam tanto na família quanto no estado. Porém, apesar das diferenças nos rituais, a formula básica para o rito de passagem (passagem geracional e as três fases da passagem) é preservada dentro tanto dos ritos masculinos quanto os ritos femininos de maioridade.

É importante notar que o objetivo de qualquer rito de maioridade é suprir a criança com toda a informação e guia necessários à realização: a) delas mesmas como homens ou mulheres adultos (ou seja, desenvolvendo qualidades espirituais, intelectuais e emocionais masculinas e femininas apropriadas); b) de seus papéis dentro da futura unidade familiar seja como maridos, genros e pais, seja como esposas, noras e mães; c) de seus papéis dentro da tribo para garantir a continuação das linhagens e costumes tribais, assim como o direito de tribos específicas de possuir e governar sua terra ancestral; d) de seus papéis dentro do estado como cidadãos; e e) de seus papéis como membros adultos da religião através da aceitação de orientação espiritual dos Deuses que presidem sobre seus novos papéis e cuja influência irá auxiliá-los em aceitar o destino assinalado a eles pela lei natural.

Esses ritos de maturidade funcionam simultaneamente como uma fase de passagem para os pais do jovem adulto que deve transitar para dentro de seus novos papéis como sogros e avós. O despertar disso é um fator importante em garantir a distância, a liberdade e a responsabilidade naturais que um pai deve proporcionar a um jovem adulto que busca estabelecer a si mesmo como cidadão com a sua própria família. Devido à natureza geracional desses ritos, é responsabilidade de cada geração prover a orientação necessária para as próximas e futuras gerações.

a. Os Ritos Masculinos de Passagem para a Idade Adulta

Os ritos masculinos de passagem separam um jovem homem de sua meninice e o introduzem nestes novos grupos de pares adultos de: homens tribais, cidadãos, proprietários de terra, companheiros soldados, homens casados e pais. É um longo rito de passagem que se estende por muitos aos (dependendo da região) e compreende muitos sub-ritos de passagem que acontecem de acordo com as leis da cidade-estado.

Cada um desses sub-ritos de passagem incluem um desafio e teste que é essencial para um garoto superar a fim de ser incorporado na sociedade adulta masculina. O antigo conceito de que um garoto pode apenas se tornar um homem ao sobreviver a tribulações e provas às quais um homem deve aguentar e conquistar é central à ideologia de ritos masculinos de passagem para a maturidade.

Os testes e provações dos jovens é um assunto travado pelos antigos poetas cujos trabalhos foram executados através da mídia didática do teatro. ‘As Bacantes’ de Eurípides oferece um exemplo disso através do caráter do jovem Penteu, que se torna rei sem ter a sabedoria de passar no teste que o Deus Dioniso estabelece para ele. Sua morte trágica nas mãos de sua mãe e suas companheiras mênades é o resultado de sua falha em cumprir o desafio da masculinidade.

Um dos melhores exemplos de ilustração poética dos testes de masculinidades é o texto iniciatório de Filoctetes, escrito por Sófocles. Filoctetes é o relato de um jovem homem que através de trágicas circunstâncias não pôde completar todo o seu rito de passagem para a idade adulta e, por isso, foi pego em ma situação da qual ele não pode nem retornar nem progredir. No estilo adverso de Sófocles, o conto é relatado na maneira de uma alegoria e é um dos mais comoventes exemplos de um texto iniciatório antigo. Filoctetes exemplifica não apenas o curso da passagem geracional, mas também inclui todas as três fases de passagem (separação, transição e incorporação) de uma maneira que é digna de nota.

