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Afrodite

Hino de Safo a Afrodite
De flóreo manto furta-cor, ó imortal Afrodite,
filha de Zeus, tecelã de ardis, suplico-te:
não me domes com angústias e náuseas,
veneranda, o coração,
mas para cá vem, se já outrora -
a minha voz ouvindo de longe - me
atendeste, e de teu pai deixando a casa
áurea a carruagem
atrelando vieste. E belos te conduziram
velozes pardais em torno da terra negra -
rápidas asas turbilhoando céu abaixo e
pelo meio do éter.
De pronto chegaram. E tu, ó venturosa,
sorrindo em tua imortal face,
indagaste por que de novo sofro e por que
de novo te invoco,
e o que mais quero que me aconteça em meu
desvairado coração: "Quem de novo devo persuadir
ao teu amor? Quem, ó
Safo, te maltrata?
Pois se ela foge, logo perseguirá;
e se presentes não aceita, em troca os dará;
e se não ama, logo amará,
mesmo que não queira."
Vem até mim também agora, e liberta-me dos
duros pesares, e tudo o que cumprir meu
coração deseja, cumpre; e tu mesma,
sê minha aliada de lutas.
(tradução do grego por Giuliana Ragusa)

Hino de Safo a Afrodite
No trono Afrodite imortal
Filha de Zeus, que tece ardis,
Não me dê tristes desejos, senhora
do coração.
Mas, antes, vem para perto agora
S'alguma vez ouviste minha voz de longe,
Me atendeste e deixaste o teu pai
no lar dourado.
Em tua carruagem de belas aves,
Sobre a terra negra os pardais
Voam rápido pelo céu nebuloso,
no meio do ar.
Eles chegam e tu, ó abençoada,
Me sorris com teu rosto imortal,
Me perguntas por que de novo sofro
E por que a chamo.
E o qu'eu mais quero que me aconteça
Neste coração, 'a quem persuadir
novamente, Safo, e a ti conduzir?
Quem te injustiça?'
'Pois se ela foge, logo te segue
Se recusa algo, logo te dá
Se não ama, logo ela amará
Mesmo sem querer.'
Vem me libertar da dificuldade
E aquilo que o meu coração anseia
Realizar, deusa, realiza.
Sê minh'aliada.
(versão da Alexandra)
Clique aqui para ver o vídeo do hino em grego, cantado pela Álex, com melodia de Melissa G.
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Hino Órfico 54 - A Afrodite
Celeste (Urânia), ilustre rainha de risada amorosa, nascida do mar, amante da noite, de um modo terrível; astuciosa, de quem a necessidade [Anankê] primeiro veio, senhora produtora e noturna, dama que a todos conecta; teu é este mundo para se unir com harmonia, pois todas as coisas brotam de ti, ó poder divino. Os triplos Destinos [Moiras] são regidos por teu decreto, e todas as produções se rendem semelhantemente a ti: o que quer que os céus circundem e contenham, toda a produção dos frutos da terra, e o alto-mar tempestuoso, a ti o balanço confessa e obedece a teu aceno, o atendente terrível do brumal Deus [Baco]: Deusa do casamento, charmosa à visão, mãe dos Amores [Erotes], que se delicia em banquetes; fonte de persuasão [Peitho], secreta, rainha favorável, ilustremente nascida, aparente e não-vista: esposa, lupercal, e inclinada a homens prolíficos, a mais desejada, doadora de vida, gentil: a grande portadora do cetro dos Deuses, a quem os mortais em necessidade tendem a se juntar; e toda tribo de monstros selvagens horrendos em correntes mágicas amarras, através do desejo insano. Venha, nascida em Chipre, e incline-se à minha prece, se exaltada nos céus tu brilhas, ou satisfeita com o templo em Síria presides, ou sobre as planícies egípcias teu carro guias, enfeitada de ouro; e perto dessa enchente sagrada, fértil e conhecida por fixar teu domicílio santificado; ou se rejubilando nos litorais cerúleos, próxima a onde o mar com seus rugidos espumantes ondula, os coros de mortais que circundam tuas delícias, ou as belas ninfas, com olhos de brilhante azul cerúleo, satisfeita com os bancos pardos reconhecidos de velhos, para dirigir teu rápido carro dourado de duas parelhas; ou se em Chipre com tua linda mãe, onde as mulheres casadas te louvam a cada ano, e as belas virgens se unem ao coro, o puro Adônis canta tua divindade; venha, toda atrativa, para a minha prece inclinada, a ti eu chamo, com mente sagrada e reverente.

