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O valor de ser religioso

texto escrito por Sannion, traduzido por Alexandra

Eu já passei por isso, e, se você nunca experimentou qualquer dúvida, você está num lugar muito perigoso. Não ter dúvidas te leva ao fundamentalismo, que é uma espécie de fé oca, vazia. Sinto que, ter passado por dúvidas e ter mesmo questionado profundamente tudo o que é importante para mim, e ainda passar por isso, apenas reafirmou e fortaleceu aquelas coisas às quais eu me seguro. Porém, como em tudo na vida, você pode ir um tanto longe, e acabar falando demais sobre algumas experiências realmente boas. Então, a pergunta é 'como saber? como realmente saber?'. Você não sabe. Você não pode. Droga, você sequer consegue provar de verdade de que qualquer coisa fora de si mesmo realmente existe e não é só uma invenção da sua imaginação. Quer dizer, por tudo o que você conhece, eu posso não existir. Este texto poderia estar magicalmente aparecendo para você do nada, ou talvez você tenha transtorno de personalidade múltipla e um dos seus outros 'eu's é quem está escrevendo isso para você. Eu sei que não é o caso, porque eu estou sentado aqui, digitando-o eu mesmo, mas - sério - como você sabe disso? Não sabe, mas isso parece um tanto improvável, não parece? A Navalha de Occam entra na brincadeira. A explicação mais simples é provavelmente a mais verdadeira. E isso é algo que eu já percebi mesmo. É muito mais simples tomar as coisas pelo seu valor nominal. Requer menos esforço, menos malabarismo mental, menos tentativas de explicar todas essas coincidências. Porque uma vez que você começa a descer pelo caminho dos céticos, e realmente começar a questionar tudo, tudo isso se desenreda, e suas perguntas nunca terminam. Agora, não estou dizendo que acreditar em tudo é melhor – uma pequena dose de ceticismo é uma coisa boa – mas é preciso haver um equilíbrio. E esse é realmente um dos princípios fundamentais do Hellenismos – em Delfos, havia uma série de máximas ou ditos sábios inscritos, e uma dos principais era "Tudo em moderação" ou "Nada em excesso".

Ora, eu poderia lhes dar um monte de provas teológicas e filosóficas para a existência dos deuses – os gregos amavam esse troço – mas, sério, isso funciona? Não funciona para os cristãos, como você e eu bem sabemos. Eles gostam de pensar que você pode reduzir tudo a uma prova matemática, mas você não pode. Simplesmente não pode. Não é assim que as coisas espirituais funcionam. Eles têm suas próprias leis, seu próprio tipo de existência, e - portanto - as leis que governam nossos corpos carnais não se aplicam a eles. O que eu sempre achei ser uma prova bem mais certa do que palavras que soam bem – e paradoxicalmente, menos evidente – é a experiência que temos.

Quando você começa a experienciar os deuses, ter encontros com eles, senti-los como uma parte íntima de sua vida, o velho cão da dúvida que reside em nossos corações começa a se encolher e a se retirar para dormir. Não de primeira, é claro. Você se acostuma tanto a duvidar de tudo que isso é natural, reflexivo. Mas, um dia, depois de algum tempo, você começa a ver que não precisa daquela armadura, que todas aquelas coisas esquisitas e maravilhosas estão acontecendo, coisas que você não pode explicar de outra forma que não a de certificar-nos da existência dos deuses. Então, esse é o meu verdadeiro conselho – comece devagar e trabalhe seu caminho para o alto. Leia sobre os deuses, tente ter uma compreensão sobre eles. Então saia pelo mundo e veja se pode encontrá-los lá. Porque nossos deuses não habitam um firmamento/paraíso de conto-de-fadas, eles estão bem aqui, conosco, neste mundo. Eles vivem no céu e na terra, nas árvores e montanhas, em velhos prédios e ruas urbanas. Você pode encontrá-los em qualquer lugar e em todo o lugar. A massa de pessoas os experimenta, mas não possuem mais o vocabulário, a visão de mundo na qual colocá-los. Eles também chegam a duvidar dos seus sentidos. Eles pensam apenas em termos intelectuais, e que aquilo que estão sentindo na pele, aquilo que se cheira e sente o gosto e escuta, não é real. Que só existem na mente. Bem, a mente é legal, mas somos mais do que a mente. Somos todos os sentidos juntos, e um pouco algo mais, um pouco alguma coisa que existe além do físico. E assim é com tudo o mais no mundo.