Passagem Geracional: O rito de geração é representado por Sófocles na forma de um arco o qual Filoctetes herda de seu ancestral Héracles. Esse tema é duplicado no personagem de Neoptolemos que herda suas armas do seu pai Aquiles. Essas armas desempenham papéis centrais no desenvolvimento do caráter de ambos Filoctetes e Neoptolemos. Isso revela uma faceta perceptível na passagem geracional na forma do papel desempenhado pela herança de armas em desenvolver a identidade de qualquer indivíduo. O fato de que a herança é uma arma é significativo, pois representa não apenas os meios de sobrevivência individual, mas também a maneira pela qual um herói pode provar ser digno através de sua coragem e valor. Quando tudo o mais abandona Filoctetes, é o arco de Héracles - como o emblema dessa passagem geracional - que garante sua sobrevivência através de sua habilidade de se autossustentar.
O Rito de Separação: O rito de separação é mostrado em duas formas de alegoria: a) pela mordida de uma serpente que separa Filoctetes de sua saúde, e b) por Odisseu, Agamenon e Menelau abandonando Filoctetes na ilha de Lemnos. Filoctetes é então separado não apenas de sua própria agilidade, mas também da companhia, orientação e lealdade de seus parentes masculinos. Ele deve enfrentar essa prova e superar esse teste de solidão e sobrevivência sem qualquer de seus confortos humanos, como família, tribo e companheiros cidadãos. Tudo o que lhe resta é o seu arco herdado. Quando Neoptolemos desvia a atenção dele de seu arco, a própria sobrevivência de Filoctetes fica ameaçada a não ser que ele aceite incorporar-se ao exército helênico em Tróia. Por isso que a separação de Filoctetes de seu arco é simultaneamente a separação de sua habilidade de se autossustentar. Sua subsequente sobrevivência depende totalmente de sua incorporação em uma causa na qual ele não mais acredita.
O Rito de Transição: O rito de transição é representado: a) pela transformação de Filoctetes de um saudável homem nobre no seu caminho à Tróia na companhia dos aspirantes a generais helênicos para um sofredor homem selvagem e coxo que se arrasta em torno de Lemnos; e b) a transformação prometida de Filoctetes e Neoptolemos pelo herói Heracles que promete a cura, a glória e a honra se eles fizerem a jornada para Tróia. A transformação de Filoctetes de nobre a selvagem é representativa da total natureza de sobrevivência animal da humanidade que deve confiar no jovem homem durante seu rito de passagem. A promessa de cura, glória e honra por Héracles [a natureza heroica] ilustra que o sofrimento de separação e transição será curado pela incorporação e integração bem-sucedidas das naturezas selvagem e heroica do homem.
O Rito de Incorporação: O rito de incorporação é demonstrado pela ação de Filoctetes de se juntar novamente ao exército helênico em Tróia. Essa é a culminação da integração do selvagem e heroico dentro de si, assim como um marco de passagem fundamental na jornada para aceitar a realização da maturidade, a despeito das duras verdades sobre a estrutura na qual a gente é incorporado. Isso ilustra a batalha entre desilusões e ideais, assim como a função dos ideais heroicos em garantir que se complete com sucesso o rito masculino de passagem para a maturidade.

Sófocles nos provém com um exemplo perfeito de uma jornada de um garoto para um homem, o qual forma uma fundação mais do que adequada sobre a qual podemos refletir sobre os verdadeiros ritos de passagem usados pelos antigos para catalisar a maturidade de jovens helênicos. 

Ritos Masculinos Iônicos de Maturidade na Atenas Arcaica e Clássica 

Os ritos masculinos iônicos de passagem da infância para a idade adulta em Atenas começavam em um festival de três dias chamado Apatouria. O Apatouria era celebrado no mês de Pyanepsion de cada ano e era o evento onde jovens garotos eram introduzidos na ‘frátria’ de seu pai. Cada frátria (sociedade de irmandade-de-sangue) em Atenas era formada de iônicos que compartilhavam uma ancestralidade comum. Durante os primeiros dois dias do Apatouria, era costume para os membros que tinham se casado no ano passado celebrar um festival de matrimônio para seus irmãos de frátria para anunciar seu casamento e a identidade de sua nova esposa. No terceiro dia, chamado de Koureotis; jovens de idade entre quatorze a dezesseis anos eram apresentados e convocados para a frátria de seus pais. Isso era um rito de maioridade extremamente importante para garotos iônicos e era um primeiro passo vital para não apenas se tornar um adulto dentro da sociedade dos homens mas também dentro do Estado Ateniense. Ser membro de uma frátria era um pré-requisito para ser elencado na lista de cidadania de qualquer demos (um dos 142 municípios remotos do interior que cercava Atenas dividido sob a jurisdição de 10 clãs iônicos ancestrais) até a reforma de Clístenes em 580 AEC. Ser listado como cidadão dentro de um demos ateniense era, por sua vez, um pré-requisito para ganhar completa cidadania ateniense ao alcançar a maioridade de dezoito anos. Durante sua apresentação à frátria, os garotos ofereciam um cacho de seus cabelos para a Deusa Ártemis (por quem garotos e garotas eram protegidos e a quem serviam até a maioridade) para representar que a infância deles estava terminando. Depois de sua incorporação na frátria, a sociedade agia como uma intermediária entre a linhagem familiar ancestral e o estado para esses jovens homens. Doravante, esses jovens eram chamados de ‘ephebos’ (efebo), que significa ‘no limiar da maturidade’ e representa o fato de que eles tinham agora entrado na fase transicional de passagem. 

