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Sobre a Beleza

texto escrito por Sannion, traduzido por Alexandra

O que o ‘Hellenismos’ oferece, em uma palavra, é beleza. Pergunte a uma pessoa da rua qual a primeira impressão que ela tem da Grécia antiga. Se ela não responder que eram uns pederastas vestidos de toga, elas provavelmente mencionarão as lindas estátuas ou os templos em ruínas com suas colunas impressionantes que estão ali há mais de dois mil anos. Se a pessoa tiver um pouco mais de educação, falará dos épicos de Homero, dos trabalhos de Sófocles e Eurípides, dos diálogos filosóficos de Platão, ou dos mitos que inspiraram a arte ocidental por séculos. O artístico está intrinsecamente envolvido na concepção dos gregos antigos porque era uma parte importante da visão de mundo deles. A arte é a resposta do homem à beleza e à harmonia que o circunda, uma forma de suas experiências fazerem sentido e de compartilha-las com seu próximo. É interessante que a palavra grega para universo – cosmos – não apenas implica ordem e estabilidade, mas também beleza e ornamentação (“cosmético”). Eles sentiam, fundo em seus ossos, a beleza fundamental do mundo que os circundava – as ardentes nuances do céu quando o sol começava a se pôr, uma fonte natural borbulhando em uma clareira da floresta, o corpo humano em repouso – e eles sentiam que havia algo divino em tudo isso: um mundo, como dizia Tales de Mileto, “cheio de deuses”. Os deuses podiam parecer remotos, habitando longe nas alturas do Monte Olimpo, mas mais freqüentemente os gregos os experimentavam como presenças imediatas e manifestas nas forças naturais que os circundavam – Zeus nas nuvens escuras de tempestade, Poseidon nas ondas do oceano, Dionísio no fruto madura da vinha, Afrodite e Ares incitando emoções no nosso coração, fosse de amor ou de destruição. Os hebreus não falam do deus deles assim, a voz do deus hebraico pode até vir de uma sarça ardente, mas o autor do Êxodo diz claramente que Javé não é a sarça ardente. Ele está tão distante da criação que Newton poderia falar do mundo como uma máquina tão eficiente que fez deus ser redundante – e isso é só um pequeno passo até a terrível e profética proclamação de Nietzsche de que deus está morto.

E o que se tornou o mundo divorciado do divino? Um lugar deserto, cheio de sofrimento e feiúra. Em todo o lugar há um senso profundo de vazio e solidão. Olhe as cidades à nossa volta: são sujas, monótonas, feias, opressivas, cinzentas e uniformes. O espírito se rebela diante dessas coisas, e por isso os jovens das ruas pegam latas de tinta spray e desesperadamente picham seus nomes e símbolos misteriosos nas fachadas em uma tentativa fútil de quebrar a monotonia, pra proclamar que estiveram ali, que a vida deles importou de alguma pequena forma. Mas sem uma conexão mais profunda com a fonte da criação, com o mundo da imaginação, tudo o que eles conseguem é uma insignificante etiquetagem territorial. Só serve para acentuar mais a desolação dos seus arredores, o vazio de seus espíritos.

Olhe para a cultura que se desenvolve dessas cidades. Letras permutáveis de rap e de funk que exaltam as virtudes de ficar bêbado e chapado, de adquirir quantias extravagantes de riqueza e de se cercar de jóias brilhantes, carros enfeitados, e sistemas de som potentes. As mulheres são reduzidas a ‘cachorras’ e ‘preparadas’, cuja existência serve apenas para gratificar a luxúria dos bandidos. A cultura popular mais difundida não é melhor do que isso, pois é dominada por reality-shows cujos participantes se diminuem a fim de ganhar altas somas de dinheiro, onde celebridades são adoradas por nenhuma outra razão alem de serem ricas e terem fama.

Nossa cultura carece de morais mais profundas e definidas, de uma visão mais grandiosa de mundo, e se permite ser manipulada e controlada por aqueles que perpetuam as maiores atrocidades em nosso nome, com nem sequer uma palavra de crítica, e eles fazem isso de tal forma que acabam nos convencendo que estão protegendo nossa segurança nacional e o modo tradicional de se viver. É o que parece acontecer no tal ‘sonho americano’ – um emprego seguro e satisfatório que possa permitir que eu me cerque de coisas que não preciso e assista coisas incríveis na televisão até eu finalmente tombar para a morte. Nenhuma pergunta difícil, nenhum relacionamento mais pleno com o ambiente que me cerca, nenhum desejo de realizar grandes coisas e deixar uma marca nas páginas da história.

O Helenismo se opõe a isso ao declarar o valor central da beleza. Beleza é verdade, é um reflexo de coisas como elas autenticamente se apresentam e também o relacionamento delas com poderes mais altos e uma ordem exaltada e visionária. Quando se encontra a beleza, isso muda a pessoa, porque a beleza é acompanhada pelo desejo e nós acabamos desejando o belo, querendo mais disso, não mais ficamos satisfeitos com o que não é belo. Isso nos compele a segui-la, a sacrificar o mundano e o superficial a fim de possuí-la, nos faz olhar para dentro e fazer mudanças em nós mesmos a fim de tanto ser digno do belo quanto melhor representá-lo, e nós começamos a infundir nossa visão com isso, fazendo-nos observar a beleza que nos cerca, onde antes tudo parecia escuro e deprimente.

