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Entrevista do Thiseas com a Alexandra

A organização grega THYRSOS lançou a primeira edição de sua revista IDEON ANTRON, com 60 páginas, e nela vocês encontram uma entrevista de 5 páginas do Thiseas com a Alexandra, representando o RHB. Pode-se ler em grego no site da revista clicando AQUI (páginas 8 a 12) ou a original em inglês clicando AQUI. Embaixo segue a tradução para o português a partir do inglês:

1) Por favor, nos apresente o que é o RHB e uma curta história de como as coisas começaram!

RHB significa "Reconstrucionismo Helênico no Brasil". Ele começou quando eu comecei a estudar o politeísmo helênico (acho que foi em 1998, pois estava estudando mitologia grega em 1996) através de alguns grupos estrangeiros do yahoo, pois não havia um site ou grupo em português para isso, os poucos que existiam eram ou sobre mitologia ou história, não relacionados a uma verdadeira religião ainda acontecendo. Eu era membro de alguns Thiasi on-line e senti a necessidade de reunir informação sobre minha crença em minha própria língua, então comecei a pedir permissão a alguns autores para traduzir coisas para minhas práticas de culto e colocá-las em algum lugar on-line. Também importei alguns livros para estudar. Então veio a Hellenion e o Neokoroi e outros dos EUA, os quais eu seguia, e mais tarde encontrei o website grego do YSEE. O primeiro site brasileiro (e primeiro em língua portuguesa) sobre o reconstrucionismo helênico construí em março de 2003 na Geocities, mudando depois para o GooglePages. Sempre atualizei-o enquanto aprendia mais e mais, e todo ano mudava algo no 'layout'. Naquela época eu comecei a receber vários e-mails de brasileiros perguntando coisas, esclarecendo dúvidas, e percebi que não estava sozinha em meu serviço aos Deuses, eis por que decidi transformar o website em um forum. Infelizmente, o forum grátis que o hospedava às vezes ficava fora do ar sem avisar, e algumas pessoas faziam certa bagunça nos tópicos. Então decidi reconstruir o site no novo GoogleSites e manter o forum apenas para as pessoas se conhecerem, sugerirem coisas, fazer perguntas e postar material legal que viam pela Internet. Eles diziam que se sentiam melhor assim, porque quando as coisas estão seguras no website eles não ficam com vergonha ou com receio de postar coisas no fórum. Além disso, temos uma comunidade no Orkut com quase 300 membros e uma nova página no Facebook.

2) Não seria estranho perguntar como você foi parar na religião helênica? Muitos pensariam - não eu - "não é algo estrangeiro?" Como você responderia para eles?

Sim, quando comecei eu tinha uma amiga que me dizia que eu cultuava "deuses mortos". Ano passado estive na casa dela e a lembrei do que havia me dito, mas graças a Eles ela está mais mente-aberta hoje e tentando não julgar as pessoas como costumava fazer anos atrás. O estranho para eles não é o fato de serem deuses estrangeiros (já que muitas pessoas no Brazil cultuam orixás africanos), mas ser uma religião quase desconhecida que tomam como apenas mitologia e literatura. Eu costumo mostrá-los que não estou sozinha no mundo, mostrando os grupos que têm a mesma crença que eu e como eles são pessoas adultas/maduras com alto nível educacional e que gostam de estudar e serem racionais, porque nossa religião faz bastante sentido, ela tem ética e é humana (no bom sentido do termo). Eu conto sobre os convites que recebo para palestrar em outras cidades, então eles vêem que não sou louca e é uma coisa séria. Eu também lembro de Salustius que dizia que mesmo que os mitos fossem histórias que "nunca aconteceram", elas "sempre existiram", então elas têm seus efeitos nas nossas almas e vidas. Se eles não vêem isso como religião, ao menos têm que concordar com o poder de se acreditar em algo que faz você se sentir melhor e lidar melhor com as outras pessoas, a natureza e o mundo em geral. Penso que a melhor maneira de mostrá-los que isso é uma coisa boa é dando o exemplo em nossas vidas (mais do que apenas dizer palavras), e eu tento fazer isso.

3) Você acha que o restabelecimento dos Antigos Caminhos é só outra curva do que é conhecido como "nova era" ou é algo mais sério e é verdadeiramente uma questão crucial na história da humanidade? Você acha que ele vai crescer mais do que está agora?