Ao completar 18 anos, o efebo iria excursionar por todos os santuários de Atenas e fazer um juramento diante de testemunhas de que ele tinha atingido a maioridade e tinha nascido de acordo com as leis de Atenas (isto é, nascido de uma união legítima de um pai que era um cidadão ateniense registrado). No começo do século IV AEC, a lei foi reformada para afirmar que apenas uma criança nascida tanto de um pai quanto de uma mãe que fossem registrados como cidadãos atenienses poderiam ganhar a cidadania. Aos dezoito, o efebo poderia herdar propriedades, representar a si mesmo na corte, e era declarado livre dos cuidados do estado se ele fosse um órfão. E o mais importante: essa também era a idade quando o jovem homem se tornava elegível para dois anos de serviço militar obrigatório. Nessa época, seu pai ou o estado (se ele fosse um órfão de Guerra) apresentaria o efebo com grevas [armadura de pernas], peitoral, elmo, escudo e lança; com os quais ele iria passar pelo serviço militar.

Depois que esse período de dois anos acabava, a sua ‘efebidade’ terminava e eles eram considerados homens para alcançar certa maturidade através da sua exposição à batalha. Daí em diante eles eram chamados de ‘Neoi’ para reconhecer seu status como novos homens. Eles faziam um juramento de proteger Atenas e eram elegíveis para campanhas militares posteriores até que estivessem com cinquenta e nove anos de idade. Porém, os Neoi só eram considerados homens maduros completos na idade de trinta anos. Isso coincidia aproximadamente com a época quando eles iriam se casar e receber sua herança pela morte de seus pais (que eram em sua maioria ao menos 35 anos mais velhos que eles). Mesmo embora eles fossem considerados adultos maduros aos trinta anos de idade, os homens atenienses só eram encorajados a se casar e ter filhos por volta da idade de trinta e cinco anos. 

O sábio raciocínio por trás disso se evidencia pelas palavras de Sólon, legislador ateniense, pai da democracia e um dos sete sábios da antiga Hélade:

Uma jovem criança ao crescer primeiro perde os dentes de bebê 
 [assim estabelecendo ciclos de crescimento e sete anos];
Quando veramente os Deuses podem completar sete anos adicionais,
os sinais da completa juventude se tornam manifestos;
No terceiro [ciclo de sete anos], membros ainda crescendo, o queixo ganha penugem,
mudando o vigor da pele;
No quarto ciclo de sete, tudo fica melhor em força 
e os homens dão sinais de excelência;
O quinto ciclo é a época para um homem pensar em casamento 
e em produzir filhos para vir depois dele;
No sexto ciclo, a mente do homem é educada em todas as coisas,
ele deseja também não trabalhar em tarefas que não sejam práticas;
No sétimo dos sete ele é o melhor em mente e discurso;
Assim como no oitavo, quatorze anos somando ambos;
No nono ciclo, ele é ainda capaz, mas seu discurso e sabedoria 
são mais suaves em questões de grande virtude;
No décimo ciclo, se alguém chegar a essa medida completa,
ele terá sua porção de morte não fora da época;
Sólon

De acordo com o sábio raciocínio de Sólon: Casamento e filhos na quinta estação (35 a 41 anos de idade) resultará em um homem entrando na sua sétima e oitava estações quando seus próprios filhos e filhas entrarem na maioridade e ele assim estará no auge de sua mente e discurso e exemplificará uma maturidade perfeita. Um homem na completa maturação da maturidade ficará mais propenso a tomar as decisões necessárias para seus próprios filhos jovens adultos, para sabiamente guiá-los à maturidade. Se ele tiver filhos estando muito jovem, ele não estará maduro o suficiente quando eles entrarem na maioridade, e ele será suave demais com eles em termos de ensinar sobre a virtude.

Esse conceito dos níveis naturais de maturidade e das ações apropriadas para cada ‘estação’ do desenvolvimento do homem é uma compreensão importante da ideologia cercando os ritos de passagem na antiga Hélade e são bastante indicativas das expectativas dos cidadãos de qualquer estado helênico no qual a educação de crianças era uma responsabilidade da família [ao contrário do estado].

