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Hermes

Hino Homérico XVIII - A Hermes
Canto ao Hermes Cileno, o assassino de Argus, senhor de Cilene e da Arcádia rica em rebanhos, o que traz a sorte, mensageiro dos deuses imortais. Ele nasceu de Maia, a filha de Atlas, quando ela esteve com Zeus, -- uma tímida deusa ela. Sempre ela evitou o tropel dos deuses abençoados e viveu em uma caverna sombria, e lá o Filho de Cronos costumava se deitar com a ninfa de ricos cachinhos à calada da noite, enquanto a Hera de braços brancos caía em um suave sono: e nem um deus imortal e nem um homem mortal sabiam disso. E então te saúdo, Filho de Zeus e Maia; contigo eu comecei: agora me voltarei a outra canção! Saúdo-te, Hermes, doador das graças, guia e doador das boas coisas!
(tradução da Alexandra)

Hino Homérico XVIII: A Hermes
Hermes celebro, Cilênio Argicida
De Cilene guardião e Arcádia de mil rebanhos
núncio de imortais próvido que Maia
filha de Atlas a Zeus em amor unida venerável
engendrou: de venturosos Deuses evita companhia
habitando antro umbroso, onde Cronida
à ninfa de belas tranças unia-se no apogeu da noite
enquanto doce sono tinha à Hera bracinívea,
oculto a Deuses imortais e homens mortais.
[Assim saúdo-te, Filho de Zeus e Maia
Ao principiar por ti, passarei a outro hino.]
Salve, Hermes caridoso Mensageiro dador de bens.
(tradução de Rafael Brunhara)

Hino Órfico a Hermes, com fumigação de olíbano
Ouve-me, Hermes, mensageiro de Zeus, filho de Maia,
com um peito onipotente; Deus dos jogos, regente dos mortais,
benévolo astuciador, emissário Argicida [Argeifontes]
de aladas sandálias, amigo dos homens e profeta da palavra aos mortais,
tu te alegras na ginástica e em ilusões ardilosas, serpentário 
intérprete de tudo, fonte dos lucros, alívio de nossos cuidados,
que tem nas mãos a impecável arma da paz;
Corício, venturoso provedor de variado falar,
auxiliador dos trabalhos, amigo dos mortais em necessidade,
terrível arma da linguagem,  venerável entre os homens: 
Ouve as minhas preces, e fornece o nobre fim de uma vida
de trabalhos, de gráceis palavras e lembranças.
(tradução de Rafael Brunhara)

Hino Órfico a Hermes XXVII
HERMES, aproxime-se e ouça minha prece com bondade,
Arauto de Zeus e Maia, de divina procedência
Conhecedor de competições, regente da humanidade,
Em seu coração só poder, e na mente prudência.
Mensageiro Celestial, de habilidades variadas,
Cujas artes mataram a Argus, aquele que é sempre alerta,
Através do ar caminha, com suas sandálias aladas,
Oh, amigo dos homens, e do discurso, o grande profeta
Aquele que apóia a vida, a ti a alegria pertence
assim como as artes, a ginástica e a fraude divina
Que com o poder da linguagem o homem convence
Que é fonte de todo lucro e protege os amantes da jogatina
Cuja mão segura seu brilhante cajado
abençoado deus de providência e abundância
De várias línguas, cujo auxílio é sempre encontrado
Que diante das necessidades mostra sua benevolência
Que os homens reverenciam, aquele que torna a palavra uma arma
Esteja presente, Hermes, e escute a meu chamado
Ajude minha obra, e conclua minha vida com paz de alma
um espírito dotado de memória e de palavras escolhidas.
(postado por Antonio)

Hino Órfico a Hermes 
Ouça-me, Hermes, de Zeus mensageiro, e filho de Maia;
vitorioso tu és e presides os jogos dos homens.
Gracioso ministro, e astucioso argicida,
com tuas sandálias aladas, dos deuses a nós profetizas.
Que ama os exercícios, os truques e as artimanhas,
intérprete de tudo, fonte dos lucros e alívio.
Tu, que nas mãos tens a arma da paz e no trânsito a sorte, 
venturoso Corício e provedor do discurso.
Que ajuda os mortais que o veneram na necessidade,
terrível arma da língua e guia nos nossos caminhos.
Ouça minha prece e concede um nobre e bom fim à vida
em escolhidas palavras, e memoráveis trabalhos.
(tradução de Alexandra)

Vídeo do hino em grego, cantado pela Álex, com melodia de Melissa G.
Mp3 do hino em grego e Mp3 do hino em português.

Hino homérico a Hermes:

1. Nascimento

Cantai, ó Musa, a Mercúrio, progênie de Zeus e de Maia,
De Cilene Senhor, rei da Arcádia abundante em rebanhos,
Benfeitor, mensageiro dos deuses, nascido de Maia,
A de belos cabelos, unida em amor a Zeus Crônio,
Veneranda. Ela, ausente da turma dos deuses beatos,
Numa umbrosa caverna morava, onde o filho de Cronos
Misturava-se à ninfa de belos cabelos, noite alta,
Quando o sono ocupava a divina de cândidos braços,
Hera, oculto dos deuses do Olimpo e dos homens mortais.
Quando o tempo chegou de cumprir-se a vontade de Zeus,
Já passados dez meses ao longo do tempo no céu,
fez a luz revelar que façanhas ilustres fizera!
E eis que um filho nasceu industrioso, em mil treitas esperto,
Predador, condutor de rebanhos, ministro dos sonhos,
Espreitante da noite, vigia das portas, que iria ostentar
os seus ínclitos fastos aos deuses eternos beatos.
Matutino, já no meio-dia tocava da cítara,
E, de noite, o rebanho roubava de Apolo dardeiro.
E depois que dos flancos da madre surgiu imortais
Muito tempo no berço sagrado ele não ficaria.
E em busca das vacas de Apolo, imediato transpôs
A portada de sua caverna de altíssimo teto.

