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Bolos Gregos Antigos

Por Daphne Varenya Eleusinia, tradução de Alexandra Nikaios ~


Existem várias referências a "bolos", tanto em textos como em imagens antigas, moedas etc. Os termos gregos mais comuns são plakous, pelanos, popanon e pemma. Relevos votivos mostram cestos cheios de bolos em formato de rosquinhas, com alguns recém colocados no altar. Cestos com outros tipos de bolos (redondos, piramidais etc) são vistos em pinturas de vasos. Mais raros, os bolos antropomórficos, provavelmente ligados ao culto de Perséfone! Aparecem numa cena representada em escritos de Calímaco.

O termo Pemma se refere a um bolinho, mas às vezes o elemento cereal pode estar totalmente ausente, sendo substituído por outros ingredientes, como nozes ou frutas secas. Ele normalmente se refere a bolos ofertados a Demeter, Zeus e Atena (Herodotus 1.160, Pausanias 1.38.6; Antiphon 174.2; Athenaeus 12e, 172c-e, 642a, 645e, 648a; entre outros). Um médico hipocrático, Galeno, falava das virtudes do pão, o alimento por excelência, derivado do fruto da própria Deméter. Falava também dos pemmata; ele conta que se fritava uma mistura de água e farinha em óleo aquecido em uma panela sobre um fogo alto, virando o bolo várias vezes até ficar fritado por igual. Ele atribuía qualidades terapêuticas adstringentes aos bolos, que normalmente eram cobertos por um mel quente, embora alguns preferissem guarnecê-los com sal marinho. Os pemmata eram consumidos em festivais da pólis e em banquetes privados, e também eram mencionados em conexão com ofertas aos mortos, pois eram jogados nos túmulos próximos aos poços das casas (os altares do tipo bothroi). Esses eram pemmata antropomórficos, segundo Heliod. Aeth. 6.14.3-6.

O Plakous, normalmente traduzido como 'torta de queijo', é mencionado em muitos textos, tanto religiosos quanto seculares. Havia muitos tipos deles em áreas rurais, feito de ingredientes prontos e rústicos. Os ingredientes básicos eram queijo, mel e farinha, conforme descrito por Antífanes (fragmento 55). Os atenienses eram particularmente bons, devido à excelente qualidade do mel ático (Athenaeus D 449c). Eles deveriam ser encharcados com mel derretido, que gradualmente se misturava, liberando seu sabor, enquanto ainda quente, para ficar inseparável da massa e do recheio de queijo de leite de cabra fresco (o recheio típico dos plakounte). Eles pareciam irresistíveis, ao menos nas palavras de Athenaeus: “quando vejo o largo, redondo, dourado e doce rebento de Deméter chegar, um caloroso plakous…" Eis a receita de Cato: misture farinha de trigo e farinha de espelta para fazer uma mistura macia, depois deixe secar. Nesse momento, você tem que passar o rolo na massa para fazer camadas finas, nas quais você espalha azeite e assa no forno. Então faça um creme de queijo de cabra e mel. Por último, pegue um pote de cerâmica e coloque camadas alternadas de massa e creme, terminando com uma camada de massa, e asse por não mais que meia hora a 150°. Então, quando estiver dourado e pronto, tire do forno e salpique com mel. O plakous era normalmente oferecido em sacrifício, como mostra um calendário religioso de Mileto do século V. Era também uma das comidas contidas no liknon e carregada em procissão pelo liknophoros (Anecd. Graec. I, p. 277). Um poema do século III AEC descreve o presente de uma criança para Apolo, depois de ter seu cabelo cortado pela primeira vez: um galo e um plakous de tamanho considerável, com recheio de queijo (Anth. Pal 6.55). Uma variedade é o plakous triablomos, um bolo dividido em três partes por tiras radiando para fora do nó central.

Kribanai são um tipo de plakous que Athenaeus, citando Sosibius (fonte espartana) descreve como tendo forma de seios. "Os espartanos os usam durante os dias festivos das mulheres, e os membros do coro os conduzem em procissão quando estão para cantar o enkomion (elogio) da noiva.”