Ritos Masculinos Dóricos de Maturidade em Esparta durante o Período Clássico 

Os ritos masculinos de maturidade só diferiam vastamente em regiões onde a educação e a identidade cívica das crianças eram puramente responsabilidade do Estado e da comunidade em geral, ao contrário de ser deixado às unidades familiares individuais. Tal lugar era o Estado Espartano da tribo Dórica, formado por seus famosos guerreiros. A primazia do militar como um sistema de valores éticos e sociais em Esparta criou um grupo muito específico de ritos masculinos de maturidade que eram elaborados para promover e desenvolver as qualidades masculinas mais heroicas dentro de seus garotos púberes.

Uma das primeiras diferenças é que os garotos espartanos só permaneciam aos cuidados de suas mães ou pajens/amas-secas até a idade de sete anos, quando eles eram alistados no ‘Agogue’ (um sistema de escola comunitária masculina), na qual os garotos viveriam enquanto recebiam sua educação e aprendiam treinamento militar, habilidades de caça, além de esportes e treino social. Esse era o primeiro rito de passagem no qual efetivamente se iniciava a separação do garoto:

Do conforto do lar para que eles pudessem aprender a suportar tempos difíceis e a disciplina;
Da unidade familiar individual para que a criança pudesse crescer na maneira padrão prescrita pelo Estado para os Hoplitas (soldados) mais do que de acordo com os caprichos e riquezas de uma família particular. Essa era a segunda fase de sua incorporação no estado e identidades cívicas. A primeira aconteceu quando eles eram crianças.
Da natureza individualista e autocentrada da infância e a incorporação na natureza coletiva e padrão dos hoplitas que devem aprender a subjugar sua individualidade pelo bem das estratégias militares coletivas, tal como a lendária falange. Esse estilo comunitário de um rito de passagem assegurava a ligação necessária para uma sociedade masculina coesa, assim como uma superioridade militar disciplinada.
Do mundo das mulheres para o cuidado da sociedade masculina, que agiria como papéis-modelo, assim como guiaria o desenvolvimento do garoto a uma identidade adulta masculina.

Na idade de treze anos, e coincidindo com puberdade, o garoto adolescente tinha que suportar um teste de sobrevivência que era planejado para eliminar os jovens fracos e só permitir aos garotos mais fortes continuar no treinamento para se tornarem hoplitas no exército espartano. Esse teste –desafio é similar ao do Filoctetes de Sófocles, no qual cada garoto era enviado para as montanhas sozinho por um período de tempo no qual ele teria que usar seus instintos e habilidades para sobreviver.

Aos dezoito, um jovem espartano se tornava elegível para se tornar um reservista no Exército Espartano e o rito de passagem mais importante (como razão de ser) começava quando ele estava com vinte anos e se tornava elegível para dez anos de serviço militar. Os homens jovens eram encorajados a se casar nesse estágio, embora não lhes fosse permitido morar com suas esposas até que tivessem terminado o serviço militar na idade de trinta anos. Os jovens espartanos na idade de vinte anos eram também requeridos a se tornarem membros das ‘syssitia’ (clubes/refeitórios de jantar) compostos de aproximadamente quinze membros por clube. O propósito de tal clube era ensinar os jovens homens a confiarem uns nos outros. Esses jovens eram chamados de ‘homoioi’ (que significa 'iguais') em referência a seus estilos de vida comum e à disciplina da falange que demandava que nenhum hoplita se considerasse superior ao outro. Como parte de seu serviço militar, requeria-se que eles lutassem na temporada de campanha anual ou sempre que necessário. Ao partirem para a batalha, suas esposas ou mães (se eles fossem solteiros) lhes apresentariam com seus escudos junto às palavras "E tan e epi tas" ("com ele ou em cima ele"), em referência à exigência espartana de que um soldado deveria ou voltar vitorioso para casa carregando seu escudo ou morto e carregado sobre ele. Vitória ou morte eram as únicas opções para um hoplita.