2. Inventividade: invenção da cítara
Foi aí que encontrou um quelônio, que felicidade!
Hermes foi o primeiro a tornar instrumento um quelônio
Que encontrou sobre o sólio das portas em frente à caverna
A pastar ante a casa, no pasto, de grama florido,
Com seus passos morosos. O filho de Zeus, benfeitor,
Viu e riu e, em seguida, as seguintes palavras lhe disse:
"Um sinal muito caro, em verdade, não vou desprezar!
Salve, pois, cousa amável, ritmada, hetaíra das festa,
Que alegria te ver! De onde vem esse lindo brinquedo?
Carapaça tu és, tartaruga que vive nos montes!
Já te apanho e levo-te pra casa. Dar-te-ei serventia.
Desprezar-te não vou. O primeiro vou ser a quem serves!
Estar em casa é melhor, pois na rua se encontra a ruína!
Proteção contra o mal da magia decerto serias
Se vivente; se morta, no entanto, mui bem cantarás!

3.a-) Um lugar para o furto.
"Aqui vens, de impudência vestido? E eu agora pressinto
Que, nos laços que leva na cinta insolúveis e fortes,
brevemente este umbral passarás preso ao filho de Leto,
Te furtando do espaço entre montes e vales que roubas!
Mas qual nada! Teu pai te gerou para seres tormento
Para os homens mortais e também para os deuses eternos."
Então, Hermes esta hábil resposta à mamãe proferiu:
"Minha mãe, por que falas-me como se eu fosse um menino
Pequenino, a cabeça repleta de boas querências,
Timorato, um menino a ter medo das rusgas da mãe?
Bem agora! O que eu quero é me dar à melhor dentre as artes!
De só vez me bastar e bastar-te, não sós entre os deuses
Imortais, sem presentes e of´rendas, sem invocações,
E isolados pra sempre ficarmos, assim como queres.
Bem melhor é viver para sempre entre os deuses eternos
Muito rico, opulento, punjante, que em casa viver,
Em um antro sombrio! A respeito das honras eu bem
Delas mesmo cuidei de prover, como aquelas de Apolo.
Se a meu pai não preocupa que eu tenha, garanto que eu mesmo
Tentarei (sei que posso!) tornar-me rei dos bandidos!
Se o glorioso rebento de Leto pegar-me procura,
Eu farei com que causa maior aconteça de oposto,
Eu irei a Piton arrombar sua vasta morada:
Incontáveis e lindos tripés, caldeirões excelentes:
Pilharei seu tesouro, co´as peças de ferro esplendente,
Muitos ricos estofos! Já tudo verás, se quiseres."

3b-) Um lugar para a mentira.
"Ó tu, filho de Leto, por que esse discurso tão rude?
E aqui vires em casa a buscar tuas vacas agrestes
Nada vi, nada sei, nem ouvi dizer nada a ninguém,
Nem indícios mostrar, já que não valeriam de nada.
Um larápio de bois, homem forte, também não pareço.
Meu trabalho não é esse, outras cousas em vez, me interessam.
O meu sono interessa e interessa-me o leite materno,
Lãs dispostas em volta dos ombros e tépidos banhos.
Que não saiba ninguém, entretanto, a razão dessa rixa!
Grande espanto traria, decerto, entre os deuses eternos
Um bebê recém-nato a cruzar os portais da cancela
A aboiar rude gado; sem senso parece o que dizes.
Nasci ontem, meus pés são macios e a terra é mui dura.
Se quiseres u´a jura farei à cabeça do Pai.
Eu declaro: de modo nenhum poderei ser culpado
Não ter visto ninguém a roubar tuas vacas agrestes,
Quantas vacas que forem. Do assunto só sei por ouvir."
E, no enquanto falava, lançava brilhantes piscadas
Por debaixo dos olhos, fitando por todos os lados,
Suspirando profundo, qual fossem de tédio as palavras.

4- Hermes como guia
Conservando seus panos nos braços sem os descartar,
Então Zeus riu-se muito por ver o pequeno treteiro
A negar com tanta arte e destreza essa estória das vacas.
Em seguida ordenou aos dois filhos que, mentes concordes,
Dessem busca, Mercúrio na frente, entretanto, de guia,
A mostrar o lugar, apesar da malícia na mente,
Onde as vacas de largas cabeças houvera escondido.
Acenou co´a cabeça, e aceitou o glorioso Mercúrio.
Porque é fácil para Zeus, o porta-égide, impor obediência.

(Tradução de Jair Gramacho)


Hino Homérico XVIII - a Hermes:

Ó Musa, canta Hermes, filho de Zeus e de Maia,
senhor de Cilene e da Arcádia rica de rebanhos,
mensageiro veloz dos imortais, que Maia venerável gerou
a ninfa augusta das belas tranças, unindo-se em amor com Zeus;
5 Ela escapava à assembléia dos deuses beatos
morando no antro escuro, onde Cronides
se unia à ninfa das belas tranças, no coração da noite,
enquanto o doce sono aprisionava Hera dos brancos braços:
ele se ocultava aos deuses imortais, e aos homens mortais.
10 Mas quando se concretizou o desenho do grande Zeus ,
e para ela a décima Lua se estabeleceu no céu,
o deus trouxe à luz o menino, e a sua obra foi evidente:
naquele momento ela gerou um filho de muitas artes, de mente sutil ,
bandido, ladrão de bois, inspirador de sonhos,
15 vigia da noite, que fica de emboscada nas portas; ele bem cedo
cumpriria gesta famosa na presença dos imortais.
Nascido à aurora, ao meio dia já tocava a lira,
e depois do pôr-do-sol roubou as vacas de Apolo arqueiro,
no dia em que o gerou Maia venerável, o quarto do mês.
20 Ele, quando saltou fora do útero imortal da mãe,
não jazeu por muito tempo inerte no sagrado berço,
mas saltou em pés, e se pôs a procurar as vacas de Apolo,
ultrapassando o limite do antro de arco sublime.
Lá fora encontrou uma tartaruga, e disso obteve alegria infinita:
25 na verdade, Hermes foi o primeiro que criou uma tartaruga canora.
Ela se pôs de frente perto da saída da corte,
pastando, diante da casa, um pouco de erva viçosa,
e movendo as patas placidamente: o veloz filho de Zeus
riu ao vê-la, e subito disse:
30 <
Salve, amiga do altar, de amável aspecto, que acompanha a dança:
tu sejas bem vinda: de onde vens ó belo brinquedo?
Tu vestes uma casca variegada, tartaruga que vive sobre os montes;
E então, eu te tomarei e te levarei para a minha casa; de todo o modo
me serás útil,
35 e não te negligenciarei: e tu favorecerás a mim antes que a qualquer outro.
É melhor estar em casa: há perigo fora.
Tu por certo serás para mim uma defesa contra o sortilégio funesto,
então viva; e se depois tu viesses a morrer, então saberias cantar maravilhosamente>>.
Assim disse, e, erguendo-a com as duas mãos,
40 subitamente se dirigiu para dentro da casa, levando o amável brinquedo.
Depois, empurrando com uma lâmina de ferro cinza,
extraiu a polpa da tartaruga moradora dos montes.
Como quando um rápido pensamento atravessa o ânimo
de um homem que atormentam numerosos afãs,
45 ou quando brilha através dos olhos a luz do olhar,
assim Hermes pensava junto às palavras e aos atos.
Cortadas na justa medida lastras de cana, as enfiou
no casco da tartaruga, perfurando-lhe o dorso.
Depois, com atenção, esticou em torno dela uma pele de boi;
50 fixou dois braços, os uniu com uma barra,
e estivou sete cordas de intestino de ovelhas, em harmonia entre elas.
E quando o construiu, regendo o amável brinquedo,
com o plectro experimentou as cordas, uma depois da outra: tudo sob a sua mão
produziu um som prodigioso, e o deus o seguiva com o seu doce canto
55 arriscando na improvisação, assim como os jovens,
em festa, durante os banquetes, se desafiam com estrofes pungentes:
cantava Zeus Cronides e Maia dos belos calçados,
como um tempo se encontravam no amplexo amoroso,
e assim celebrava a própria nobre estirpe;
60 Exaltava depois as servas e a esplêndida moradia da ninfa,
e os tripés na casa, e os vasos de bronze.
E enquanto cantava , já na sua mente meditava outras impresas.
Levando a côncava lira ao seu sagrado berço
a depôs; ele depois, desejando saciar-se de carne,
65 saltou fora da sala odorada, para colocar-se em vigia,
maquinando na sua mente um engano fora do comum,
aqueles os quais preparam os ladrões no curso de uma longa noite.
O Sol se era já imerso no oceano, sob a terra,
com os seus cavalos e o carro, quando Hermes
70 alcançou correndo os montes escuros da Pieria,
onde os sagrados bois dos deuses beatos haviam os seus estábulos,
e pastavam nos amáveis prados não tocados pela foice.
Entre eles o filho de Maia, da vista aguda, assassino de Argo,
separou do gado cinqüenta vacas do mugido profundo.
75 Em seguida as conduziu através do terreno arenoso, com um estranho movimento,
virando as pegadas; ele não esquecia a arte do engano,
e invertia as pegadas das sandálias: aquelas anteriores atrás,
aquelas posteriores na frente; ele contrariamente procedia de frente.
E sem demorar, sobre a areia marinha, trançou com vimes
80 sandálias inauditas, impensadas, obra maravilhosa
 unindo cordas e ramos de murta.
Quando reuniu uma braçada de ramos frescos,
habilmente aos pés ligou as sandálias ligeiras
com suas folhas, que ele, assassino de Argo,
85 havia colhido, para celar o seu retorno de Pieria,
como quem se apressa por um longo caminho com meios originais.
Mas um velho que trabalhava na sua vinha florida o avistou
enquanto corria pela planície, através da relvada Onquesto;
e a ele primeiro dirigiu a palavra o filho da gloriosa Maia:
90 <<Ó velho das costas curvadas, que capina em torno às tuas plantas,
na verdade tu terás abundância de vinho, quando todas essas vinhas derem a uva:
e tu ainda que tenha visto, seja como aquele que não vê; tendo ouvido, seja surdo;
e cala, uma vez que não és por nada tocado no teu interesse >>.
Assim dizendo, incitava as vacas das testas vigorosas.
95 Muitas montanhas escuras, e vales plenos de ecos,
e planícies floridas, atravessou o glorioso Hermes.
A sua tenebrosa aliada, a noite divina, era passada
a sua maior parte, e se aproximava a aurora operosa;
e fazia pouco que subia ao seu lugar de vigia a divina Selene
100 filha de Pallas, o deus que medita orgulhosos pensamentos,
quando o vigoroso filho de Zeus ao rio Alfeo
suspendeu as vacas de Febo Apolo, da ampla fronte.