Hino Homérico X - A Afrodite
À da Citéria, nascida em Chipre, eu cantarei. Ela dá gentis presentes aos homens: sorrisos sempre estão em seu amável rosto, e amável é o brilho que se apresenta sobre ele. Eu te saúdo, ó deusa, rainha da bem-formada Salamis e da cinta marinha de Chipre; agracia-me com uma canção de júbilo. E então me lembrarei de ti e de outra canção também.

Hino Homérico VI - A Afrodite
Canto à Afrodite imponente, bela e coroada de ouro, cujo domínio são as cidades cercadas por todo o mar de Chipre. Lá o hálito úmido do vento oeste a fez flutuar sobre as ondas do mar que geme alto em suave espuma, e lá as Horas de fios dourados deram-lhe alegremente as boas-vindas. Elas as vestiram com trajes celeste: em sua cabeça colocaram uma coroa bem tecida de ouro, e em suas orelhas furadas elas penduraram ornamentos de oricalco e ouro precioso, e adornaram-na com colares dourados sobre seu suave pescoço e seus seios brancos como a neve, jóias as quais as Horas de filetes dourados usavam elas mesmas sempre que iam à casa do pai se unirem às danças amáveis dos deuses. E, quando elas a tinham plenamente enfeitado, elas a trouxeram até os deuses, que a saudaram em boas-vindas quando a viram, dando-lhe as mãos. Cada um deles pediu para levá-la para casa e torná-la sua esposa, de tão grandemente deslumbrados com a beleza da Citéria de coroa violeta.
Saúdo-te, deusa docemente premiada, de olhos modesto! Conceda que eu possa ganhar a vitória nesta competição e dirigir a ti a minha canção. E agora eu me lembrarei de ti e outra canção também.
(traduções de Alexandra)

Hino Homérico X - A Afrodite
Ciprogênia Citereia cantarei, que aos mortais
dons melífluos concede: na desejável face
sempre sorri e percorre-lhe a flor do desejo.
Salve, Deusa, de Salamina bem-construída a guardiã
e de toda a Chipre: Concede-me a desejosa canção.
E depois também de ti lembrar-me-ei em outra canção.
(tradução de Rafael Brunhara)

Hino Homérico VI - A Afrodite
Venerável auricoroada bela Afrodite
cantarei, patrona dos muros de toda a Chipre
marinha, onde a ela fluida força de Zéfiro a bafejar
suspende às ondas do undíssono mar
em espuma suave: a ela Horas de áureos laços
acolheram e dispuseram-lhe em imorredouras vestes
e sobre fronte imortal bem feita coroa colocaram
bela, áurea: em suas orelhas perfuradas
flores de oricalco, valioso e áureo;
à volta do tenro colo e peito com luziargênteos
colares em ouro adornavam - com que até as Horas
mesmas de áureos laços estão adornadas quando vão
ao desejável coro dos deuses e à mansão paterna.
E depois que os adornos todos por seu corpo colocaram
conduzem-na aos imortais e eles a veem e saúdam
com as mãos, acolhem e cada qual roga
havê-la por esposa legítima e conduzí-la ao lar
espantados com a formosura de Citereia de coroa violácea.
Salve, de vivazes olhos Deusa doce-mel: concede-me em disputa
levar a vitória, compõe minha canção,
e depois também de ti lembrar-me-ei em outra canção.
(tradução de Rafael Brunhara)