Na idade de trinta anos, os jovens homens eram dispensados do serviço militar em tempo integral e eram considerados cidadãos espartanos completos, com todos os direitos e privilégios concedidos a um completo cidadão. Eles poderiam agora morar com suas esposas e famílias, embora permanecessem como reserva ativa do exército espartano até que estivessem com sessenta anos de idade. Ao alcançar essa culminação de seu rito de passagem para o mundo adulto e a sociedade masculina, esperava-se dos homens espartanos que eles contribuíssem financeiramente ao sistema das ‘syssitia’ e participassem na orientação dos jovens garotos e ‘homoioi’.

b. Os Ritos Femininos de Passagem para a Idade Adulta.

Ao começo da menstruação, começam os ritos de passagem à idade adulta para as garotas do mundo antigo. O status de mulheres adultas nas várias cidades-estados tinha uma influência muito grande em determinar a forma do papel ideal e as funções femininas na família, sociedade e dentro da estrutura cívica. A função natural e o propósito da feminilidade eram divinamente prescritos como aqueles de esposa e mãe das futuras gerações. Por isso, o treino matriarcal e a preparação para a idade adulta estava de acordo com as expectativas religiosas, sociais e cívicas para as mulheres dentro da estrutura das leis e dos sistemas de valores de qualquer cidade-estado ou região em particular.

Onde a linhagem e a estirpe eram altamente valorizadas por uma tribo que governava uma região, os ideais de feminilidade domesticada passiva predominavam, e as mulheres estavam mais inclinadas a ser limitadas na sua liberdade cívica. Em outras regiões, onde a força e o heroísmo eram valores cívicos primários da tribo, as mulheres eram educadas e treinadas de uma maneira igual a suas contrapartes masculinas, embora com uma função cívica e social diferente. Assim, nenhum rito feminino de passagem no mundo antigo pode ser visto sem o contexto do status cívico e social das mulheres em uma região em particular e durante períodos específicos do tempo. Tal como com os homens, os ideais e valores do estado e/ou da tribo em qualquer dado momento ditavam e determinavam a natureza dos ritos de passagem da infância para a maturidade. Ainda assim, apesar dos detalhes específicos do papel e função das mulheres nas várias regiões, a fórmula e o propósito básicos de um rito de passagem permaneciam os mesmos.

Da puberdade até a época de seu casamento, uma garota era chamada de ‘Parthenos’ para indicar seu status como virgem ou donzela. O status da virgindade era o primeiro rito de separação de uma garota da sua infância. Ela se colocava no limiar da idade adulta devido à sua habilidade física de gerar filhos. Ela não era mais uma criança, mas também não era uma mulher. Os Antigos Helenos só concediam o status de ‘Gynaike’ (mulher) a alguém que tivesse suportado o parto e dado à luz uma criança. A época de transição física e emocional das donzelas era quando elas passavam por mudanças hormonais que iriam lhes conduzir à completa maturidade e fertilidade sexual. Como uma donzela, ela estava então totalmente integrada dentro dos cuidados de mulheres adultas cuja responsabilidade era a de prepará-la para seu novo status como alguém elegível para o casamento através de sua incorporação à sociedade das donzelas. 

A segunda fase do rito de passagem dela seria através do casamento, após o qual ela seria chamada ‘Nymphe’ (a noiva). Uma vez casada, a garota era separada de seu estado de donzela por meio da fase de transição da consumação sexual. Isso era simultaneamente um ato de reincorporação ao mundo dos homens, do qual ela foi separada durante os primeiros anos da puberdade pela introdução de papéis de gênero. Esse ato de incorporação reintroduz a moça à sociedade masculina em seu novo papel como esposa. Assim também ela será incorporada à família e às associações tribais do marido, enquanto assume os deveres domésticos, sociais e cívicos, e as responsabilidades condizentes com seu novo status.


Ritos Femininos Iônicos de Maturidade na Atenas Clássica 

Uma das razões centrais de as meninas iônicas em Atenas se casarem tão jovens e entrarem na maturidade tão cedo é a percepção iônica da menstruação e das mudanças no comportamento que muitas garotas sofrem ao entrar na puberdade. O comportamento emocional e hormonal era visto como aflições médicas de garotas se aproximando e incorporando as mudanças na menarca. O tratamento médico prescrito para essas aflições era normalmente a relação sexual ou a gravidez. Podemos entender melhor essa perspectiva e sua influência sobre a idade na qual as mulheres iônicas deveriam se casar e gerar filhos através das palavras do famoso médico/clínico Hipócrates:

Mas quando a carne está produzindo, rapidamente o sangue menstrual flui pela estreita passagem das veias e a parte do corpo não fica em perigo. Mas quando o sangue menstrual flui lentamente, as veias e a parte do corpo ficam em perigo e a garota se torna propensa à selvageria e à loucura. E quando o útero é preenchido com o sangue menstrual, há calafrio, com febre. A essas febres chamam de ‘febres errantes’.