Frescas de força, elas chegaram ao estábulo do teto sublime,
e ao bebedouro de animais, diante a um magnífico prado.
105 Lá, depois de haver bem pastado a erva as vacas do profundo mugido,
e as haver conduzidas todas juntas ao estábulo
enquanto ruminavam o trevo e o cípero orvalhado,
recolheu muita lenha, e experimentou a arte do fogo.
Pegou um esplêndido ramo de louro, e o fez girar em um ramo de romãzeira,
110 segurando-a fortemente entre as mãos: de lá emanava um quente sopro.
Na verdade, Hermes primeiro revelou o fogo, e os instrumentos para acender-lo.
Juntou muita lenha seca e dura, e em um fosso escavado no terreno
a acumulou em abundância; e relampejou a chama
difundindo por um vasto espaço a labareda do fogo, que intensamente ardia.
115  Enquanto a força do glorioso Hefesto alimentava o fogo,
duas vacas dos cornos tortos, que mugiam surdamente,
ele arrastou para além do limiar,
perto do fogo- uma vez que era grande a sua força-:
e jogou ambas à terra, de costas, sem vida;
depois, inclinando-se, as girou, e as feriu na nuca.
120  Passava de um trabalho ao outro, cortando as carnes cheias de gordura;
enfiava em espetos de madeira, e assava junto
a carne, e as apreciadas costas, com o sangue negro
contido nas vísceras. Estas coisas permaneceram ali, em um lugar;
as peles, ao contrário ele deixou sobre uma rocha escabrosa,
125  onde ainda agora se encontram, depois do longo tempo transcorrido,
a uma grande, incalculável distância do fato. E depois,
Hermes de ânimo alegre depôs as grossas carnes
sobre uma rocha polida, e cortou 12 partes
distribuindo-as a sorte: e fez delas uma homenagem perfeita.
130 Naquele instante o glorioso Hermes desejava para si o privilégio das carnes:
o doce aroma, de fato, era um tormento para ele, ainda que ele fosse imortal;
Todavia o seu coração valoroso não se deixou induzir
a comer as carnes com a sagrada garganta, por mais que ele o desejasse.
Ele ao contrário depôs no estábulo do teto sublime
135 a gordura, e a abundante carne, e as pendurou em alto,
monumento do seu recente furto; depois, ergueu um punhado de lenha seca,
com a chama do fogo destruiu completamente as patas e as cabeças.
E quando teve tudo terminado no modo mais oportuno
jogou as sandálias no Alfeu dos sorvedouros profundos,
140 apagou os rastros, e cobriu de areia as cinza negras,
nas últimas horas da noite: esplandecia do alto a bela luz da lua.
Logo em seguida atingiu as linhas divinas de Cilene,
à aurora: e não o encontrou ao longo do caminho
nenhum dos deuses beatos, ou homens mortais,
145 nem latiram os cães: o veloz Hermes, filho de Zeus,
curvando-se, passou através da fechadura do antro,
simile a uma brisa de verão, como a névoa.
Rapidamente chegou à grossa entrada secreta da gruta,
movendo-se com o passo leve; nem fazia rumor, como acontece ao tocar o solo.
150 Sem demora o glorioso Hermes entrou no berço:
com as faixas enroladas em torno às costas , como um menino ainda bebê,
apertando entre as mãos a coberta que havia sobre os joelhos,
e divertindo-se com ela, jazia; e à esquerda tinha a amável tartaruga.
Mas, ainda que fosse um deus, não escapou à deusa sua mãe; e esta lhe disse:
<< O que fazes, espertinho? E de onde chegas assim em plena noite,
sem vergonha? Eu estou convencida,
em verdade, que rapidamente, com as bandas em ligações inextricáveis,
entre as mãos do filho de Latona passará de novo por aquela porta,
ao invés de zoar por aí sem freio, de agora em diante, pelos vales.
160 Retorna lá de onde vieste! grande tormento gerou teu pai
para os homens mortais e para os deuses imortais>>
A ela Hermes respondia com hábeis palavras:
<< Mãe , porque procuras assustar-me, como se eu fosse um menino
ainda bebê, que na sua alma tem pouca experiência de malícia,
165 tímido, que teme as reprimendas da mãe?
Eu ao invés me darei às mais lucrativas das artes
provendo a mim e a ti para sempre; nem, sozinhos entre os deuses
imortais, nós dois sem ofertas e sem rezas
toleraremos de permanecer aqui, como tu gostarias.
170  É melhor viver para sempre na companhia dos imortais
rico, próspero, e bem nutrido, que ficar em casa
nesta espelunca escura; e, quanto ao prestígio,
eu terei os mesmos direitos dos quais goza Apolo.
Se depois meu pai não os me der, em verdade eu, por conta própria,
175  me ocuparei em transformar-me no rei dos ladrões: sou capaz.
E se o filho da gloriosa Leto me expulsar,
eu acredito que lhe sucederá qualquer outro problema, ainda pior.
De fato, irei a Pito, e penetrarei no seu grande santuário;
de lá muitos tripés estupendos, vasos de bronze,
180  levarei comigo, e ouro, e reluzente ferro em abundância,
e muitas vestes: verás, contanto que tu queiras>>
Assim eles discorriam entre eles
o filho de Zeus portador da égide e Maia venerável.
A aurora matutina, levando a luz aos imortais,
185  surgia do oceano que escorre profundo, quando Apolo,
ao longo do caminho, alcançou Onquesto, o muito amável bosque sagrado
do deus da terra, de voz profunda: e lá encontrou
o velho malandro que através da estrada trabalhava às sebes do vinhedo.
A ele dirigiu a palavra por primeiro o filho da gloriosa Leto:
190  <<Ó velho, que ceifa as ervas daninhas dos prados de Onquesto,
eu chego aqui da Pieria à procura de bois
-todas fêmeas, todas com os cornos tortos-
roubadas do meu armento. Somente, à parte dos outros,
pastava o touro, negro; e o seguiam quatro cães de olhar cruel,
195  inteligentes como seres humanos, certamente; mas estes foram negligenciados,
os cães, e também o touro: fato verdadeiramente estranho.
Aqueles ao contrário se foram, logo depois do pôr-do sol
do banhado prado, deixando o doce pasto.
Ó velho avançado em idade, diz-me se por acaso viste
