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As Representações Homéricas de Hermes

por Alexandra Nikaios, 31/12/2008

Hermes, para os gregos, não era algo inexistente ou uma força sem formato, como para muitos hoje em dia. Tampouco era uma pessoa com poderes e limitada por uma história. Tirando as conclusões que existem sobre cor da pele, penteado, vestes e atributos, existe um algo mais além de tudo isso. E, para descobrirmos essa configuração, não basta um conhecimento histórico e científico da mitologia. O que faria de um deus um deus, especialmente para os gregos antigos?

Walter F. Otto (“Os Deuses Homéricos”) descreve Hermes como uma deidade cuja idéia é evidente para nós, ao mesmo tempo em que o separa de seus aspectos primitivos – os quais, para os gregos, não era incompatível com sua divindade. Otto conclui sua imagem de Hermes dizendo que “Seja o que for que tenham pensado de Hermes nos tempos primitivos, outrora deve haver cativado o olhar como um brilhante vislumbre proveniente dos abismos, vendo um mundo no Deus e o Deus em todo o mundo. Essa é a origem da figura de Hermes, que Homero reconheceu e que as gerações posteriores adquiriram”. Com isso, ele supõe que Hermes teria sido revelado aos gregos na época da epopéia homérica, e que se tratava de uma lógica em que Hermes anima e governa um mundo completo e não um fragmento dele; ele não vem do céu pedindo coisas, quem quer os seus favores também precisaria saber perder, pois ele ensina que uma coisa não existe sem o seu oposto. Hermes então entenderia de ganâncias e perdas, se mostrando bom e complacente nos infortúnios. Isso poderia parecer ambíguo moralmente falando, mas é a realidade e a essência da totalidade encerrada por ele.

Ao mesmo tempo, essa ideia lúcida e convincente cria também uma distância com a imagem mais primitiva e menos inteligente de Hermes que vimos na maioria das estátuas priápicas e nas pedras com falos eretos (as “hermas”), sem falar no lado um tanto titânico e espectral dessa deidade. Hermes é uma espécie de “modo de ser”, uma “idea”, que – citando novamente Otto – é “tão singular e cabalmente delineado, e se espalha tão inequivocadamente em tudo o que faz, que só precisa advertir uma única vez para não se ter mais dúvidas de sua essência. Nisso reconhecemos tanto a unidade de suas ações quanto o significado de sua imagem. Tudo o quanto ele faça ou produza, revela a mesma idea, e isso é Hermes”.

Essas palavras também foram convincentes e lúcidas, mas, de novo, elas não excluiriam desde o início uma parte importante da imagem e do mundo de Hermes? Algo “grego” que lhe pertence? Se já estamos preparados para o inteligível, precisamos estar também para o misterioso. As representações que se fazem dos deuses gregos podem ser tão relutantes a uma conceituação e a uma lógica que poderíamos imaginar eles mesmos nos dizendo que não são um livro pronto e que têm também suas próprias contradições…

Mas, já que se citou Homero, pode-se perguntar por que vemos Hermes aparecer mais nos Hinos do que na Ilíada ou na Odisséia. Em ordem, dir-se-ia que o mundo heroico da Ilíada tem pouco a ver com Hermes, menos até que o da Odisséia (que ao menos fala de uma viagem), e que o do Hino a Hermes (que lhe cabe porque é dirigido especificamente ao deus).

O mundo da Ilíada fala de um heroi efêmero que lamenta seu destino, da morte como um fim, da morte como algo inalterável e que tudo modifica. Pátroclo, Aquiles, Heitor, todos sucumbem com uma “heroica valentia” diante da morte. E Hermes não aparece para ir buscar a alma e guiá-la, como Psychopompos que é. Acontece que a morte, no mundo de Hermes, tem um aspecto diferente, que não é esse de escolhas e dissoluções de opostos fatais, de violação de limites e de leis, que causa um fim. A dele é mais uma morte cuja produção e multiplicação além de fronteiras é algo que não se pode calcular. É nesse contexto que ele aparece na Ilíada.