Hino Homérico V a Aprodite
  Ó Musa, conta-me as obras de Afrodite de ouro,
  deusa de Chipre, que infunde o doce desejo nos deuses
  e domina as estirpes dos homens mortais,
  e os pássaros que voam no céu, e todos os animais,
5 quantos, inumeráveis, nutre a terra, e quantos o mar:
  todos têm no coração as obras de Afrodite da bela coroa.
  Mas existem três deusas, as quais o ânimo ela não pode convencer, nem enganar.
  Uma é a filha de Zeus portador da égide, Atena dos olhos cintilantes:
  a ela não são caras as obras de Afrodite de ouro,
10 Na verdade lhe são caras as guerras, e a obra de Ares,
  as lutas e as batalhas; e ama dar vida às obras admiráveis.
  Primeiro ensinou aos artesãos que vivem sobre a terra
  a construírem carruagens, e carros ornados de bronze;
  em seguida, às virgens das peles delicadas, nos seus leitos,
15 ensinou obras admiráveis, ditando-as às mentes de cada uma.
  De nenhuma forma Afrodite que ama o sorriso subjuga ao amor
  Ártemis das flechas de ouro que ama os clamores da caça:
  a ela são caros os arcos, e a matança das feras sobre os montes,
  e as cítaras e as danças e os altos gritos,
20 e os bosques escuros, e as cidades dos homens justos.
  Nem as obras de Afrodite são caras às virgens augustas,
  Héstia, que Cronos da foice recurvada gerou primeiro,
  e depois de novo por último, segundo o desejo de Zeus portador da égide;
  deusa venerável cobiçada por Poseidon e Apolo:
25 mas ela certamente não consentiu, ao contrário firmemente os rejeitou,
  e pronunciou o juramento solene, ao qual nunca abdicou,
  tocando a cabeça do pai Zeus portador da égide,
  de permanecer virgem para sempre, ela divina entre as deusas.
  A ela Zeus, em lugar das núpcias, concedeu um alto privilégio:
30 ela sentou-se ao centro da casa, recebendo muitos presentes,
  é venerada em todos os templos dos deuses,
  e próxima a todos os mortais é a mais venerada entre as deusas.
  Esta Afrodite não pode convencer o ânimo, nem enganá-la;
  mas entre os outros seres não existe nenhum que saiba escapar-lhe,
35 nem entre os deuses beatos, nem entre os homens mortais.
  E perturbou até mesmo a mente de Zeus que alegra-se do raio,
  que é o maior, e obtém o mais alto poder:
  e quando quer, iludindo o seu ânimo sábio,
  facilmente o faz unir-se com mulheres mortais,
40 induzindo-o a esquecer-se de Hera, sua irmã e esposa,
  que entre as deusas imortais é de longe a mais bela;
  e mais gloriosa de qualquer outra a geraram Cronos da foice recurvada
  e Reia, sua mãe; e Zeus que formula eternos desenhos
  a escolheu como nobre e solerte esposa.
45 Mas também nela Zeus infundiu no coração o doce desejo
  de unir-se a um homem mortal, de modo que rapidamente
  nem mesmo ela fosse imune a um leito mortal,
  e para que Afrodite que ama o sorriso, à presença de todos os deuses,
  não pudesse dizer com orgulho, docemente zombando,
50 de haver induzido os deuses a unir-se com mulheres mortais
  que haviam gerado seus filhos mortais,
  e de haver induzido as deusas a unir-se com homens mortais.
  Então ele lhe inspirou no coração um doce desejo de Anquises,
  que neste momento, sobre os altos picos do monte Ida rica de fontes,
55 costuma pastar os rebanhos, símile em aspecto aos mortais.
  E quando depois o viu , Afrodite que ama o sorriso
  o desejou, e a paixão capturou profundamente o seu ânimo
  Foi em direção à Chipre, e entrou no perfumado templo,
  em Pafos, onde possui um santuário e um altar perfumado.
60 Quando entrou, fechou a porta resplandecente,
  e as Graças a banharam, e a ungiram com um unguento sobrenatural
  que oloriza os deuses que vivem eternamente,
  divino, dolce, que foi perfumado para ela.
  E depois de haver bem vestido todas as suas belas vestes,