200  um homem que percorria a estrada guiando estas vacas>>
E o velho, a ele respondendo, assim falava:
<
em modo exaustivo: muitos viajantes, de fato, percorrem esta rua,
e entre estes, alguns vêm nutrindo muitas maldosas intenções,
205  outros, com ótimos propósitos; é difícil julgar-los um por um .
De toda a forma, por todo o dia , até o pôr-do-sol,
eu capinava sobre o declínio do meu terreno cultivado a vinhedo;
e me pareceu, distinto amigo, de avistar um menino: mas não sei com certeza;
e, quem quer que fosse esse menino, guiava vacas de belos cornos;
210  era ainda bebê, havia uma varinha, e se deslocava de um lado para o outro da estrada;
as fazia andar de ré, com as cabeças viradas em direção a ele>>.
Assim disse o velho, e ele, ouvidas as suas palavras, se apressou ao longo da estrada.
Notou um pássaro de asas abertas, e subitamente compreendeu
que o ladrão era filho de Zeus Cronides.
215  Rapidamente correu o deus Apolo, filho de Zeus,
em direção à sagrada Pilo, procurando as vacas do passo arrastado,
com os ombros robustos envoltos por um escura nuvem;
o arqueiro reconheceu as pegadas, e assim disse:
<
meus olhos:
220  estas certamente são as pegadas das vacas de cornos direitos,
mas estão viradas sobre a estrada do retorno, em direção ao prado de asfódelo.
Estas outras pegadas não são nem de homem, nem de mulher,
nem de lobos cinzas, nem de ursos, nem de leões,
e nem mesmo acredito que sejam de um hirsuto centauro,
quem quer que seja fez com pés ligeiros passos assim desmedidos.
Incríveis as pegadas de um lado da estrada, e mais incríveis
as do outro lado>>.
Assim dizendo se apressava o deus Apolo, filho de Zeus,
e chegou ao monte de Cilene, revestido de selva,
à cavidade do rochedo, pela sombra profunda, onde a ninfa
230  imortal havia gerado o filho de Zeus Cronides.
Um doce perfume se difundia pela sagrada montanha,
e muitas ovelhas das patas sutis roíam a erva.
Naquele lugar, então, com rápido passo passou o limiar de pedra
e entrou na gruta escura Apolo arqueiro em pessoa.
235  Quando, então, o filho de Zeus e de Maia o avistaram,
Apolo arqueiro enfurecido por causa das vacas,
se aprofundou entre as faixas odorosas;
e como a cinza da lenha cobre o abundante tronco da árvore,
assim Hermes , vendo o arqueiro, tentou esconder-se;
240  em pouco tempo espreguiçou a cabeça, as mãos e os pés,
como um me um menino que saiu do banho, que chama o doce sono:
na realidade, estava bem acordado, e tinha a lira debaixo do braço.
Mas o filho de Zeus e de Leto não se deixou enganar, e reconheceu
a esplêndida ninfa da montanha, e seu filho,
245  o menininho que se espreguiçava com astutos contorcimentos.
Perscrutando por todos os recintos da ampla morada
pegou a chave reluzente, e abriu três despensas
cheias de néctar e de amável ambrosia;
lá dentro tinha também muito ouro, e prata,
250  e muitas vestes das ninfas, púrpuras ou cândidas:
tudo isso que comumente possuem as sagradas moradas dos deuses beatos.
E depois de haver examinado os recintos da ampla morada
o filho de Leto dirigiu a palavra ao glorioso Hermes:
<
255  e já: uma vez que de outra forma nós dois, daqui a pouco, brigaremos.
Eu te pegarei pelos cabelos e te jogarei no Tártaro escuro,
na treva funesta e sem saída; nem tua mãe
nem teu pai te trarão de volta à luz, ao contrário debaixo da terra
andarás vagando, e reinarás entre vãs sombras de homens>>.
260  A ele Hermes respondeu com hábeis palavras:
<
De verdade vieste aqui a procurar as vacas que habitam os campos?
Não vi, não sei, não escutei outros falarem disso;
não posso informar-te , não posso pedir-te um prêmio por haver-te informado;
265  e não pareço um ladrão de bois, homem vigoroso.
Eu não me ocupo dessas coisas; outras me interessam mais:
me interessa o sono, o leite e minha mãe;
haver faixas em torno aos ombros, e um banho quente.
Que ninguém saiba de onde nasceu esta contenda:
270  em verdade, grande prodígio seria, à presença dos deuses imortais,
que um menino recém nascido ultrapassasse o limiar
com vacas habitantes dos campos; tu dizes uma coisa absurda.
Eu nasci ontem: os meus pés são delicados, e dura sob esses é a terra.
Se desejares, pronunciarei um juramento solene, pela cabeça do meu pai:
275  afirmo de não ser eu mesmo o culpado,
e não vi nenhum outro que seja o ladrão das tuas vacas
-o que quer que sejam estas vacas: eu as conheço somente por ouvir dizer>>.
Assim disse, e lançando por sobre as pálpebras rápidas olhadas
movia pra cima e pra baixo as sobrancelhas, olhando por toda a parte,
280  e assobiava fundo, como quem escuta um discurso vão.
A ele sorrindo, respondeu Apolo arqueiro:
<<Ó exímio charlatão e enganador, em verdade eu acredito
que frequentemente tu, penetrando nas moradas bem construídas,
em plena noite, mais de um homem deixará sobre a nua terra,
285  saqueando por toda a casa sem rumor: tais são as tuas palavras.
E arruinará muitos pastores, habitantes dos campos,
nas gargantas dos montes, quando desejoso de carne
encontrarás armentos de bois, e cabras.
Mas vamos lá, se não queres dormir o teu último e supremo sono,
290  desce do berço, amigo da noite escura.
Este privilégio, sem dúvida, terás também no futuro entre os imortais:
serás chamado para sempre o rei dos ladrões>>.
Assim disse Febo Apolo; e, com o menino em mãos, o levou embora.
295  Mas exatamente neste momento, de propósito, o forte assassino de Argo,
enquanto estava nos braços de Apolo, emitiu um presságio,
atrevido cúmplice do ventre, jocoso mensageiro.
Em seguida, com urgência, espirrou: o ouvia Apolo,
e dos seus braços o deixou cair à terra o glorioso Hermes.
Depois, por mais que houvesse pressa de concluir o caminho, sentou-se de frente a ele,