A cura médica e psicológica para essas ‘febres errantes’ era o intercurso marital e a maternidade. Por isso, a maturidade sexual de jovens garotas era frequentemente marcada por ritos que as preparavam para a o casamento e a gravidez. Outra aflição da ‘maioridade’ feminina era a da histeria, a qual, por uma perspective antiga, estava conectada com o útero e um diagnóstico de ‘fluxos menstruais bloqueados’. A cura médica prescrita para tal condição era a gravidez.

Como consequência das ideias relativas à menstruação e das curas para os 'distúrbios' advindos dela, as garotas adolescentes enfrentavam o prospecto de um casamento prematuro. O casamento iria efetivamente removê-las do lar familiar, incorporá-las em uma nova família e deixá-las transformadas em mulheres adultas sexualmente ativas e mães. Os ritos de maioridade para garotas adolescentes (especialmente para garotas iônicas em Atenas) era assim em última instância o processo pelo qual elas deveriam aceitar seus destinos como esposas e mães. Essa aceitação de sua natureza feminina adulta era vista como 'aquilo que faria a carne produzir' (tomando as palavras de Hipócrates) e curá-las de seus distúrbios menstruais. 

A aceitação da natureza adulta de alguém e todos os deveres e obrigações que essa aceitação trazia é a chave vital para todos os ritos de passagem de ‘maioridade’. A identidade da garota é transformada na de uma mulher adulta. Essa é a jornada da qual não há volta para o feminino e era normalmente simbolizada pela nova noiva queimando a rola da carroça que a carregara do seu lar familiar até a casa de seu marido onde os filhos dela seriam criados.

Ritos Femininos Dóricos de Maturidade em Esparta 

Os dóricos, em particular os dóricos espartanos, institucionalizaram os jogos atléticos para garotas que estavam chegando à maioridade e desencorajavam o uso dos cosméticos e ornamentos. Acreditava-se que o exercício ajudava a suportar a dor do parto assim como garantia a produção de crianças saudáveis. As garotas ficavam nuas durante o treino e os jogos atléticos, embora essa nudez não fosse um espetáculo público ou intencionalmente erótico. Plutarco registra uma ocasião na qual um solteirão observava essas garotas nuas se exercitarem e a qual foi considerada uma ofensa grave pelos espartanos adultos.

Uma vez que a perfeição militar era de primária importância na sociedade espartana, as mulheres eram altamente valorizadas como 'mães de futuros hoplitas'. Diferente das mulheres iônicas, que normalmente estavam casadas e com filhos aos quatorze anos de idade, as jovens mulheres dóricas só eram encorajadas a ter filhos no final da adolescência (por volta dos dezenove anos), devido à alta taxa de sobrevivência de mães e de crianças saudáveis produzidas se a gravidez ocorresse depois que o crescimento adolescente estivesse completo. 

No entanto, a educação dada às garotas começava bem antes da adolescência [aos sete anos de idade] e diferia vastamente da educação dada aos garotos. Ser alfabetizado (saber ler e escrever) não era uma exigência padrão na educação nem de homens nem de mulheres, uma vez que não era pré-requisito para a proeza militar. O propósito principal da educação era, portanto, sustentar a perfeição militar de Esparta. Como os garotos eram educados para se tornarem hoplitas (soldados), assim as garotas eram educadas de uma maneira apropriada para se tornarem mães de hoplitas.

A educação da garota era regida pelo Estado e era uniforme para todas as meninas de uma idade específica. A uniformidade da educação garantia que todas as garotas fossem treinadas para ser o mesmo tipo de mãe. Desenvolviam-se nessas garotas a força física, emocional e espiritual, combinadas com a saúde, para que elas pudessem ser duronas o suficiente para criar [e frequentemente enterrar] os futuros hoplitas de Esparta. A educação delas continuava até que estivessem com dezoito anos de idade, quando, a partir dessa idade, as jovens eram consideradas núbeis (prontas para o casamento). Todos os filhos nascidos do casamento pertenciam ao oikos (lar) do marido, e o controle da esposa e o governo sobre esse lar só era adquirido através dos filhos que ela gerava. O conceito de casamento em um sentido espartano não incluía ideologia ou moralidade que abrangesse uma prática de monogamia nem para o marido nem para a esposa. Xenofonte e Plutarco ambos registram que não era incomum para um homem sem filhos se aproximar do marido de uma mulher [que já tivesse gerado uma criança] e pedisse que ele lhe permitisse procriar com a esposa.

