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O Tempo do Mito e o Mito do Tempo

O HERÓI E A ORDEM DO MUNDO

Embora toda e qualquer generalização esteja sujeita a restrições, pode-se dizer, groso modo, que todas as religiões do tipo arcaico empenham-se em garantir e perpetuar a ordem existente,o status quo vigente. Em todas ou quase todas, no entanto, tinha-se a consciência de que esta ordem atual – ordem do cosmo, da natureza, da sociedade, das instituições- não existiu desde todo o sempre, ab eterno,mas se formou de uma vez por todas em um passado,mais ou menos distante, que se pode chamar “o tempo do mito”, o qual confere à ordem existente seu valor sagrado e imutável. Pois bem, foi daquele tempo, qualitativamente diverso do tempo profano, que surgiu, mediante a ação de seres extraordinários, a grande transformação das coisas , a qual acabou por lhes autorgar o estado atual. É mister, todovia acentuar mais uma vez que tudo quanto existe possui suas raízes naquele mundo ambivalente dos começos, um mundo integralmente diferente do atual. Eis o motivo porque, no tempo presente, para consolidar vez por outra a ordem permanente , ameaçada pelo desgaste do tempo profano, é preciso recorrer ao tempo do mito, reatualizando-o com toda a sua desordem primordial,para fazer ressurgir o mesmo e , de novo, a ordem permanente. Donde se conclui que a ambivalência do tempo do mito, condição da ordem e fonte da sacralidade ,mas simultanenamente, desordem ,o- revorso da ordem atual (no bem ou no mal, paradisíaco ou mosntruoso, se não ambos ao mesmo tempo),é um estado de imperfeição , um estado simplemsente não-humano. Pois bem, as personagens que agem nessa ambivalência são igualmente monstruosas e imperfeitas,mas que se constituem simultaneamente nos agente sobre-humanos da transformação criadora de que surge a ordem atual. A ambivalência do herói mítico, seu lado luminoso e sua face escura, essa notória complexio opositorium fazem parte integrante,ipso facto, do todo de sua personalidade,plasmada illo tempore,´no tempo das origens. E é como agente e garante da trasnformação criadora , de que surgiu a ordem existente no mundo atual, que é também no fundo , obra su9a, que o herói está sempre pronto para defender o status quo vigente.

A propósito deste esforço das religiões arcaicas em garantir e perpetuar a ordem existente , talvez não seja fora de propósito acrescentar que ,para K. Kerényi , bem assim,com mais prudência, para Brelich, os deuses são efetivamente as formas sobre as quais uma determinada civilização politeísta organizou , por articulação , a ordem qu9e essa mesma cultura quer que seja permanente em seu mundo. Experiência e criação- ambas historicamente condiconadas- não se separam jamais nitidamente,pois que toda experiência já é criação e toda criação se fundamenta na experiência. As divindades não são realidades simplesmente descobertas e passivamente contempladas ,mas sobretudo formas impostas por uma cultura ao próprio mundo. Com todos os tipos particulares de culto, incluindo-se neles a narração de mitos, uma religião visa a reafirmar e consolidar e plasmar os deuses , que não são imortais simplesmente porque a própria realidade é permanente, coisa aliás, discutível,por isso que é diversa a realidade de cada cultura,mas que devem ser imortais, na medida em que uma civilização religiosa do tipo arcaico almeje que o mundo conserve a ordem e a forma constituídas por essa mesma civilização. A tendência conservadora, característica das religiões antigas ,é a fonte e a garantia da imortalidade dos deuses.

Os heróis esses hemitheoi, semideuses, mais próximos dos deuses que dos homens ,esses indispensáveis intermediários entre os mortais e os imortais, tiveram também por função manter o status quo, apregoar a imortalidade de seus pais e defensores divinos.

(Junito de Sousa Brandão tratando da natureza dos heróis, editado por Thiago Oliveira)
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