Não acho que é uma curva da "nova era", porque o que me contavam sobre a "nova era" desde a minha infância era ou coisas muito assustadoras (relacionadas ao demônio e o fim do mundo) ou coisas zen/esotéricas (relacionadas com mágica e reino espiritual, que de certa forma é melhor do que ser uma pessoa materialista, mas enfim...), ambas as coisas não definem os Antigos Caminhos de maneira alguma. A Nova Era traz novas leituras sobre coisas não-tão-velhas, e os Caminhos Antigos são tradições que sempre estiveram lá. A humanidade evoluiu tecnologicamente, mas perdeu muito da conexão com a ética e a justiça e todas as virtudes que as pessoas aprenderam nos Tempos Antigos. O Mundo Grego Antigo era tão cheio de maravilhas e importantes conhecimentos e descobertas em todas as áreas que importam, que deveríamos pensar por que não temos aquelas mentes/almas prolíficas que eles tinham. A humanidade tem que se espelhar em bons exemplos de civilizações, e a Hélade era uma das mais inspiradoras. É hora de parar de falar sobre por que era assim e começar a fazer as melhores coisas que funcionavam para eles e deveriam funcionar de novo para nós. E acho que vai sim crescer, porque já está crescendo. Quando penso como a maioria dos meus amigos são politeístas, é difícil imaginar que somos menos do que 1% da população. Como disse na resposta anterior, as pessoas estão ficando mais acostumadas com a nossa presença e espero que elas comecem a respeitar isso ao ver como somos sérios e o quão boas são nossas vidas agora que estamos próximos aos Deuses.

4) Vocês preferem alguma escola filosófica em particular como grupo? Vocês acreditam que é "fácil" combinar as diferentes opções das escolas filosóficas helênicas? Aqui na Hélade há muita discussão quanto a isso!


Aqui não discutimos muito sobre isso, nós meio que deixamos as pessoas livres para escolher o que querem seguir, embora estejamos focados na orientação das máximas délficas e nos princípios de Sólon. Mas posso responder por mim mesma, eu gosto mais do método socrático da maiêutica e de algumas práticas de Sêneca. Sobre ser ou não "fácil" combinar escolas, acho que é uma questão de re-definir conceitos. Por exemplo, nós (meu grupo) gostamos de pensar na Ataraxia como um sinal de controle sobre nossas emoções de modo que não nos perturbemos com questões diárias, como os estóicos dizem ser uma tranquilidade mental; mas se você pesquisar como os epicuristas entendiam a Ataraxia você verá que eles dizem algo sobre "não temer os deuses porque eles são distantes e indiferentes a nós" e não podemos concordar com isso. Então voltamos a Sócrates e Platão que costumavam definir todas as coisas antes de falar delas.

5) Que significado você pode definir para a frase "gnothi s'eauton" (conhece-te a ti mesmo)? Se temos de um lado a opinião de Sêneca sobre a brevidade da vida, o quão difícil você acha que é atingir um objetivo como esse?

Eu gosto de pensar na frase completa "conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses". Ela me lembra de duas coisas. A primeira é de o único controle (relativo, não total) que temos é sobre nós mesmos, então não podemos esperar mudar outras pessoas ou que outras pessoas façam o que faríamos. Tipo, se alguém te magoa, é escolha sua continuar a se sentir magoado, você não pode colocar a responsabilidade em algo de fora. Temos que conhecer nossas forças e fraquezas, nossas sombras e potenciais, nossos dons e falhas, de uma forma a procurar pelo nosso Self ("know your self" seria "know your Self"*), aquela coisa similar à sagrada completude dentro de nós. Nós caminhamos nessa direção para sermos um só com as deidades e com todo o mundo que eles criaram. Nós não podemos pensar como se fôssemos separados de todo o resto. A segunda coisa é a máxima "assim como é em cima, é embaixo", todas as coisas que acontecem no Universo acontecem dentro de nossos seres também, todas as coisas que os Deuses são e mostram nós podemos ver refletidos na terra também. Então faz sentido que ao nos conhecermos nós conheceremos qualquer coisa que exista. Com relação a Sêneca, bem, eu li que pessoas que costumam achar a vida curta é porque estavam mortas por tempo demais antes de começar a viver de verdade. Além disso, se Platão e Homero estão certos, podemos reencarnar e beber menos do Lethe para nos lembrarmos de vidas anteriores melhor e tentarmos avançar neste caminho ao auto-conhecimento. A dificuldade de atingir esse objetivo não pode ser uma desculpa para nos fazer sequer tentar chegar lá. Toda conquista é um passo dado que traz uma melhor comunhão com o divino e com a felicidade.

* Self = 'si mesmo' da teoria junguiana (Nota da tradução, pois o jogo de palavras não coube muito em português).

6) Estamos chegando a uma questão crucial. Você acredita que alguém nasce com um "pepromeno" - destino, que não pode mudar, então ele não pode mudar nem mesmo o caráter, ou você acredita que está em nossas mãos e escolhe fazer o que quisermos disso? Acho que seria algo que dá o curso à evolução humana através dos anos. Você concorda?


