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O Clero no Reconstrucionismo Helênico

por Alexandra Nikaios

Existem e existiram muitas formas de sacerdócio e ofícios sagrados. Normalmente há o que executa os rituais, o vidente ou profeta, o poeta ou cantor e, comumente, uma quarta figura, que conhece bem a teoria e a prática e observa os rituais para evitar que ocorram erros.

Entre os Celtas: os Druidas vigiavam os rituais e serviam como conselheiros; os Vates eram os videntes e condutores dos rituais, e os Bardos eram os que conheciam as músicas e histórias. Entre os Romanos: os Pontífices vigiavam o sacerdócio, os Flamines conduziam os rituais, o Auguros servia como adivinho, o Rapsodo cantava. Entre os Védicos: os Brâmanes observavam os rituais e corrigiam erros; os Hotri presidiam e invocavam as deidades; os Adhvaryu preparavam o local e conduziam o sacrifício; e os Udgatri cantavam ou entoavam os hinos. Na China antiga: havia o Zhu (invocador ou sacerdote), o Wu (xamã), e o Adivinho que corria com os rituais e mantinha a ordem sagrada. No Daoísmo: existe os Guagong (Alto Sacerdote ou Mestre Ritual) que liga o homem aos espíritos, o Dujiang é o cantor chefe que conduz os cânticos sagrados, e o Jianzhai (Inspetor de Banquetes) que cuida da regularidade do ritual e corrige os erros.

Tal divisão é vista entre os Helenos também, com os Hiereus que cuidavam dos rituais, garantindo que tudo fosse preparado e executado propriamente e invocando os deuses; com os videntes ou Mantikoi (adivinhadores e oráculos) que falavam em nome dos deuses e observavam os presságios e as profecias, para aconselhar nas ações, e ajudavam com técnicas de adivinhação; e os Aedos que cantavam e mantinham os mitos e a poesia sagrada.

Quando se especializavam no que faziam melhor, eles provinham um serviço melhor naquela habilidade. Não se tentava dominar todas as áreas de serviço ao mesmo tempo, talvez apenas se executava alguma tarefa de alguma outra função, como por exemplo um sacerdote ou sacerdotisa que atuava de Skirophoros (carregador do dossel) no festival da Skirophoria. E nenhum se sentia intimidado ou desacreditado por não ser bom em uma coisa e ser em outra. Isso também descentralizava os poderes e as responsabilidades de uma pessoa em vários participantes dos ofícios sagrados.

Agora vamos ver quanto a ordens menores no sacerdócio.

Os Védicos tinham assistentes, sacerdotes menores, até o número de 16 pessoas trabalhando ao mesmo tempo: os quatro sacerdotes principais e três ajudantes para cada um. Os Hotri eram auxiliados pelos Maitravaaruna e os Graavastut. Os Adhvaryu eram auxiliados pelos Pratisprasthaar, os Neshtri e o Unnetri. Os Brâmanes eram auxiliados pelos Braahmanaacchansin, os Agniindra e os Potri. Os Udgatri tinham os Presstaava, os Pratihartri e os Subrahman. No Xintoísmo, o Kannushi é auxiliado pelas Miko, xamanesas profetisas, entre outras coisas. No Taoísmo, há os Shixiang ou Atendente do Incenso (que antigamente eram chamados de Miazhu, ou Sacerdote do Altar), os Shideng ou Atendente da Lanterna, e os Shijing ou Atendente do Sino. No Cristianismo, há os bispos, presbíteros/sacerdotes, diáconos, os acólitos, os exorcistas, os ministros de eucaristia, os coroinhas, o turibulário, o naveteiro, os leitores e os cantores, entre outros que servem aos maiores.