65 adonar-se de ouro, Afrodite que ama o sorriso
  se apressou em direção à Tróia, deixando o jardim perfumado,
  e cumpriu rapidamente a sua viagem, no alto, entre as nuvens.
  Chegou ao Monte Ida rico de fontes, mãe das feras,
  e foi diretamente ao recinto, através da montanha; atrás dela
70 dóceis andavam lobos cinzas, ferozes leões,
  ursos, e velozes panteras ávidas de cabritinhos:
  ao vê-los se alegrava na mente e no coração,
  e infundia em seus peitos o desejo:e esses, todos
  ao mesmo tempo, deitavam-se a dois nos vales escuros.
75 Afrodite no entanto chegava às bem construídas cabanas:
  e encontrou, deitado no recinto, separado dos outros,
  o herói Anquises, que havia recebido a beleza dos deuses.
  Os seus companheiros haviam seguido os bois, pelos pastos relvosos,
  todos, e ele, largado ao recinto, separado de todos,
80 lá e cá se se movia extraindo da lira notas sonoras.
  Parou diante dele Afrodite, filha de Zeus,
  símile na estatura e no aspecto a uma virgem menina,
  de modo que ele avistando-a com os seus olhos não a temesse.
  Anquises a viu, e a observava, e admirava
85 o aspecto, a estatura, e as brilhantes vestes.
  Ela vestia um manto mais reluzente que a chama do fogo;
  e usava pendente e encurvados, em espiral, brincos resplandescentes;
  em torno ao delicado colo usava maravilhosos colares,
  belos, de ouro, ricamente trabalhados: e como a lua
90 brilhavam, maravilhosos de ver, sobre o peito delicado.
  O amor assaltava Anquises: e ele lhe dirigiu estas palavras:
  <>.
  E lhe respondeu então a filha de Zeus, Afrodite:
  <<Ó Anquises, pleno de glória entre os homens nascidos sobre a terra, eu não sou certamente uma deusa: porque me fazes assemelhar aos imortais? 110 Sou, ao invés, mortal, e mulher é a mãe que me gerou. Meu pai é Otreu, do nome ilustre -talvez tenhas ouvido falar da sua fama-, que reina sobre toda a Frígia dos belos muros. Mas eu bem conheço a vostra língua, como a nossa; de fato me criou na minha casa uma ama troiana, que sempre 115 cuidou de mim, desde quando era bebê: lhe fui entregue pela minha mãe; por isso eu bem conheço também a vostra língua. Mas agora o deus do caduceu de ouro, assassino de Argo, me raptou às danças de Ártemis das flechas de ouro, que ama os clamores da caça. Nós- muitas ninfas, e meninas dignas de grandes riquezas- 120 estávamos dançando, e em torno uma multidão infinita nos fazia corte: de lá me raptou o deus do caduceu de ouro, assassino de Argo, e me levou por muitas terras trabalhadas pelos homens mortais, muitas não divididas e não cultivadas, onde as feras vorazes se movem pelos escuros vales; 125 e pensava que não teria posto mais os pés sobre a terra geradora de cereais. Mas ele me dizia que seria chamada legítima mulher de Anquises, perto dele, no seu leito; e te geraria esplêndidos filhos. E depois de haver-me tudo explicado, e indicado o caminho, ele de novo retornou entre as estirpes dos imortais, o forte assassino de Argo; 130 e eis-me, eu vim a ti: me obrigava a necessidade inflexível. Mas eu te suplico por Zeus, e pelos teus nobres pais -uma vez que, certo, humildes não te teriam gerado como és-: conduz-me virgem e inesperta de amor à presença de teu pai e da mãe diligente 135 e dos teus irmãos, nascidos da tua mesma estirpe; para eles eu serei não indigna parente, mas digna. E manda rápido um mensageiro entre os Frígios dos velozes cavalos para informar meu pai, e a mãe ansiosa; esses te mandarão ouro em abundância , e vestes tecidas: 140 e tu aceitas os muitos e magníficos dons como dote. Depois de haver feito estas coisas, celebra as bodas desejadas, honrada pelos homens e pelos deuses imortais>>.
Com estas palavras, a deusa lhe infundiu na alma um doce desejo.