300  e, brincando com Hermes, lhe dirigiu estas palavras:
<
Eu cedo ou tarde encontrarei as vacas das cabeças vigorosas,
com estes presságios; mas serás tu que me indicará a estrada>>.
Assim falava, e Hermes Cileno sacudiu os pés sem demora,
305  e endireitando-se rapidamente; com as mãos apertava sobre orelhas
as faixas enroladas em torno aos ombros, e assim dizia:
<
De verdade me persegues com tanta ira por causa das tuas vacas?
Ai de mim, pudesse andar mal a estirpe bovina: uma vez que eu, verdadeiramente,
310  não roubei as tuas vacas, nem vi outros a roubar-las
-qualquer coisa que sejam essas vacas: eu as conheço somente por ouvir falar-
Dá-me satisfação, ou recebe-a, à presença de Zeus Cronides>>.
E quando difusamente examinaram todos os argumentos
Hermes, o pastor, e o augusto filho de Leto,
com ânimo discorde (um, dizendo a verdade,
com todo o direito mantinha prisioneiro por causa das vacas o glorioso Hermes;
o outro, o Cileno, com estratagemas e com astutos discursos
queria enganar o deus do arco de prata),
uma vez que aquele que era muito astuto era prisioneiro de um que era muito sagaz,
320  rapidamente então caminhava sobre a areia,
na frente; e atrás o seguia o filho de Zeus e de Leto.
E bem cedo chegaram ao cume do Olimpo odoroso
e ao seu pai, o Cronides, os esplêndidos filhos de Zeus;
lá de fato, para ambos, estava pronta a balança da justiça.
325  Uma grande quantidade de vozes se difundia pelo Olimpo nevado, e os deuses
imortais se reuniam, depois da aurora das flores de ouro.
Hermes, e Apolo do arco de prata, pararam
diante dos joelhos de Zeus; e interrogava o seu nobre filho
Zeus que troveja do alto, dirigiu-lhes estas palavras:
330  <
um menino recém nascido que tem o aspecto de um araldo?
Grave questão é esta que se apresenta ao consenso dos deuses!>>
A ele então respondeu Apolo, o deus arqueiro:
<< Ó pai, na verdade ouvirás agora uma história não sem interesse,
335  tu que me insultas de ser eu somente ávido por presa.
Encontrei este menino – um ladrão belo e bom-
entre os montes de Cilene, depois de haver percorrido um longo caminho:
descarado, qual nunca vi um outro entres os deuses,
ou entre os homens, quantos vivem como patifes sobre a terra.
340  Roubou do pasto as minhas vacas, e se foi levando-as embora,
depois do pôr-do-sol, ao longo da beira do mar ressonante,
movendo-se diretamente até Pilo; as pegadas eram de duas espécies, extraordinárias,
tais da maravilhar-se, obra de um deus potente.
Quanto às vacas, de fato, a terra negra, conservando as pegadas,
345  mostrava que estavam na direção do prado asfódelo;
ele mesmo, depois, inalcançável, intocável: certo, nem com os pés
nem com as mãos havia caminhado pela zona arenosa;
mas, usando um qualquer outro recurso, havia traçado uma estrada
única, como alguém que caminhasse sobre arbustos.
350  Por isso, até quando ele avançava pela zona arenosa,
com muita facilidade, no pó, se distinguiam todas as pegadas,
e em seguida se transformaram invisíveis as pegadas das vacas, e junto as suas,
sobre o terreno duro. O avistou, no entanto, um homem mortal,
355  enquanto diretamente em direção a Pilo conduzia as vacas de amplas frontes
E quando depois, com toda a calma, as sistemou ao coberto,
e completou os seus truques de uma parte e de outra da estrada,
símile à noite negra jazia no berço
no antro enfumaçado, escuro e não teria podido avistá-lo
360  nem mesmo uma águia do agudo olhar; com as mãos, energicamente,
esfregava os olhos, preparando as suas trapaças.
Ele mesmo depois, em seguida, sem descompor-se, me declarou:
não vi, não sei, não ouvi ninguém falar disso;
não posso informar-te, não posso pedir-te um prêmio por ter-te informado>>.
365  Naquele instante, depois de haver assim falado, Febo Apolo sentou-se;
mas Hermes manteve à presença dos imortais bem outro discurso,
estendendo o braço em direção a Cronides, o senhor de todos os deuses:
<<Ó padre Zeus, certamente eu te direi a verdade:
sincero, de fato , eu sou, e não sei mentir.
370  Veio à minha casa à procura das vacas do passo arastado,
hoje, pouco depois do nascer do sol;
mas não trazia consigo nenhum dos deuses beatos como testemunha ou espectador.
Me ordenava de informá-lo, com muita prepotência,
e muitas vezes ameaçou de jogar-me no vasto Tártaro:
375  porque ele chegou à fresca flor da fúlgida juventude,
eu, ao contrário, nasci ontem- e isto ele também sabe -,
e não assemelho a um ladrão de bois, homem vigoroso.
Deves acreditar, uma vez que tu te vanglorias de ser meu pai,
que não trouxe à minha casa as vacas-assim possa eu haver fortuna-,
380  e nem mesmo ultrapassei o limiar: isso digo verdadeiramente.
Respeito profundamente Hélios e os outros deuses,
nutro afeto por ti, e temo este; tu mesmo sabes
que não sou culpado. Recorrei também a um solene juramento:
não! Pelo pórtico ricamente adornado dos imortais!
385  E um dia eu farei com que ele pague este desumano rapto
por mais que seja forte; tu depois, proteges os mais jovens>>.
Assim disse, piscando, Cileno assassino de Argo,
e apertava as faixas sobre o braço, sem deixá-las irem.
Zeus riu com o coração, vendo o seu intrigante filho
390  que se defendia, a propósito das vacas, com habilidade e eloqüência.
Depois, ordenou que ambos, reconciliados os ânimos,
pusessem-se à procura, e guiasse, Hermes, o mensageiro;
e com mente leal indicasse o lugar
onde havia escondido as vacas de cabeças vigorosas.
395  Assim decretou Cronides, e obedeceu o glorioso Hermes:
facilmente de fato impunha obediência a vontade de Zeus portador da égide.
Apressando-se os dois esplêndidos filhos de Zeus
chegaram à arenosa Pilo, e ao vau de Alfeu;
então chegaram aos campos, e ao estábulo do teto sublime
400  onde os animais eram cuidados à noite.