No livro 14, Forbes agradece a Hermes por seus rebanhos, e no mesmo livro Hermes tem uma amante secreta, Polimele, filha de Filas, com quem tem um filho, Eudoro. O deus sequer toma parte na batalha. Seu epíteto “akaketa” (normalmente traduzido como benigno e gracioso) seria melhor compreendido se traduzido como “o indolor”. Não é que ele tenha se abstido da guerra, mas porque a “rival” que se designa para ele – caso se junte à questão – seria Leto, mãe de Ártemis, e Hermes é esperto demais para travar combate logo com ela. O próprio livro 21 coloca em sua boca essas palavras: “é árduo lutar contra as namoradas de Zeus, o que junta as nuvens. Não, com mais prontidão podes falar livremente entre os deuses imortais e afirmar que foste mais forte do que eu, e me vencer”. Ele não se importa com a fama, e está longe de ser um heroi. Sua mestria é outra, a do “ladrão”, que rouba Ares de sua prisão (livro 5) e rouba o cadáver de Heitor quando os deuses concordam (livro 24). Na Ilíada, ele não é um mensageiro de Zeus – quem faz isso no caso é Íris – e sim um guia, “a mais desejável companhia do homem” (livro 24), o que abre a porta para Aquiles fugir e adormece os guardas.

Já na Odisséia, o último livro começa com uma epifania de Hermes Cileno, o qual ergue o cajado dourado, encanta os olhos dos homens e desperta quem ele quer, obrigando os espíritos dos pretendentes a irem embora, depois os conduzindo para baixo, por “rotas úmidas e insalubres”, sobre as “ondas cinzentas do oceano”, em um vôo até “onde os mortos habitam os ermos campos de asfódelos nos extremos do mundo”. Diferente da Ilíada, aqui Hermes convoca as almas dos mortos. “Convocar” (“exekaleitein”), em outra tradução, poderia ser lido como “conjurar”, como se fazia com os defuntos nas tumbas, só que neste caso ele o fazia antes do enterro, não para fazê-los regressar, mas para afugentá-los para longe dos outros. Ele aqui também é “indolor”, pois não causa dano a essas almas, apenas as guia. Na Odisséia, a morte é algo que se acha continuamente presente. Odisseu está sempre em contato com ela, se deslocando sobre ela e através dela, como se ela fosse o próprio enredo da obra. E não só ele. Telêmaco e os pretendentes também ficam entre a vida e a morte e, presa nessa “gangorra” está Penélope, a que espera.

Odisseu não é um viajante pelo fato de ficar indo de um lugar para outro, mas sim por sua situação existencial, mesmo que ele não queira isso. Achar que cada pedaço de terra por onde ele pisa se torna seu é uma possessão apenas psicológica. Ele reivindica cidadania em tudo que é canto, é um “xeno” (estrangeiro) destacadamente eminente (“kat’exochen”) e que busca abrigo (“hiketes”). Ou seja, seu guardião não é Hermes, mas Zeus, o deus da hospitalidade, do horizonte, das cidades, da terra firme. Mas Odisseu tem uma flutuação, uma coisa que faz parecer que ele está sempre em fuga. Tudo á sua volta parece irreal, fantasioso. Gigante, sereias, feiticeira que transforma homens em bichos... Além disso, a companhia de Odisseu não é de homens que o escoltam para casa, mas de homens que largaram as coisas para se juntar a ele, homens que se soltaram das amarras de uma comunidade para estarem juntos, sem reservas, em uma espécie de sociedade “hermética”. Partir para longe com alguém é a melhor condição para conhecer tal pessoa, quando se pretende amá-la. As seduções de sereias e feiticeiras deixa-os entre a vida e a morte, nos caminhos úmidos do mar. Aqui eles se encontram no mundo de Hermes: o que está em constante movimento, em um impulso dinâmico; o deus que é a melhor “companhia” dos homens.

É interessante observar que Odisseu descende de Hermes por parte de mãe. O avô de Odisseu, o ladrão Autólico, era filho de Hermes. Hermes e Autólico eram astutos, Odisseu também, só que para ele isso não tem mais toda a dimensão mítica que tinha para os dois primeiros. Odisseu é apenas versátil (polytropos), enquanto que Autólico era capaz de se transformar e, segundo Hesíodo, podia tornar invisível tudo o que tocava.

Por isso, nem Ilíada nem Odisséia vão nos dar uma boa dimensão da visão de Hermes. O Hino Homérico fala um pouco mais, tratando-o como um deus dos rebanhos, da sorte, mensageiro dos deuses, que concede graças, guia e doador de boas coisas, filho de uma tímida deusa-ninfa de cabelos cacheados, que era filha de Atlas e que vivia em uma caverna sombria, evitando os deuses e se deitando com Zeus na calada da noite. Curioso observar que uma mãe que evitava os deuses e vivia reclusa em uma caverna vem ter um filho que se torna o mensageiro deles e em constante movimento. Mais uma característica de Hermes, o equilíbrio de opostos, da mesma forma que ele se interpõe entre o apolíneo e o dionisíaco de Nietzsche. Mas isso já nos faz ir além do proposto aqui, então deixo para uma reflexão posterior.

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