Parece provável que as mulheres cujos maridos são inférteis poderiam tão facilmente quanto solicitar procriação de outro homem. Era dever de uma esposa espartana administrar os negócios financeiros do lar. Assim, a responsabilidade econômica das finanças familiares recaía unicamente sobre os ombros das esposas espartanas, cujos deveres incluíam o pagamento de encargos cívicos. Um desses encargos cívicos era o pagamento exigido de taxas de rancho (refeitório militar) pelos lares espartanos. A inabilidade da falta de pagamento dessas taxas de rancho resultava na perda da cidadania para os homens espartanos. Consequentemente, a própria preservação da cidadania repousava sobre as habilidades das esposas espartanas em administrar os negócios financeiros de suas famílias.

Ritos Femininos Argivos de Maturidade 

Exemplos das consequências de garotas que continuavam a resistir em aceitar suas naturezas adultas (isto é, casamento e filhos) existem dentro do legado da literatura helênica antiga. A personagem secundária de Io no ‘Prometeu Acorrentado’ de Ésquilo explora a histeria e a jornada de autodescoberta de uma jovem garota a aceitar sua iminente identidade feminina adulta e as expectativas de sua família e as expectativas e responsabilidades cívicas. Como Prometeu, que é atado ao sofrimento por seu roubo do fogo divino, Io irá sofrer diariamente até que sua natureza heroica (como Héracles no mito de Prometeu) possa aceitar as implicações inerentes ao rito de passagem de donzela a mãe. Sua aceitação completa da sua nova identidade irá sinalizar o fim da fase de transição e o começo de sua incorporação na sociedade feminina adulta. Até que a incorporação esteja totalmente aceita, o segundo estágio de passagem transicional irá continuar. Do Prometeu Acorrentado e da personagem Io, é claro que uma passagem transicional estendida irá frequentemente resultar em padrões de comportamentos espirituais, emocionais e físicos errantes.

O relato de Io em ‘Prometeu Acorrentado’ encontra seu catalisador para a mudança (e o crescimento) na forma da Deusa Hera. A influência da ira de Hera em um mito ou peça normalmente indica uma competição (Agon) ou um esforço ao qual o herói ou heroína deve suportar e sobrepujar a fim de receber a aprovação da Deusa. É significativo que a ira da Deusa transforme Io em uma vaca, uma vez que este é um animal sagrado a Hera. Assim como Hera também é a Deusa patrona das mulheres e do casamento.

A transição para a maturidade sexual e os ritos de passagem que auxiliam as garotas com esse processo também aconteciam sob o patronato do culto de Hera de Argivo (Argos). No Heraion, acontecia um rito de passagem no qual uma garota na maturidade sexual era colocada em uma área solitária e confinada, pintada de branco, e se referiam a ela como uma 'vaca'.

Esse ritual contém todos os quatro aspectos de um rito de passagem no qual a garota deve passar por uma experiência similar a aquela pela qual Io passou por desejo de Hera. Esta é uma forma de passagem geracional tanto por o mesmo rito de passagem ser usado de geração em geração como por o modelo divino de papéis e funções de gênero ser herdado por cada geração de jovens garotas se tornando mulheres.
A garota é mantida em reclusão e separada de sua família e de ambientes familiares. Esta é a fase de separação do rito de passagem.
A garota é pintada de branco e entra no estado do mundo da mulher sob a influência da Deusa Hera sob cujos cuidados a garota é passada quando ela entra no casamento. Essa garota pintada de branco simultaneamente era simultaneamente transformada no sagrado animal de Hera ao mesmo tempo em que era transformada de uma criança a uma donzela núbil. Essa é a fase de transição do rito de passagem.
Depois do rito, a garota retorna à sua família para preparar-se para o seu future casamento e maternidade. Suas responsabilidades se tornam aquelas de uma mulher qualificada e autorizada (“empoderada”) com o dever divino de aceitar a identidade de uma mulher adulta com tudo o que isso implica. A responsabilidade adulta irá agora ser esperada dela e, quando ela heroicamente se erguer a este desafio e aceitar sua nova maturidade dentro da família e do Estado, ela irá se tornar integrada à sociedade adulta. Essa é a fase final do rito de passagem: incorporação.