Ali então Hermes, entrando na caverna rupestre,
trazia para fora, à luz, as vacas de cabeça vigorosa;
e o filho de Leto, que de longe olhava, avistou as peles
sobre o grande rochedo; e logo perguntou ao glorioso Hermes:
405  <
tu que és um bebê, recém nascido? eu mesmo, de verdade,
me preocupo com a tua força, no futuro: particularmente não convém
que tu cresça ainda muito, Cileno, filho de Maia>>.
Assim disse, e com as suas mãos envolvia em torno de Hermes fortes laços
410  de vimes: mas de repente, estes, aos seus pés, se enraizavam na terra,
justo naquele ponto, como ramos: e se cingiam facilmente
entre eles, e sobre todas as vacas habitantes dos campos,
por vontade de Hermes que encerra o seu pensamento; e Apolo,
ao vê-lo, se maravilhava. Então o forte assassino de Argo
415  olhava furtivamente o terreno, ansioso em esconder
a chama cintilante do seu olhar. E facilmente ele tranqüilizou
exatamente como queria, o filho da gloriosa Leto, o arqueiro,
por mais que fosse obstinado: a lira, debaixo do braço esquerdo,
experimentou com o plectro, uma corda depois da outra; aquela, sobre a sua mão,
420  tocou um som prodigioso. Sorriu Febo Apolo
serenando-se: lhe penetrou no ânimo a amável harmonia
da voz divina, e um doce desejo assaltou
o seu coração, enquanto escutava. Tocando suavemente a lira
o filho de Maia, seguro de si, estava à esquerda
425  de Febo Apolo: logo, tirando límpidas notas da cítara,
começou a cantar- e o ajudava a amável voz-
celebrando os deuses imortais e a terra tenebrosa:
como, no princípio dos tempos, tiveram origem, e como cada um obteve a sua parte.
Em primeiro lugar entre todos os deuses exaltava com o canto Mnemosine,
430  a mãe das Musas: a ela de fato pertencia o filho de Maia;
depois, segundo a classe e segundo o nascimento de cada um,
o augusto filho de Zeus exaltava os deuses imortais
tudo narrando com arte, e tocando a cítara que mantinha sobre o braço.
Um desejo irresistível assaltou o coração de Apolo, no peito,
435  e, dirigindo-se a Hermes, pronunciou palavras aladas:
<
da boa mesa, tu inventaste uma coisa que vale mais de cinqüenta vacas:
acredito que de agora em diante nós entraremos facilmente em um acordo.
Mas agora , vem, responde-me, filho de Maia, dos muitos recursos:
440  esta arte milagrosa te acompanhou desde o nascimento,
ou um dos deuses, ou homens mortais,
te fez este presente estupendo, e te ensinou o canto divino?
Maravilhosa é a nova voz que ouço,
e eu afirmo que nunca ninguém dos homens veio a conhecer
445  nem nenhum dos deuses que habitam as moradas do Olimpo,
se não tu, malandro, filho de Zeus e de Maia.
Que arte é esta? O que é este canto que inspira paixões irresistíveis?
Qual o meio de obtê-lo? Com ele, verdadeiramente é possível
alcançar todas juntas três coisas: a alegria, o amor e o doce sono.
450  Eu também, certamente, me acompanho com as musas do Olimpo
as quais são caras as danças, e a estrada luminosa do canto,
e a florescente melodia, e o clamor das flautas, plenas de desejo;
além disso, até agora, nenhuma outra coisa foi assim tão cara à minha alma
entre as provas de bravura que se ouvem nos banquetes dos jovens:
455  eu vejo com admiração, filho de Zeus, com quanta doçura tocas a cítara.
Mas agora, uma vez que, ainda que és pequeno, nutras altos pensamentos,
senta-te, meu caro, e ouve com a tua alma quem é mais velho que tu.
Agora, sem dúvida, serão famosos entre os deuses imortais
tu mesmo e tua mãe; e isto te digo sinceramente:
460  em verdade, por essa minha lança de corniso,
eu te nomearei entre os deuses imortais o guia, próspero e glorioso,
e te darei presentes, e até o fim não deixarei de cumprir minhas promessas>>.
A ele, Hermes respondeu com hábeis palavras:
<< Tu me interrogas com muita eloqüência, ó arqueiro; e eu, de minha parte,
465  não sou contrário a que tu aprendas a minha arte.
Hoje mesmo a conhecerás: na verdade quero ser teu amigo
no pensamento e nas palavras. Mas tu, na tua mente, já conheces bem todas as coisas:
em primeiro lugar de fato, filho de Zeus, tu sentas entre os imortais,
forte e possente: e te tem caro o sábio Zeus,
470  como é plenamente justo, e te concedeu magníficos dons
e privilégios; dizem depois que tu tenhas aprendido pela voz de Zeus
as profecias, ó arqueiro- de Zeus derivam todos os oráculos-:
neste campo sei bem eu mesmo, rapaz meu, que tu és rico;
e é fácil para ti aprender qualquer coisa tu queiras.
475  Mas, uma vez que então o teu coração está ansioso de tocar a cítara,
canta e toca, e abandona-te a esta alegria
que recebes de mim; da tua parte, meu caro, deixa para mim a glória.
Suavemente canta, mantendo entre as mãos a canora companheira
que sabe falar com doçura e com harmonia.
480  De agora em diante, com o animo sereno, leva-a ao banquete florido,
à amável dança, à esplêndida festa,
para a alegria do dia e da noite. Se alguém
depois de longo estudo, a põe à prova com arte e doutrina,
cantando ela ensina tudo aquilo que agrada a mente,
485  tocada com mão leve e delicada experiência;
e evita o esforço controlador. Mas se alguém,
inexperto, a toca a princípio com mão rude,
então balbuciará fora sons, ao vazio.
De resto, é fácil para ti aprender qualquer coisa tu queiras.
490  E na verdade eu te farei dono da lira, nobre filho de Zeus:
eu, de minha parte, pelo monte e pela planície nutridora de cavalos
mover-me-ei entre os pastos, ó arqueiro, com as vacas habitantes dos campos.
Lá as vacas copulando com os touros parirão em abundância
machos e fêmeas desordenadamente; e não convém que tu,
495  por mais ávido de ganhos, te enraiveças além da medida!>>
Assim dizendo, ofereceu a lira; Febo Apolo a pegou,
e com prazer doou a Hermes o chicote reluzente