  O amor prendia Anquises; ele lhe dirigiu a palavra e disse:
145 <>.
155 Assim dizendo a pegou pela mão, e Afrodite que ama o sorriso
  o seguia virando a face, e abaixando os belos olhos,
  em direção ao macio leito, o qual estava já pronto para o herói,
  coberto de suaves lãs; e sobre ele
  estavam peles de ursos e de leões do rugido profundo,
160 que ele havia matado sobre as montanhas sublimes.
  E quando subiram sobre o leito bem trabalhado
  Anquises primeiro lhe tirou os esplêndidos ornamentos:
  as fivelas, os broches encurvados, a espiral, os brincos, os colares;
  lhe desatou o cinturão, a despiu das fúlgidas vestes,
165 e a depôs sobre um trono das bordas de prata;
  enfim pela vontade e dizer dos deuses
  deitou-se, ele mortal, com uma deusa imortal, sem saber.
  E quando veio o tempo em que os pastores guiam às estradas,
  os bois e as gordas ovelhas dos pastos floridos,
170 então a deusa lançou sobre Anquises um doce sono
  sereno, e ela vestiu as belas vestes.
  E depois que vestiu com graça todas as vestes, a divina entre as deusas
  se ergueu na cabana: a sua cabeça tocava
  o teto bem construído, e irradiava do viso a beleza
175 imortal que se destina à Afrodite coroada de violetas.
  Despertou o herói do sono, lhe dirigiu a palavra, e disse:
<>.
  Assim falou; e ele, prontamente levantando-se, lhe deu ouvidos.
  Mas quando viu o colo e os belos olhos de Afrodite
  ficou aterrorizado, e virou os olhos;
  depois cobriu com o manto o belo rosto,
  e, suplicando-a, pronunciou estas palavras aladas:
185 <<Ó deusa, súbito, não apenas te vi com os meus olhos, compreendi que tu eras uma imortal: e tu não me disseste a verdade. Mas, te peço por Zeus portador da égide, não deixe que eu habite entre os homens levando vida de inválido, e tenha ao invés piedade de mim: uma vez que não tem uma vida florida 190 aquele que se deita com as deusas imortais>>.
A ele então respondeu a filha de Zeus, Afrodite:
<<Ó Anquises, pleno de glória entre os homens mortais, tenhas coragem, e não perturbes além da medida o ânimo: de fato não deves temer de sofrer um mal, não de mim, 195 e nem mesmo dos outros beatos: uma vez que em verdade tu és caro aos deuses. Tu terás um filho que reinará sobre os Troianos e dos teus filhos nascerão sem fim outros filhos; o seu nome será Enéas, porque uma angustiante dor se bateu sobre mim por haver estado ao leito de um homem mortal. 200 E sempre os nascidos da vostra estirpe serão semelhantes aos deuses pela majestade de aspecto, mais do que qualquer outro entre os homens mortais. Em verdade, o sábio Zeus raptou o dourado Ganimedes por causa da sua beleza, de modo que vivesse entre os imortais e na morada de Zeus versasse bebida aos deuses 205- prodígio de se ver, honrado por todos os imortais- obtendo o vermelho néctar da cratera de ouro. Uma dor inconsolável invadiu o ânimo de Tros, que não sabia onde o turbilhão divino houvesse levado seu filho: desse instante, ele o chorava sempre ininterruptamente. 210 E Zeus teve piedade dele, e lhe deu, em troca do filho, cavalos do rápido passo, daqueles que levam os imortais. Estes lhe deu, de modo que os mantivesse como presente; e isso que aconteceu lhe expôs, a mando de Zeus, o mensageiro assassino de Argo: que o filho era imortal e imune da velhice , assim como os deuses. 215 Depois de ter ouvido a mensagem de Zeus parou de chorar, e se alegrou no seu ânimo: e contente se deixava presentar com os cavalos rápidos como a tempestade. Assim, depois, a Aurora das flores de ouro raptou Titono, da vostra estirpe, semelhante aos imortais; 220 e pediu a Zeus das negras nuvens que ele fosse imortal, e vivesse toda a eternidade: a ele Zeus consentiu com um aceno, e satisfez o seu desejo. Estúpida, não pensou na sua mente, Aurora venerável, de pedir a juventude, e de manter longe a velhice destruidora. 