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Proclamação da República

por Thiago Oliveira
 
A vida civil, o conhecimento da pauta política e social da cidade, a própria política como relação do cotidiano ou das esferas máximas de poder e outros aspectos da vida em comunidade eram elementos importantes para os cidadãos na Hélada antiga. A formação do homem da pólis estava muito atrelada à forma como ele se relacionava com os demais cidadãos, de modo que o caráter político e social da vida se misturavam constantemente ao aspecto religioso – ou o contrário, a vida religiosa atrelada à política fazia com que o homem valorizasse e desenvolvesse interesse por variadas formas de relações sociais. Saber das leis e vigiar a política e seus executores não apenas era o que poderíamos chamar hoje de “dever” ou “exercício de cidadania”, mas também um serviço religioso. Os deuses com frequência misturam-se à vida da pólis: brigam uns com os deuses de outras pólieis, fazem guerra e apaziguam guerras, estão relacionadas na feitura das leis (Thêmis além de ser a deusa da justiça também teria inventado os rituais religiosos, os oráculos e as leis), ao seu exercício (Zeus e Deméter como senhor e senhora protetores da lei), ou à sua cobrança (como se pode ver no caso do não cumprimento dos leis ou da sua punição no caso de crimes e outras formas de contravenção nas Eumênides que velam pela punição dos matricídios), sem falar nas ocasiões festivais onde seus aniversários (Thargelia), chegada (Lenais, Dionisia Urbana), ou casamentos (Gamelia) são lembrados por todos na cidade como fatos importantes na história do povo.  Assim, compreendemos que o estilo de vida marcadamente proto-urbano da cidade antiga na região da Hélada incentivava o homem a desenvolver um certo interesse e afeição pela vida política e social de seu lugar.

 Na abordagem reconstrucionista esse aspecto não é negligenciado, sendo um dos elementos basilares do projeto, junto com a observância aos rituais e a incorporação de um modelo moral e ético pautado em virtudes como a areté, a gentileza, e a honra entre outros.

Na data de Proclamação da República, 15 de novembro, buscamos lembrar os heróis responsáveis pela fundação do Estado em que vivemos e à criação de um espaço que posteriormente se transformaria no ideal de liberdade e dever nos quais nossas crenças, juntas à outras, poderiam florescer. Nesse dia sugerimos que sejam honrados Athena Polia e Zeus Polieu, os deuses da pólis. Abaixo segue um modelo de libação que pode ser feito junto a um conjunto de outras atividades celebrando a data, tais como visitas a lugares importantes da história da cidade, bem como uma libação aos próprios heróis do país ou da sua cidade.


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1.       Preparativos: Prepare o altar com as imagens de Zeus e Athena. Junto às imagens deixe uma vela para Héstia, mais ou menos ao centro, e à frente um prato ou pequena bacia onde a libação possa ser vertida, caso esteja em um lugar fechado. Além disso os frascos com os líquidos para a libação podem ser colocados juntos ao altar. Sugestões de ofertas para libação: azeite, mel, leite e vinho. Uma pequena bandeira ou símbolo do país ou estado pode ser colocada no altar. Abaixo, mais ao chão, deixe a bacia com água para khernips. Caso não tenha um ramo de louro, o sal grosso pode ser utilizado.

 

2.       Héstia: Acenda a vela e recite o Hino Homérico a XXIV para Héstia:  Héstia, tu que cuidas da sagrada casa do senhor Apolo, o que atira longe ao enorme Pytho, com suave óleo escorrendo sempre de suas madeixas, venha agora a esta casa, venha, tendo uma só mente com Zeus o todo-sábio -- venha para perto, e sobretudo conceda suas graças sobre a minha canção”.

 

3.       Purificação: Com a bacia para Khernips em mãos, queime o louro na chama e diga Kernipstai, e em seguida vá aspergindo a água no local purificando-o. Caso não tenha o louro, misture o sal à água, do mesmo modo e siga como indicado.

 

4.       Convidando: Diga algo como “Eu chamo por Ti, ó Zeus, pai dos deuses e dos homens, Cronida, Portador da Égide, tu que guardas a cidade, escuta meu chamando e responde com gentileza tomando parte nos nossos festejos, Ó Zeus!”.

 

5.       Libação. Como sempre, a primeira e a última libação deve ser feita a Héstia. Vertendo o líquido na bacia ou em direção ao solo, ofereça uma primeira parte a Ela com uma saudação simples ou por meio de um hino ou poema. A expressão adotada deve ser de nobreza: olhar firme para frente ou para o altar, quando estiver recitando os hinos,os braços erguidos com as palmas das mãos para cima. Em seguida, ofereça para Zeus. Recite o Hino Homérico XXII (Cantarei a Zeus, chefe supremo entre os deuses e os maiores, o que tudo vê, o senhor de tudo, o executor que sussurra palavras de sabedoria a Têmis, enquanto esta está sentada inclinada na direção dele. Seja favorável, Filho de Cronos que tudo vê, o mais excelente e grandioso!) e em seguida, comece a verter o líquido enquanto enumera alguns de seus epítetos:

Para ti, Eleutharios

Para ti, Euboleus

Para ti, Kathatsios

Para ti, Polieus

Para ti, Zeus, alfa e ômega

Efkaristo polý, ó Zeú!

 

6.       Athena: Em seguida  os passos 4 e 5 devem ser repetidos para Athena. Convide-a com uma algo do tipo: “Convido a ti, ó Athena, armada e reluzente em cobre, filha de Zeus, portadora da égide, protetora da cidade e companheira dos heróis, agracia-nos com tua presença”.  A libação segue o mesmo esquema. Recite o hino homérico XI

 

Eu te saúdo, Atena, alfa e ômega dos homens,
Da sabedoria Tu te sentas no augusto trono;
Mais que punições, às ações humanas
Tu dás glórias e bençãos - como a graça
Que brilha nas tuas asas douradas.
Longa felicidade anuncia teu destino.
Tu encontraste o bom caminho, entre os infortúnios,
Tua luz varreu as trevas, Deusa da graça.

 E em seguida verta os líquidos enquanto enumera seus epítetos e qualidades.

 

Para ti, Agoraia

Para ti, Glaukopis kai Gorkopis

Para ti, Polimetis

Para ti, Promakhos kai Sophia

Para ti, Alaukomene,

Para ti, o Polias, Niké!

Exfaristo Athena!

 

7.       Honrando os Heróis: Uma última libação pode ser feita em homenagem aos heróis de sua cidade (seus nomes podem ser elencados, ou apenas referidos no geral) honrando seus feitos e suas contribuições para a cidade ou o país.

 

8.       Oferta de Héstia: Como no início, a primeira libação é feita para Héstia e a última também. Verta um pouco do liquido para Ela com uma expressão semelhante à usada na primeira oferta.

 

9.       Ofertas: Caso tenha alguma oferta essa é a hora de oferecer. Você pode deixa-las em um recipiente próprio, ou ao chão. Um incenso também pode ser oferecido em agradecimento. Acenda-o, espalhe a fumaça sobre o altar e faça os agradecimentos finais.

 

10.   Encerrando. Agradeça a presença dos deuses e dos heróis.

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