O Popanon é a forma de bolo mais comumente ofertada no altar. Junto com os quatro popana, deve também ter um quinto bolo, o 'pemptos bous' (quinto boi). Esse é um bolo redondo, bastante grande, mas leve, com um 'botão ou bojo'. É possível identificar o popanon monomphalon com esse tipo de bolo, que é ofertado a Ártemis, Leto, Héracles, Hermes e Kourotrophos (em uma inscrição do século IV AEC de Pireus no culto de Artemis e Leto, e outro dos séculos III a II AEC de um calendário ateniense, e um calendário de Samos o qual fala de Hermes e dos Kourotrophoi). Nos sacrifícios preliminares, ele normalmente é associado com as Duas Deusas (Aristophanes, Pluto 660; Thesmophoria 285; inscrição do século IV century relativa ao culto de Asclépio: três popana em Malearis, e também três para Apolo e Hermes). Um popanon deveria ser ofertado a Zeus Georgos, os Anemoi (Ventos), e Héracles (de um calendário de Atenas do século I). O achatado popanon kathemenon é oferecido a Poseidon, Kronos, Apolo e Artemis (calendário ateniense, século I EC). Os popana polyomphala tem vários 'botões', normalmente cinco: quatro dos lados e um no centro, conectados em cruz. Nos famosos 'likna' encontrados no santuário de Demeter e Kore no Acrocorinto, muitos tipos diferentes podem ser com quatro, cinco, sete ou oito botões. Um tipo com doze botões era chamado de popana dodekonphala, que eram oferecidos às Duas Deusas, a Héracles, Apolo, Ártemis, Zeus Georgos, Poseidon, os Anemoi, e Kronos (calendário ateniense, século I EC).

O Pelanos também era um bolo usado em ofertas. Ele era feito com farinha do trigo obtido da planície de Rharus e era oferecido às deuses durante os Mistérios Maiores (Aristófanes, Pluto 676-81; Euripides fragment 912 Nauck; Polybius 6. 25.7; Suda sobre ‘anastatoi’, citando o fragmento 350 de Euripides Nauck; comentário de Eustathius na Ilíada 4. 263).

A pankarpia era a oferta de todo tipo de frutos na forma de um bolo, e vinha em formatos diferentes. Euripides descreve isso como um pelanos. Teofrasto, por sua vez, descreveu-a como uma 'melitoutta' [pão de mel] - neste caso, sabemos que os catadores de erva afirmavam que essa oferta era para ser dedicada para a Terra depois de reunir ervas sagradas específicas. (Sophocles fragmento 398 Radt; Euripides fragmento 912 Nauck, Theophrastus HP 9.8.7). Sua forma mais comum era a de um bolo redondo preparado quebrando-se as itria* e as fervendo no mel. Elas então eram enroladas em bolas e envoltas em pedaços de papiro para manter sua forma, até esfriarem. Em um calendário do século I EC, para culto privado, elas eram oferecidas a Zeus e Zeus Georgos e Ktesios (Athenaeus 473c, 648b; LSCG 52, line 15).

Outro bolo largamente usado em sacrifício é o Amphiphon, especificamente em Atenas. Era uma torta de queijo na qual se acendiam velas, ofertada a Ártemis no dia da lua cheia no mês de Mounykhion. Philemon, em 'A Garota de Rodes' diz: "Artemis, amada dama: eu te trago este amphiphon, ó senhora, como bolo de oferta". Diphilus também se refere a isso no seu 'Hecate'. Philocorus diz que um amphiphon deveria ser trazido aos templos de Ártemis ou a uma encruzilhada, porque nesse dia a lua se põe ao mesmo tempo em que o sol se levanta, e o seu é aceso pelos dois" (Athenaeus D 645a, citando Philochorus).

Em Delos, há o Basynias, um bolo de mel guarnecido com um figo e três nozes, ofertado a Íris na ilha de Hécate (Athenaeus D 645b, citing Semus): “na ilha de Hécate, as pessoas de Delos oferecem basyniai, como eles são chamado. Eles são feitos com uma massa de farinha de trigo fervida com mel, na qual são adicionadas 'coccora' (sementes de romã), um figo ressecado e três nozes". 