e lhe entregou os pastos: o assumiu o filho de Hermes
com feliz ânimo. E regendo com a esquerda a lira,
500  o augusto filho de Leto, o deus arqueiro, Apolo,
com o plectro experimentou o tom das cordas. aquela sobre a sua mão,
saiu um som prodigioso, e o deus a seguia com o seu doce canto.
Então as vacas em direção ao prado divino
guiaram; e eles, os esplêndidos filhos de Zeus,
505  se apressaram pela rua de retorno, em direção ao Olimpo nevado,
regojizando-se com a lira; se comprouve por isso o sábio Zeus,
e a apertou em amizade. E por sua vez Hermes
nutriu sempre afeto pelo filho de Leto, como ainda agora;
a prova é que doou ao arqueiro a lira
510  desejada- e este, já esperto, tocava, mantendo-a sobre o braço-;
depois inventou o instrumento de uma outra arte:
inventou a voz da flauta, que se ouve de longe.
E então o filho de Leto dirigiu a palavra a Hermes:
<
515  que tu venhas roubar-me juntas a cítara e o arco encurvado;
tu de fato obteve de Zeus o privilégio de introduzir
entre os homens o comércio, sobre a terra que é nutridora de muitos.
Mas se você quisesse jurar-me o solene juramento dos deuses,
o acenando com a cabeça, ou sobre a potente água do Estige,
520  farias tudo aquilo que agrada e é caro ao meu coração>>.
Então o filho de Maia acenou com a cabeça , prometendo
que jamais roubaria aquilo que pertence ao arqueiro,
nem nunca se aproximaria da sua forte morada; por sua vez, Apolo,
filho de Leto, amimado pela lealdade e amizade , acenou com a cabeça
525  que nenhum outro lhe seria mais caro que Hermes entre os imortais,
nem um deus, nem um herói filho de Zeus: << Além disso,
eu estreitarei contigo um acordo perfeito entre imortais, entre todos
forte e respeitado em meu coração; e, ainda,
te darei o esplêndido caduceu da prosperidade e da riqueza,
530  de ouro, que te protegerá, tornando-te imune,
e que torna eficaz todas as normas das palavras e das ações
justas: normas que eu afirmo de haver aprendido pela voz de Zeus.
Mas a previsão, a qual tu me pedes, ótimo amigo, predileto por Zeus,
não é lícito que tu a aprendas, nem qualquer outro
535  dos imortais: a conhece, de fato, a mente de Zeus. Eu, de minha parte,
em sinal de promessa acenei com a cabeça, e formulei o solene juramento
que, fora de mim, entre os deuses que vivem eternamente
nenhum outro conheceria o sábio pensamento de Zeus.
E tu, irmão do caduceu de ouro, não exorta-me
540  a revelar-te os decretos de Zeus que vê longe.
Entre os homens, eu golpearei um, socorrerei outro,
sem parada conduzindo em torno as infelizes estirpes dos homens.
E da minha voz obterá vantagem quem quer que a alcance
seguindo o grito e o vôo dos pássaros fatídicos;
545  este obterá vantagem da minha voz, e não o enganarei.
Mas se algum, confiando nos pássaros que cantam no vazio,
quiser interrogar o oráculo contra a minha vontade,
e souber mais dos deuses que existem eternamente,
declaro que ele fará um caminho em vão, enquanto eu manterei as ofertas.
550  e uma outra coisa te direi, filho da gloriosa Maia
e de Zeus portador da égide, espírito veloz entre os deuses:
na verdade, existem três deusas veneráveis, irmãs de nascença,
virgens exultantes a causa das ligeiras asas;
com a cabeça coberta de branca farinha
555  habitam em um lugar que fica sob a garganta do Parnaso,
e ensinam, separadamente, a predição, a qual seguindo os rebanhos
em me dedicava ainda menino; e meu pai não se preocupava,
De lá depois voando ora para um lado, ora para o outro,
estas se nutrem com o mel das favas, e sobre qualquer coisa dão profecias verdadeiras.
560  E quando, depois te haver comido o dourado mel, são presas pela inspiração,
benignamente consentem de revelar a verdade;
mas se lhes falta o doce manjar dos deuses
então mentem, turbando confusamente.
Deste momento em diante estas te dão: tu interrogando corretamente
565  alegra o teu ânimo; e, se encontras um homem mortal,
frequentemente ele ouvirá a tua voz, no caso de haver fortuna.
Conserva este dom, filho de Maia; e cuida as vacas habitantes dos campos,
dos cornos curvados, e os cavalos, e as mulas operosas...>>.
< E Zeus decretou que> dos orgulhosos leões, dos javalis dos dentes cintilantes,
570  dos cães, e de todos os rebanhos que nutre a ampla terra
e de todos os animais, o glorioso Hermes fosse senhor;
e fosse, somente ele, válido mensageiro de Hades;
este, ainda que seja um deus que nada concede, lhe concederá um insigne privilégio.
Assim o deus Apolo mostrou a sua benevolência ao filho de Maia,
575  com muitas provas de afeto; e Cronides coroou o acordo com a sua benevolência.
E ele agora acompanha a todos, os mortais e os imortais:
raras vezes socorre, infinitas vezes engana,
na noite escura, as estirpes dos homens mortais.
Assim eu te saúdo, filho de Zeus e de Maia;
580  e eu me recordarei de ti, e de um outro canto ainda.

(traduzido por Daniela Scheifler do italiano de Fillippo Cassola)


Prece dos Papiros Mágicos Gregos, atribuída a Hermes ou a Zeus Ktesios:

Dós moi pássan [xh]árin, pássan práksin. met'e su gar estin ho agathophóros, ánghelos 
parestós te Tíxhe. Dió dos póron, práksin tuto to oíko. ne, kyrieúon elpídos, 
plutodóta Aíon, hieré Agathé Daímon, télei pássas xháritas kai tás 
sás enthéous fémas.

Dai-me todo o favor/graça, toda o sucesso/realização, pois o portador do bem, mensageiro parado ao lado da Fortuna (Tyche), está contigo. Dai, consequentemente, lucro/abundância e sucesso para esta casa. Por favor, Eterno (Aion), governante da esperança, doador de riquezas, ó sagrado Bom Espírito (Agathos Daimon), traga à realização esses favores e teus divinos oráculos.

(PGM IV. 3165 – 7, tradução da Alexandra)

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