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Por que retornamos ao helenismo e por que um dia o deixamos?

O Sannion, um helênico alexandrino (que mistura Grécia com Egito), respondeu recentemente a uma pergunta sobre o motivo de, depois de 2 mil anos de monoteísmo, os deuses decidirem se re-afirmar, e ele disse que - para responder isso - primeiro tínhamos que nos perguntar por que eles deixaram tal coisa acontecer antes. Continuo traduzindo nas suas palavras:
"Há várias razões para o cristianismo ter conquistado uma ascendência. Uma delas é que os séculos II a IV desta era foram uma época de transição radical, quando todas as instituições políticas, sociais, econômicas e espirituais do império foram desafiadas e vistas como insuficientes. O cristianismo provinha uma alternativa a isso, e oferecia às pessoas algo parecido com autoridade e estabilidade em épocas profundamente incertas. (Épocas as quais se parecem com a que nos encontramos hoje.)

Mas a Grécia e Roma tinham passado por revoltas radicais antes disso - em alguns casos promovendo transformações ainda maiores - então qual foi a diferença desta vez?

Honestamente, acho que Tertuliano estava certo quando afirmou que era o sangue dos mártires que fez a Igreja prosperar. Mas acho que ele errou foi no porquê disso.

A religião sempre teve um forte componente social atrelado a ela. É algo que une a comunidade através de experiências e crenças compartilhadas. É também, de alguma forma, um contrato social, onde a comunidade entra em uma barganha com os deuses. No final concordamos em ser fiéis a certas leis, para honrar os ancestrais e suas tradições, e para desempenhar as cerimônias religiosas apropriadas. Em troca, os deuses concederão proteção para a comunidade, sucesso, e abundância de terras, rebanhos e filhos. Isso é verdadeiro na religião grega, romana e egípcia - mas também o era no antigo judaísmo.

Agora, quando o cristianismo entrou em cena, ele foi percebido como uma contra-cultura. Os cristãos não desejavam reconhecer os deuses ancestrais e viraram as costas para as tradições da antiguidade que mantiveram o estado seguro por incontáveis milênios. Desnecessário dizer, isso provocou uma grande preocupação entre os romanos, que procuraram erradicar a "superstição perigosa e perniciosa". Enquanto isso pode ter parecido uma coisa sensível na época, percepções posteriores mostram que foi a abordagem errada. Por quê? Porque a aderência religiosa não é algo que possa ser forçado (obrigado, compelido). O amor aos deuses deve brotar no seio de sua própria concordância, livremente concedido. Os deuses nunca exigiram tais honras compulsórias. Na verdade, quando se olha para trás, nos mitos, toda hora que alguém é morto por instituir o culto de novos deuses, os deuses punem a comunidade até que emendas sejam feitas e o culto a aquele deus seja admitido/incorporado. (Veja os relatos da recepção de Dionísio, Magna Mater ou Serapis, se tiver dúvidas.) Platão disse que o ciúme/inveja fica de fora do coro divino - e acredito que esse seja um princípio fundamental da nossa fé. Nossos deuses não são ciumentos. E acho que se ofendiam grandemente em ver pessoas torturadas e mortas no nome deles. Eis o porquê de o tumulto que sobreveio ao império romano não ter se dispersado com o derramamento de sangue cristão. As pragas, as penúrias, a derrota militar e o caos social que esses massacres organizados procuravam terminar, apenas se intensificavam à medida que as perseguições aumentavam. Era como se cada gota do sangue do mártir deixassem os deuses mais zangados e os afastasse mais e mais. Eles sentiam que seus templos tinham sido poluídos, e então eles os deixaram ser destruídos. Os sacerdotes renunciaram às suas obrigações solenes para manter a paz dos deuses, para promover harmonia e felicidade, em vez de participar dessa carnificina, crueldade e ódio - e, conseqüentemente, os deuses virassem suas costas a eles.

O poeta Hesíodo teve uma profecia de uma época de calamidade para a raça humana, quando suas ações iníquas fariam os deuses partirem da terra para o Olimpo:

"E então Aidos e Nêmesis, com suas doces formas enroladas em mantos brancos, partirão da terra de largos caminhos e abandonarão a humanidade para se juntar à companhia dos deuses imortais: e tristezas amargas serão deixadas para os homens mortais, e não haverá ajuda contra o mal." ('Os Trabalhos e os Dias')

Mas não foi só Aidos e Nêmesis que partiram - e sim todos os deuses. Embora, claro, eles não tenham partido todos de uma vez. Alguns se deteram por aqui, ajudando a humanidade, se esforçando para fazê-la ver através da sua cegueira e crueldade. Alguns foram tocados pelo exemplo da verdadeira sabedoria e virtude entre os homens, e continuaram a proteger a Grécia, o Egito, Roma etc, por conta própria, protelando o crepúsculo o quanto podiam. Alguns - Dionísio, Hermes, Pã, Afrodite, entre outros, que nos surgiam repetidamente em escritores mais tardios - permaneceram até depois disso, seu amor pela humanidade era tão grande que eles não poderiam abandoná-la ao sombrio destino que ela amplamente merecia. Portanto, através das eras, a presença deles foi continualmente sentida por certas almas sensíveis e poéticas, que se apegavam aos velhos tempos e honravam os deuses, mesmo que assim arriscassem suas próprias vidas. Eles os cultuavam em segredo, eles escreviam lindos versos cheios de anseios e celebrações pelos deuses e, acima de tudo, eles mantiveram nossa memória viva. Através dos tempos, os deuses observaram e nutriram essas almas sábias e eles falaram delas aos outros deuses que tinham virado seu rosto do mundo, dizendo "Nem tudo está perdido!"

A princípio, os deuses tinham dado a terra aos cristãos, para reprimir os pagãos e fazer emendas pelas vidas perdidas em seu nome. Mas, com o tempo, os cristão se provaram simplesmente tão indignos do mundo quanto os pagãos tinham sido, ou até mais. Pois eles procuraram a completa eliminação dos deuses, a destruição dos lugares lindos de culto, e eles trataram seus companheiros com muito mais crueldade ainda e com maior sede de sangue do que os romanos tinham feito quando estavam no poder.

E, então, os deuses começaram a voltar, e o foco do poder mudou. Só que nesta época seria diferente: nenhum grupo seria assassinado inteiramente. Todos deveriam aprender a viver juntos e compartilhar o poder. O homem deve ser ensinado a ser fiel às virtudes do amor, da comunidade, da justiça, dap iedade, da filantropia etc, e nunca matar ou obrigar seus companheiros a cultuar de uma maneira que não esteja de acordo com seu próprio coração. Quando agimos dessa forma, atraímos os deuses para mais perto do mundo - mas, quando agimos injustamente ou impiamente, nos fechamos à presença deles.

Se eu acredito que essa seja a explicação e causa reais? Não tenho certeza - mas acho que funciona a nível de 'mythos'."

(Sannion - http://sannion.livejournal.com/698421.html - tradução de Alexandra Nikaios.)

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