O Arister era um bolo a ser queimado no fogo, em honra a Hélio, a Mnemosine e às Moiras (Pollux 6.76; LSCG2 1.B19, linhas 23-24; LSCG2 2, linha 2; LSCG2 6, linha 2).

O Kreion era um tipo de pão doce e, em Argo, ele era servido com mel; as noivas o davam ao futuro marido.

Ainda em Atenas, o Elaphos, um bolo em forma de veado-macho, feito com farinha de espelta, mel e sementes de gergelim, era oferecido na Elaphebolia (Athenaeus 646c D)

O Hebdomos Bous é um bolo em forma de lua crescente, dado em oferta com seis phthoeis (F. Sokolowski, Lois sacrées des cités grecques). 

Na Sicília, havia o Myllos, na forma dos genitais femininos; ele era oferecido a Deméter e Perséfone. "Heraclides de Siracusa em seu 'Os costumes de Siracusa' diz que, na Panteleia, que é parte da celebração da Thesmophoria, bolos no formato da genitalia feminina eram feitos com sementes de gergelim e mel, e eram chamados mylloi na Sicília, e eram carregados em procissão em honra das Deusas". (Athenaeus 647a)

Em adição, o ‘Phthois’, um bolo redondo usado em sacrifícios, talvez chamado Selene, consistindo de farinha de trigo, queijo e mel, seria consumido junto com a carne de animais que tinham sido sacrificados (Athenaeus D 489d, 647d, Eustathius nos dá a receita.) Clemente de Alexandria diz que era um dos bolos da 'cista mystica'. Eles eram normalmente oferecidos durante o sacrifício. Em inscrições, eles são associados com Hestia, Zeus, Apolo e Asclépio (Clemente, Protr. 2.19; inscrição do século IV AEC em Erythrai e uma do século I EC, referente a um sacrifício a Zeus Atabyrios).

O Palathion era um bolo achatado e oblongo feito de frutas ou nozes e prensado com mel. Athenaeus confirma que era uma típica oferta em kernos (Athenaeus 500d; Theophrastus HP 4.2.10; Sudas sobre ‘Palathe’). 

Ames é normalmente traduzido como 'bolo de leite', e havia também uma variedade menor, chamada amestikoi: doces folhados (Aristophanes, Pluto 999, Philo, On Drunkenness 217; Athenaeus 644f).

Cato nos provém com a receita do Enkhytos: “Misture queijo e farinha de espelta em partes iguais. Pegue um funil e passe nele espirais de massa em igual medida em banha quente. Agite as espirais na banha/gordura com duas espátulas. Retire, espalhe mel e deixe dourar na banha mais fria. Sirva em temperatura moderada com mel ou 'mulsum' (vinho branco com mel), acompanhado de vinho doce”. Parece que na preparação desse bolo haviam claras alusões sexuais, conforme diz Athenaeus citando Hipponax.
 
O Gouros é mencionado por Solon em seus iâmbicos: “Eles estavam bebendo, e alguns deles estavam comendo itria*, enquanto outros comiam pão, e ainda outros comiam 'gouroi' com lentilhas. Nenhum tipo de massa faltava ali, entre todos os tipos que a terra negra produz para a humanidade, mas tudo estava disponível em abundância”. Ele também aparece em uma elaborada descrição poética por Filoxeno de Citera em estilo ditirâmbico, em seu 'Banquete'.

* Itria: o itrion é uma massa leve feita de gergelim e mel, descrita por Anacreonte,
"eu quebrei um pequeno itrion crocrante e o almocei, e bebi uma taça de vinho". 
'Os Acarnianos', de Aristófanes, 1092: tortas, bolos de gergelim, itria. 

O Enkris era um donut/rosquinha fritado em óleo ou banha e mergulhado em mel (Stesichoros 179 Davies Cato DA 79; Petronius S 1.3; Athenaeus D 645e; Hesychius, Lexicon s.v. enkris).

Sobre a Psòthia, ou seja, migalhas ou miolos de pão; Pherekrates, no seu ‘Pequena Mudança’ (fr. 86) diz: você terá uma transformação e psòthia no Hades.