Quando olhamos para as coisas que os gregos antigos consideravam belas, vemos o quanto a visão de mundo que a religião deles tinha é importante hoje. Como eu disse antes, eles eram agudamente ciente das belezas naturais do mundo. Quando você valoriza a beleza, você deseja preservar e garantir a sua continuidade para as gerações futuras. Você não verte sua sujeira nos rios, pavimenta bosques sagrados para construir estacionamentos, torna o ar negro e irrespirável, com descuidado e avareza. Em vez disso, você vive em harmonia com o meio-ambiente, honrando a beleza dele como sagrada, divina, digna de ser cuidada como se fosse um parente querido.

Com relação à beleza do corpo humano, os gregos iam longe para garantir sua saúde e vigor robusto. No centro de cada cidade, mesmo em colônias distantes como a Turquia e a Índia, havia o ginásio onde os homens malhavam. Até pessoas mais velhas como Sócrates visitava o ginásio todo dia para ficar em forma. A maioria dos festivais tinha sua “agon” (competição), na qual as corridas, a luta greco-romana, o boxe, as danças etc representavam um importante papel. A cada quatro anos, os homens viajariam de todas as partes do mundo conhecido, inclusive proclamando tréguas na guerra a fim de que os atletas pudessem competir nos Jogos Sagrados de Olímpia – uma tradição que permanece, embora modificada, no mundo moderno. A ciência e a medicina eram altamente valorizadas na Grécia antiga, o lugar de nascimento da racionalidade. Médicos, que se consideravam descendentes de Asclépio, viajavam de vilarejo em vilarejo ou cuidavam de templos como o de Epidauro, curando males, remendando ossos quebrados e prescrevendo regimes de dieta e exercício a fim de garantir uma ótima saúde e a beleza do corpo. Esses regimes eram levados ao extremo em Esparta, onde a população inteira vivia uma existência disciplinada de quartel, comendo um denso e escuro mingau de cereal, e passando o tempo treinando para a Guerra e aperfeiçoando o corpo – até as mulheres, o que era uma coisa impensável para os atenienses. Apesar de serem um exemplo extremo, os espartanos não estavam sozinhos na sua veneração pelo corpo e na busca da sua perfeição. Vemos esses ideais em numerosas estátuas de jovens garotos no auge da forma física, nos panegíricos louvando os atletas bem-sucedidos, e até nas vidas dos maiores espíritos criativos da Grécia: Platão, que primeiro foi famoso como boxeador e depois como filósofo, Ésquilo, que desejava ser lembrado primeiramente como soldado e não fazia menção à sua carreira como homem das letras em seu epitáfio, e Sófocles, que compôs suas maiores tragédias já na idade de 90 anos. Os antigos gregos não eram nenhuma flor murcha de estufa, nenhum asceta doentio torturando sua carne no deserto! Na verdade, eles tinham tanta veneração pela beleza do corpo humano que não poderiam pensar em uma melhor forma de expressar o transcendente dos deuses do que os retratando na forma humana. Afinal, o que no mundo era mais belo que o homem, a medida de todas as coisas?

Mas, é claro, para os gregos não era suficiente simplesmente tornar o exterior belo e negligenciar o que repousava dentro. Isso seria como oferecer a alguém um cálice dourado esculpido de ornamentos mas cheio de água salobro e lama. Então, mesmo quando os jovens treinavam seus corpos no ginásio, os pais deles se certificavam de colocar suas mentes e espíritos sob a cuidadosa guia de tutores que os instruiriam na poesia, música, filosofia e retórica. Pois o verdadeiro homem é aquele que está bem cercado, que poderia estar simplesmente tão confortável em uma competição dramática quanto saindo com seus amigos na ágora ou carregando armas contra os persas. Os gregos se sobressaíam nas artes. Até hoje, os poemas de Homero são incomparáveis em beleza, complexidade e na habilidade de mexer com as paixões que jazem fundo em nosso peito e dão asas à nossa imaginação, permitindo que esta se eleve às alturas do Olimpo. As peças dos dramaturgos ainda são executadas, as pinturas de vasos e a arquitetura do período ainda causam maravilhas. Esse era o mundo do qual os gregos se cercavam, no qual eles viviam e prosperavam. As comédias de Aristófanes não eram simples entretenimento tedioso e sem sentido. Elas se agarravam às mesmas questões profundas dos diálogos de Platão. Elas eram apimentadas com toda a sorte de política contemporânea e controvérsias religiosas. E os antigos atenienses não tinham problema em acompanha-las. E, ainda, para os gregos antigos, que viam a beleza no pensamento, que não se sentavam para assistir passivamente, mas que eram ativamente engajados com a arte, participar da discussão que uma peça incitava era a norma, não era a exceção.

Tão lindo quanto um jovem atleta ou um coral no palco eram as filosofias éticas e os códigos legais dos antigos gregos. Fundamental para ambos era o conceito de harmonia, de submissão a uma ordem mundial natural e transcendente. O criminoso era alguém que se colocava fora dessa ordem, que era imoderado, incapaz de controlar seus desejos, pensando apenas em si mesmo e nunca em como suas ações iriam causar impacto nos outros ou na comunidade como um todo. Luxúria, avareza, ira – isso tudo são emoções que perturbam a calma tranqüila do espírito e desfiguram o corpo. A gente vê o quão verdadeiramente aberrante elas são quando retratadas na arte – figures grotescas e atormentadas em completo contraste com as convenções normais da arte grega onde tudo era sereno e elegante, a quinta essência da beleza.

Então, quando um estranho perguntar ‘qual o benefício de se adotar o helenismo, qual é a essência da sua religião?’, responda que é a beleza, e saiba que esta é a mais sublime das crenças, digna do maior respeito, infundindo e enobrecendo todos os aspectos da vida e que, sem esse senso de beleza, a existência se torna uma caricatura digna do maior desdém.
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