225 De fato, enquanto ele estava na muito amável juventude, gozando o amor de Aurora das flores de ouro, que surge na boa manhã, morava perto das correntes do Oceano, nos confins da terra: mas quando os primeiros cachos brancos caíram da bela cabeça e do nobre queixo, 230 do seu leito se absteve a Aurora venerável; todavia, mantendo-o nos seus aposentos, o nutria de comida terrena e de ambrosia, e lhe dava belas vestes. Mas quando com todo o seu peso onerou sobre ele a odiosa velhice e ele não conseguia mais mover-se nem erguer os membros, 235 esta no seu ânimo lhe pareceu a decisão melhor: o exilou ao interno da casa, e serrou sobre ele as portas resplandecentes. A sua voz murmura sem fim, mas o vigor não é mais aquele que um tempo residia nos ágeis membros. Eu certamente não gostaria que tu, em tal estado, entre os imortais 240 fosse imortal, e vivesse eternamente. Claro que se tu continuasses a viver assim como és agora na figura e no aspecto, e fosse chamado meu esposo, a dor não envolveria, em seguida, o meu forte ânimo. Agora ao contrário te envolverá a velhice cruel, 245 inexorável, que depois não deixa mais os homens, devastadora, extenuante, que até mesmo os deuses têm ódio. Eu depois sofrerei grande reprovação por tua causa, todos os dias, para sempre, entre os deuses imortais, que até agora temiam as minhas palavras, e as tramas nas quais cedo ou tarde 250 todos os imortais impelidos a unir-se com mulheres mortais: todos, de fato, à minha vontade subjugava. Mas agora não mais a minha boca ousará recordar estas coisas entre os imortais, uma vez que cometi uma grave culpa, indigna, inenarrável; perdi a razão 255 e concebi um filho deitando-me com um mortal. Assim que ele ver a luz do sol o criarão as ninfas oréades, do florido peito, que habitam esta alta, divina montanha. Essas não se assemelham nem aos mortais, nem aos imortais: 260 vivem muito, e comem a comida dos deuses, e amam a bela dança com os imortais. Com elas os Silenos, e o assassino de Argo, do agudo olhar, se uniam em amor no profundo das prazerosas grutas. Quando essas nascem abetos ou carvalhos da alta copa 265 florescem com elas sobre a terra nutridora dos homens, belos, floridos sobre as montanhas sublimes. Se erguem inacessíveis, e os chamam plantas sagradas dos imortais; nem nunca os homens as cortam com ferro. Mas quando incumbe sobre elas o destino de morte 270 primeiro as belas árvores se dissecam sobre a terra, a casca em torno seca, caem os ramos; e junto a alma das ninfas deixa a luz do sol. 273 Essas criarão meu filho, mantendo-o com elas: 276 e eu mesma- uma vez que quero dizer-te tudo aquilo que tenho em mente- passados quatro anos virei a ti de novo, portando-te um filho Assim que tu o avistar com os teus belos olhos, na sua flor, te alegrarás ao vê-lo: de fato será semelhante a um deus; 280 e súbito o levarás a Tróia ventosa. E se alguém te perguntar, entre os homens imortais, quem é a mãe que o carregou no ventre, reponde-lhes como eu te imponho de não esquecer: “ De fato, dizem que seja filho de uma ninfa das rosadas faces, 285 daquelas que habitam neste monte revestido de selva”. Se ao invés tu contares, e te vantajares com ânimo louco, de ter-se unido em amor com Afrodite da bela coroa, Zeus, irado, te golpearás com o fulminante raio tudo te foi revelado; e tu, meditando no teu ânimo, 290 preserva-te de nominar-me, e temas a ira dos deuses>>.
  Assim disse, e se lançou em direção ao céu percurso dos ventos.
  Salve, ó deusa senhora da hospitaleira Chipre:
  depois de haver começado por ti , eu passarei a um outro hino.

