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Por que fazemos preces?

escrito por Mike, da Elaion, traduzido por Alexandra Nikaios

Antes de tudo: pedir por algo e não se oferecer nada em troca desvaloriza o solicitante. Isso se chama 'implorar'. A prece dos helênicos não é assim. Oferecer algo em retorno por aquilo que você pede é realmente fazer uma sentença positiva sobre o seu próprio valor. Nessa forma de prece que escolhemos - a troca - nós nos concebemos como um agente espiritualmente fortalecido e com algo de valor para oferecer ao Deus. O helenismo sempre entendeu a interação entre o nosso mundo e o próximo em termos de troca recíproca, porque nossa religião sempre valorizou o bom orgulho.

Na verdade, a prece é uma expressão irredutível da emoção espiritual e religiosa. Como eu me sinto quando faço minhas preces é totalmente único. Wittgenstein dá o exemplo de beijar uma foto de um ser amado que partiu como um gesto irredutível, algo para o qual não existem palavras. Não é uma ação baseada em nenhuma fé articulada afinal; quem beija não acredita que a pessoa morta pode sentir seu beijo. Eles tratam de agir assim como se esta fosse uma maneira de expressar uma emoção para a qual não existe substituto. A prece é como esse beijo. É uma linguagem fotográfica, um simbolismo primal que borra a linha entre o sujeito e o objeto. Ela possui e expressa algo que não pode ser encontrado em nenhum outro lugar da vida.

A prece é um momento no qual a realidade muda de lado, na qual a emoção é experimentada como algo bastante tangível. Tratar as abstrações como físicas nos permite reavaliar a experiência subjetiva, vê-la como veríamos a uma pintura ou a uma peça de música, para tanto transformar quanto ser transformado por ela.

Nietzsche construiu sua própria vida e seu eu através da linguagem. Ele escrevia tudo - no final de sua adolescência ele tinha escrito meia dúzia de autobiografias! Mas ele estava literalmente se auto-criando, bem conscientemente, tanto seu próprio sujeito quanto seu objeto, nas suas escritas e na sua poesia. A prece nos oferece a mesma oportunidade. Ela nos força a parar e tomar nota das coisas que queremos e do estado em que estamos. Isso é construtivo na medida em que alcança além da retórica de auto-ajuda por causa do lugar que ela ocupa na sua forma autêntica - não é só a poesia do ato em si. Os benefícios da prece são dinâmicos, subprodutos fluidos de um compromisso muito maior.

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