Embora o ritual da sua maioridade esteja complete, a garota deve ainda enfrentar o verdadeiro rito de passagem no mundo real. Bem semelhante ao fato de Io, na forma de uma vaca, ser perseguida por Zeus na forma de um touro; a jovem garota é pintada de branco e chamada de vaca, mas para a sua transformação de Parthenos (donzela) a Nymphe (noiva) ser completa, ela deve ser “entourada” (isto é, perder sua virgindade). Isso alinha a jovem garota diretamente a Hera como a Deusa Vaca de Mulheres e Casamentos, cujos epítetos expressam os estágios da vida feminina. Esses epítetos são Hera Pais (a criança); Hera Ataurote (a não-‘entourada’, referindo-se à virgindade); Hera Azuges (a desatrelada, referindo-se a não casada); Hera Nymphomene (a noiva); Hera Zeugia (a atrelada, referindo-se à casada) e finalmente Hera Teleia (aquela que está completa, perfeita e realizou o seu propósito).

Baseado na simbologia paralela dos epítetos de Hera, do mito de Io e do ritual argivo, é possível que esse rito de passagem em particular fosse dado à garota antes de um casamento iminente. O noivo então representaria Zeus como a garota representaria Hera, e seu casamento seria um rito de passagem geracional que reencenaria e refletiria o Hieros Gamos (casamento sagrado) entre Zeus e Hera.


Muito da ideologia dos ritos helênicos de passagem representa uma antítese ao pensamento do Novo Mundo. Os sucessos da Segunda Onda Feminista e outros Movimentos Igualitários em homogeneizar os papéis de gênero de homens e mulheres dentro do Estado e da sociedade farão com que a clara distinção entre papeis de gênero pareçam irreconciliáveis dentro do mundo moderno. E, certamente, o pensamento da Segunda Onda Feminista é em muitas formas contrário à ideologia dos antigos ritos de passagem. É apenas na Terceira Onda Feminista e no Feminismo Cultural específico que as diferenças entre as qualidades e características essencialmente masculinas e femininas podem ser positivamente exploradas e celebradas mais uma vez.

Em um cenário contemporâneo, esses ritos de passagem se focariam em preparar os jovens garotos e garotas para o papel que eles desempenharão dentro da família e do Estado (incluindo as leias e costumes da época). Esses papéis são flutuantes, devido a uma economia instável e a sistemas políticos mutáveis. O importante é oferecer a informação e orientação necessárias e apropriadas a esses adolescentes. Porém, os próprios ritos deveriam ser deixados sem mudanças, e apenas a informação, orientação, funções e responsabilidades deveriam ser atualizadas para se adequar ao século XXI da Era Comum e além.

A estrutura da passagem geracional e as fases de passagem deveriam permanecer inalteradas uma vez que são fórmulas iniciatórias para catalisar a maturidade em jovens helenos. Os atos simbólicos dentro dos ritos de passagem deveriam também ser preservados como um ato de passagem geracional e permanecer como uma forma respeitada de memória ancestral.

1. Rites of Passage in Ancient Greece: Mark William Padilla
2. Sophokles' Philoktetes: translated by Gregory MacNamee
3. Euripidis' Ion: translated by George Theodoridis
4. Religion in the Ancient Greek City: Louise Bruit Zaidman,Pauline Schmitt Pantel, Paul Cartledge
5. The Ancient Greeks: A Critical History: JV Fine
6. Religions of the Ancient World: Sarah Iles Johnston
7. Art, Culture and Cuisine: Phyllis Pray Bober
8. Figures of Speech, Men and Maidens: Gloria Ferrari
9. The Ancient Greeks; A New Perspective: Stephanie Lynn Budin
10. Spartan Women: Sarah B. Pomeroy 
11. Marcello Lupi, L'ordine delle generazioni. Classi di eta e costumi matrimonali nell'antica Sparta. Pragmateiai: Collana di studi e testi per la storia economica, sociale e amministrava del mondo antico. Bari: Edipuglia, 2000. Pp. 228. ISBN 88-7228-237-3. 
12. Xenophon: The Constitution of Sparta
13. The Unmovable Spartans: Robin Fowler