(traduzido por Daniela Scheifler do italiano de Fillippo Cassola)


Hino a Afrodite, de Proclus

Cantemos á linhagem daquela que nasceu  
Da espuma das ondas;  
Cantemos á real e imensa origem  
De onde partiram alados, os imortais Desejos.  
Destes, uns transpassam as almas com seus dardos  
Espirituais, e as incitam, feridas já pelo aguilhão  
Da nostalgia, a ascender até o alto,  
Buscando ardentemente o poder voltar a ver,  
Resplandecentes como a chama do fogo,  
As habitações de sua Mãe.  
Os outros, obedientes aos desejos do Pai  
E as previstas decisões que separam  
O mal do mundo, se esforça, por meio  
Da geração, em multiplicar a vida no universo infinito,  
Excitando nas almas o desejo de nascer sobre a terra.  
Há outras que incessantemente vigiam os diferentes  
Caminhos das intimas relações do matrimônio  
Para assim, conseguir que, gerando homens mortais,  
Possa de este modo construir, imortal a raça  
Dos homens, afligidos por infinitos males.  
Todos, enfim, se cansam em secundar as obras  
Da Citeréia, procriadora do Desejo.  
E quanto a ti, oh Deusa,  
- já que teu ouvido por toda ás partes está atento-,  
Seja que te estenda sobre o amplo horizonte  
Celestial e alí sejas, tal como se dizem,  
A alma divina do eterno universo; Seja que habites no seio do éter,  
Por cima das sete órbitas dos planetas,  
Derramando sobre tudo o que de ti provém.  
Infinitas energias,  
Escutá-me, e conduz, oh Venerável,  
Com a ajuda de teus impulsos mais justos,  
O penosíssimo caminho da minha dolorosa vida  
Apagando da minha alma o frio impulso  
Dos desejos não divinos! 

(Tradução de Andre Nogueira)


Trecho de Anacreonte: 

"Vagando por sobre as ondas como uma alga ulva, movendo seu corpo de pele macia em seu itinerário por sobre o calmo mar branco, ela [Afrodite] puxa as fortes ondas ao longo do caminho. Acima de seu seio rosado e abaixo de seu suave pescoço, uma grande onda divide sua pele. No meio do vinco, como um lírio ferido entre violetas, Chipre brilha no mar de moluscos. Sobre o prateado, em golfinhos dançantes, estão montados o astuto Eros e o risonho Himeros (Desejo), e o coro de peixes de costas curvadas mergulhando nas ondas diverte-se com a de Paphos onde ela nada."
(A Anacreonteia, Fragmento 57, c. V AEC, trad. Alexandra)

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