Então, lembre-se disso, e lembre-se de que há várias formas de experienciar as coisas. Você nem sempre vai experienciar os deuses como seres humanóides loiros de dois metros e meio de altura que aparecem e batem um papo de coração com você. Às vezes é só um sentimento de PRESENÇA, talvez acompanhado por um cheiro ou gosto ou alguma ocorrência aleatória estranha. Às vezes você vai conhecê-los na sua forma animal – um cervo que pára atipicamente, olha para você, e você vê em seus olhos uma inteligência maior que a de um animal. Às vezes isso é tão simples quanto uma brisa repentina farfalhando as folhas para chamar sua atenção, ou uma frase num outdoor que se encaixa exatamente no conteúdo do seu pensamento naquele momento. Às vezes você terá um sonho ou uma visão, e sim, ocasionalmente você conseguirá ver um arbusto em chamas, mas não muito frequentemente. Não é assim que normalmente os deuses escolhem agir. Mas o negócio é o seguinte: eles escolhem agir, e eles podem escolher agir de várias formas diferentes. Então, isso também á parte da religião – estar alerta, atento, diligente. Prestar atenção no mundo à sua volta, em vez de contemplar seu umbigo ou sonhar com um céu distante. É estar aqui, agora, e agir no mundo. É por isso que coisas como preces e sacrifícios são tão importantes. Porque os deuses não são apenas sensações boas dentro da gente – eles tem uma existência independente fora de nós. E, em gratidão pelas coisas reais que eles fazem por nós, oferecemos ações reais a eles. E isso é um algo mais que irá ajudar com a dúvida – encontrar uma rotina regular de culto, e cumpri-la, aconteça o que acontecer.

Porque você não vai sempre se sentir a fim de fazer isso, às vezes você vai espernear e gritar para não fazer. Mas esses momentos são justamente os que você mais vai precisar fazer alguma coisa. E nem sempre espere ter o tipo de experiência de fogos de artifício quando estiver seguindo essa rotina – às vezes é bastante tedioso, mas ainda assim você deveria cumprir, porque é uma forma de demonstrar respeito aos deuses.

Além disso, me ocorre que a raiz do ceticismo jaz no medo. Medo de se machucar/magoar, medo de tirarem vantagem de você, medo de colocar sua fé em algo que vai te deixar pra baixo, medo de parecer um bobo. Então, para combater o medo, a gente guerreia ativamente contra a fé, declarando uma independência, insistindo que isso não pode e não irá tocar sua vida, e portanto ninguém mais vai se magoar. Mas o que você consegue quando baseia sua vida no medo? Nada surge do nada, e o medo apenas produz mais medo, vazio, e solidão. É preciso uma coragem de verdade para colocar de lado esse medo, e abraçar a vida na sua totalidade. E, para realmente estar vivo, você tem que arriscar, tem que estar disposto a ter uma contusão nos joelhos e um coração partido. E o Helenismo é, acima de tudo, uma religião de vida. Cada um dos nossos deuses preside sobre uma parte particular dela, e, ao experimentar essa parte na sua plenitude, você se puxa para mais perto deles. E, sério, um monte de preocupações que te levam a um ceticismo desmedido não se aplicam ao Helenismo. Não existe autoridade, não tem alguém que fica entre você e os deuses. Ninguém vai tentar tirar vantagem de você, tomar seu dinheiro, dizer o que fazer com a sua vida. E, principalmente, nossos sacerdotes conduzem rituais e oferecem conselhos – mas, mesmo quando isso acontece, não existe nada que te obrigue a aceitar o que eles disseram como uma 'verdade bíblica'. Você é permitido – mais ainda, ENCORAJADO a discutir com eles, e a pensar as coisas por si mesmo. Você é permitido até a discordar dos deuses. E, sim, talvez ainda exista o medo de parecer um bobo, porque, de algumas perspectivas, o que nós podemos fazer parece um pouco tolo. Parar de pé na frente de uma mesa com tigelas e estátuas bonitas e verter vinho para elas e espalhar cevada e recitar poesia – é, isso pode parecer um pouco besta. Mas, sério, seria a pior coisa do mundo? Pense nisso – o quão tolo e ridículo você parece quando você está dançando ou transando? Não há nada mais absurdo do que duas pessoas fazendo amor – e, ao mesmo tempo, nada mais intenso, mais lindo, mais extasiante e incrível do que sexo. Então, sério, às vezes você só tem que deixar rolar e curtir o momento, e aceitar que vai mesmo parecer um tolo no final das contas, mas que isso não importa, porque no momento em que está rolando você simplesmente sente aquilo como algo incrível. E, acredite em mim, cultuar os deuses, cultuá-los num lugar onde você pode realmente sentir os deuses presentes ali com você – é a coisa mais incrível do mundo. Sim, é melhor até que sexo. Embora eu não saiba se eu iria querer ter que escolher entre um dos dois.

E outra coisa que eu acho que realmente ajuda – o Helenismo tem a ver com gratidão, com aprofundar seu relacionamento com os deuses. Não tem a ver com dogma, não tem a ver com medo, não tem a ver com se diminuir e se humilhar para exultar um deus – tem a ver com simples gratidão. Com honrar os deuses como aqueles que nos conferem todas as bençãos da vida, e cultuá-los compartilhando nossa comida e nossa bebida, recitando palavras bonitas, fazendo arte, dançando ou correndo ou aperfeiçoando nossos corpos, ou simplesmente percebendo que eles estão lá, que você reconhece tudo o que eles fizeram por você, e que você profundamente os aprecia. É tão simples – e tão incrivelmente profundo – assim. Por que, no final, sua vida inteira se torna uma gratidão, um reconhecimento, porque cada pequeno aspecto de sua vida tem uma deidade ou espírito presidindo-o. Então tudo o que você pensar ou fizer ou desejar se torna uma forma de honrar e conectar-se com o divino.


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