O Gastris era uma especialidade cretense feita com nozes, sementes de papoula e sementes de gergelim. Athenaeus nos dá a receita: nozes e avelãs, junto com amêndoas e semenstes de papoula, mel, pimenta e sementes de gergelim branco. Parece ser quase o mesmo bolo descrito por Plautus, o 'laterculi' - mas também lembra bastante o delicioso baklavá da cozinha grega moderna (Athenaeus D 647f; Plautus, Poenulus 325-6).

Outra especialidade cretense é citada por Athenaeus, “Glykinai: bolos cretenses feitos com vinho doce e azeite de oliva, como diz Sleucus em seu glossário.”

O Melipekton e o Melitoutta, nomes que significam 'mel talhado/coalhado' e 'com sabor de mel', são bolos dos quais nada se sabe além de seus nomes (Heródoto 8:41 ‘melitoessa'; Aristófanes, 'As Nuvens' 507, 'Lisístrata' 601).

O oinoutta, cujos ingredientes principais são vinho e queijo, talvez se pareça com o 'mustaceus' [uma espécie de bolo de casamento feito com mosto/uva e assado em folhas de louro] (Aristófanes, Pluto 1121 com scholia; Plínio NH 15127; Athenaeus D 647d).

O Pyramis e o Pyramous eram obviamente piramidais em formato, como alguns dos bolos repredentados em cerâmicas. Em um vaso, mostrando uma cena de uma iniciação (provavelmente Eleusina), uma criança segura um grande 'kiste' [baú, caixa] onde bolos redondos e tortas em formato de pirâmide são claramente visíveis. Em outra cena, uma mulher usando uma coroa segura uma cesta cheia de tais bolos. Calímaco sugere que o pyramous era dado como recompensa a aqueles que permaneciam acordados durante as cerimônias noturnas (pannychis = noite toda). Inversamente, Athenaeus associa esse prêmio com o 'kharisios' (Athenaeus D 646b, 647c). Plutarco (Sympos.lib. IX quaest. 15) declara que isso foi dado como recompensa aos jovens vencedores das competições de ginástica na dança pírrica. (Suda sobre ‘pyramous'; Photios sobre pyrameidés; Schol. Aristófanes Thesmophoria 94, Cavalieri 277; Clem. Protr. 2.19).

O Sesame ou sesamis era um bolo redondo, feito de uma mistura de sementes de gergelim, azeite de oliva e mel, servido em casamentos atenienses. Antífanes em Deucalião se refere a “sesamides ou bolos de mel ou algo do tipo” (179 Stesichorus Davies, Athenaeus D 646f; Aristófanes, Paz 869). É um dos bolos contidos na 'cista mystica' incluída nos ritos de Dioniso e Gaia, de acordo com Clemente de Alexandria (Clem. Protr 2.19). Um calendário espartano dedicado aos deuses ctônicos prescreve oferecer esse bolo a Demeter e Despina. 

O Tagenites, taganies, ou tagenias era um tipo de crepe ou panqueca consistindo simplesmente de farinha e água, como pode ser entendido da descrição de Galeno (Galeno AF 6. 490-1; Athenaeus D 110b, 646b, 646e). Isso também se confirma por Hipponax em um verso: “enquanto comes avelã e coelho, tempere a massa da teganitas frita com sementes de gergelim” (PLG 4.2. 474).

Amorbites: a única coisa que sabemos sobre esse bolo (Athen. 14.646f) é que é uma especialidade siciliana e, de sua raiz etimológica, podemos inferir que tenha a ver com pastores e o campo, e alguns estudiosos têm especulado que ele continha mel e queijo ricota. 

Empeptas: da descrição que encontramos em Athenaeus, (14,645) parece se tratar de um bolo feito com vários queijos, mais ou menos semelhante ao francês ‘vol au vent’. 

Diakonion: “quando os atenienses celebravam o Eiresione em honra de Apolo, tocando lira e címbalos e alguns carregando ramos, e outros carregando bolos chamados diakonion… também Ameria diz que os diakonia são bolos preparados para a cerimônia de Eiresione de Apolo... alguns dizem que esse é um bolo de cevada” (Suda s.v.).

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# Mais, no livro: "Food in the Ancient World from A to Z", de Andrew Dalby.


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