Acredito que construímos nossa "tapeçaria" no tear das Moiras junto com Elas e com os outros Deuses. Eles nos apresentam opções, fazemos escolhas, eles mostram as possíveis consequências dessa escolha e então nosso fio se move em direções diferentes e cruza com o fio de outras pessoas, então no final da vida podemos olhar qual desenho/figura foi tecida ali. Também, talvez a Teoria das Cordas (que é um bom nome para isso) da Física Quântica torna possível existir um multiverso, onde cada universo mostra um caminho que não tomamos, tipo, em um desses múltiplos mundos algumas pessoas ainda estão vivas ou coisas assim. Isso é algo que não podemos dizer com certeza, apenas pensar sobre. Eu gosto de pensar que todos têm um "daimon" para realizar, como uma semente que está esperando para se tornar uma árvore. Quando você vai na direção de vê-la crescer, você provavelmente terá muitos "deja-vus" de estar dentro do seu destino, mas você pode escolher não segui-lo e fazer outra coisa da sua vida. Eu tenho visto muitos sinais dos deuses que não podem ser apenas coincidência, talvez seja "sincronicidade", mas eu amo ver como eles têm planos e estão trabalhando conosco e construindo a tapeçaria de nossas vidas junto com nossas vontades.
Com relação à evolução, acho que ela tem um aspecto duplo, por um lado é bom, mas por causa de certas escolhas "erradas" nós perdemos um monte de coisas, e uma delas é a conexão que costumávamos ter com o mundo sagrado e a sabedoria do cosmos.

7) Na sua opinião, é possível para o homem moderno se reconectar com os valores e o caminho dos Antigos? Algumas pessoas dizem que isso é só uma reação romântica fantasiosa contra os problemas de hoje. Como você argumenta com elas?

É possível a reconexão. A História nos ajuda a entender o comportamento de pessoas e sociedades e a entender as mudanças que tivemos até sermos o que somos agora, e isso também ajuda a prever o futuro um pouquinho. Ao estudar o resultado das coisas e sistemas que aconteceram antes, podemos verificar quais funcionaram e quais foram prejudiciais à humanidade como um todo e seus grupos particulares. A História também nos faz pensar sobre nossa identidade e valores morais, para desenvolver uma cidadania saudável. Se tomarmos os bons exemplos e tentarmos segui-los, esperamos ter os mesmos bons resultados, ou até melhor, porque temos mais conhecimento do que antes. Se alguém pega a experiência histórica conhecida com a guerra para fazer uma guerra mais poderosa, ninguém diz que isso é uma idéia romântica ou fantástica de que tal coisa funcionará como antes. As pessoas estão mais acostumadas a copiar desastres e coisas ruins do que batalhar por serem mais justas e virtuosas. (Isso me lembra Tácito, que dizia "a gratidão é um fardo e a vingança é um prazer"). Quando você estuda História e Filosofia, você vê que os problemas de hoje são praticamente os mesmos daqueles que tínhamos no mundo antigo. Nós normalmente ouvimos as pessoas dizer que "ah, esse texto é tão velho mas ainda assim tão atual/verdadeiro para o momento recente...", e é verdade, hoje em dia estamos repetindo erros que os antigos já tinham nos ensinado como solucionar. Então deveríamos tentar pensar e agir de forma similar a eles, em um esforço para ser tão virtuoso quanto eles foram (ou tentavam ser). Se você verificar como as pessoas dos nossos dias lidam com seus problemas, verá que elas têm menos habilidades para solucionar coisas práticas e manter sua saúde emocional/mental ao mesmo tempo. Eis como sabemos que precisamos de mais intervenções como psicoterapia hoje do que eles precisavam naquela época. (E minha primeira graduação foi em Psicologia, então não estou sendo leviana/descuidada ao dizer isso.)

8) Acho que fizemos um círculo completo, a primeira coisa era apresentar o RHB, seu trabalho e idéias. Quero lhe agradecer por seu tempo e paciência ao responder nossas perguntas. Por favor, encerre esta entrevista como desejar!

Foi um prazer, obrigada pelo interesse de vocês em nós! Eu gostaria de dizer que quando falamos de um novo culto aos Deuses antigos, queremos dizer que é "novo" por ser "eterno" (nunca envelhece) e não porque seja algo que muda ou renasceu como uma moda passageira. É diferente de algumas assim-chamadas "tradições" que são do nosso século e não têm tempo para provar que irão durar. Isso é algo que temos que deixar bem claro, porque define como o reconstrucionismo não é uma forma de pensar por algum modismo de "nova era". Espero que as pessoas tenham gostado da nossa conversa e que tenhamos clarificado coisas nesta entrevista. Se alguém ainda tiver perguntas, podem nos contatar pelo site, forum ou e-mail. Que os deuses vos sejam favoráveis!

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