Na Antiga Hellas (Grécia), também há ordens menores similares. Os Neokoroi mantinham o santuário limpo e ajudavam os Hiereus (sacerdotes). O Neokoros (mantenedor do templo) servia como cuidador ou “sacristão” do santuário. Os Hieropoioi (administradores dos ritos) e os Agonothetai (diretores das competições) organizavam o sacrifício, incluindo obter a oblação a ser sacrificada, e executavam a oblação. Posteriormente, eles vendiam as peles, distribuíam a comida não-consumida, e vendiam a água que não era distribuída. Os Epimeletai (inspetores, supervisores), os Hierophylakes (guardas sagrados) ou os Hierotamiai (coletores do dinheiro sacro) observavam as finanças dos sacrifícios. Outros auxiliavam na procissão ou Pompe, tais como o Kanephoros (Carregador da Cesta), o Hydrophoros (ou Carregador da Água), o Pyrphoros (Carregador do Fogo), os Skaphephoroi (Carregadores de Bandeja), o Kriophoros (carregador do aríete), os Thallophoroi (Carregadores dos Ramos), o Phaidryntes (Limpador), o Kittophoros (carregador da hera) e os Liknophoroi (carregadores da peneira de joio) e os Oskhophoroi (Portadores dos Ramos da Videira) dos festivais dionisíacos, as Arktoi (Ursas) de Ártemis, os Pharmakoi (Bodes-Expiatórios) de Apolo, os Epheboi (jovens rapazes) e as Loutrides (banhistas) e as Arrephoroi (Carregadoras das Coisas Não-Ditas) e as Ergastinai (Trabalhadoras) de Atena, as Arkhousai (Oficiais) de Deméter, o Thyroros (Porteiro), entre outros. Músicos e dançarinos também auxiliavam no ritual, como os Kitharodoi (tocadores de lira) e os Auletes (flautistas). Outros sacerdotes especialistas vigiavam os Mistérios, tais como o Hierofante (Sumo-Sacerdote, o revelador) que introduzia os participantes no Sagrado, o Dadoukhos (Carregador da Tocha), o Kerykes (Arauto), o Hierokerykes (Arauto Sagrado) e sacerdotes e sacerdotisas menores (de purificação) que auxiliavam os iniciados em potencial a se preparar para o ritual, e os Mystagogues (guias dos iniciados).

Essas ordens menores provém papéis menos exigentes que não requerem o mesmo compromisso que os dos sacerdotes maiores, e provém uma alternativa para pessoas que desejam auxiliar no culto. Eles também permitem que sacerdotes sejam treinados, em estágios, enquanto progridem na hierarquia.

Aqueles que gostariam de dedicar a vida às deidades de uma foram contemplativa ou de contínua devoção, também encontram vertentes helênicas com precedentes. Um exemplo são os Pitagóricos, que criaram sociedades em comum, focadas em uma vida e uma religião virtuosa e de contemplação. Outro exemplo seriam os misteriosos Therapeutae (“curadores” ou "servos", cujos membros femininos da seita eram chamados de Therapeutridae, e tratava-se de uma ordem cenobita pré-cristã que o escritor judeu helenizado Filo de Alexandria conheceu em uma baixa colina perto do lago Mareotis, próximo a Alexandria), que dizem terem sido influenciados pelo Budismo e terem um nome possivelmente originado da distorção da palavra Theraveda (“caminho dos anciões, uma escola budista). Monastérios foram encontrados nos reinos greco-bactriano sob a influência do greco-budismo. Contemplação e Meditação no Sagrado e no Bem também existiam na Academia e no Liceu, enquanto Iâmblico (filósofo grego) e outros procuravam viver os princípios pitagóricos. Os antigos Nympholepts (distinguidores das ninfas) também viviam como Eremitas e Cenobitas (koinos = comum, bio = vida) a contemplar e comungar com as Ninfas, muito semelhante ao que os ermitões e monges taoístas fazem, comungando com os espíritos naturais.

Semelhante aos Jesuítas, os gregos poderiam ter ordens dedicadas a Atena, uma vez que esses focavam no intelecto e na disciplina militar e em uma vida contemplativa que se encaixaria bem na devoção a esta deusa.

Havia outros funcionários sagrados também, como por exemplo o Exegetas. Os Exegetai, na Grécia antiga, eram especialistas religiosos que davam conselhos sobre os cultos de deuses diferentes. Eles interpretavam leis religiosas e costumes e guiavam as pessoas que solicitavam.

Esses modelos podem nos ajudar a prover ajuda às necessidades espirituais das pessoas que seguem nossa religião e a aumentar ou manter as chances de nossas crenças sobreviverem no mundo moderno. É por isso que a maioria das antigas religiões que ainda existem possuem essas subdivisões no ofício sagrado, apesar de todas as pressões dos monoteístas.

Por fim, seria interessante que uma espécie de treinamento de ‘seminário’ existisse com relação aos rituais, às leis, aos mitos, e à ética, a fim de se formalizar um sacerdócio. Isso ajudaria com a nossa reputação como religião séria em vez de só um punhado de sacerdotes e sacerdotisas auto-proclamados. Se acrescentarmos um treinamento apologético, teológico e filosófico, responder a críticas e ataques teológicos seria mais fácil, e isso fortaleceria os suportes intelectuais das nossas crenças. Alguma espécie de estrutura disciplinar, seja por ostracismo ou não, por uma comunidade, por ordens e organizações religiosas, ajudaria a refrear o mau comportamento dos sacerdotes. Uma ameaça real de ser deposto, exonerado, de ser privado do ‘hábito’, poderia impedir problemas com sacerdotes e sacerdotisas que se engajam em comportamentos anti-éticos e fraudulentos.

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