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Símbolos Anicônicos dos Deuses Helênicos

'An-icônico' é algo com ausência de representações gráficas (ícones). O aniconismo é um estilo usualmente de origem religiosa, mas também pode se aplicar à arte na qual os humanos e outros seres vivos não forem representados de forma artística.


A religião helênica antiga era ICÔNICA, pois nela os deuses eram frequentemente representados na forma de humanos e na qual celebrava-se a beleza, a graça, as formas artísticas etc. Foi por causa da crença religiosa icônica grega que as esculturas e outras obras de arte como conhecemos chegaram a seus auges. Várias técnicas de escultura moderna na verdade não mudaram muito desde os tempos helênicos.


Porém, a religião grega também tinha um aspecto anicônico da religião. Antes dos gregos desenvolverem a tecnologia e as habilidades e conhecimentos em escultura e pintura e arte, os deuses normalmente eram representados de uma maneira anicônica. De fato, mesmo até o final do período clássico o aniconismo ainda era bastante expressivo, especialmente nas áreas rurais, pois - até os gregos aperfeiçoarem a tecnologia de modelagem - as estátuas eram relativamente caras. O simbolismo anicônico, no entanto, persistiu mesmo até o período helenístico, devido a três razões: Primeiro que muitos objetos primários de culto dos templos antigos eram ainda anicônicos. Segundo que o simbolismo anicônico estava disponível "em qualquer lugar", já que era comumente feito de pedras e plantas, a maioria gratuitas, ao contrário das estátuas. Além disso, em muitos casos o símbolo anicônico age tanto quanto altar quanto símbolo. Terceiro que, no culto doméstico, a maioria dos símbolos eram mesmo anicônicos de qualquer forma.


Segue uma lista de símbolos anicônicos.


A. Símbolos anicônicos que podem ser feitos de pedras:


# Hermes: Na Grécia rural, Hermes é normalmente representado na forma de uma herma. Uma herma é basicamente uma pilha de pedras ou seixos ou pederneiras no formato de um cone ou de pirâmide (com três ou quatro lados) ou basicamente uma pilha de pedras mais largas como base e lentamente se estreitando até o topo. A herma icônica com a face do homem barbado apareceu depois em Atenas, mas nas áreas rurais continuou a ser uma pilha de rochas, construída normalmente onde a estrada se bifurcava, mas também na frente de lares e casas etc. A maioria das hermas funcionam como altar a Hermes. Registros históricos documentam que as pessoas ou ofereciam mais seixos à herma ou ofereciam flores ou libações a hermes ali. Ao menos que você viva em uma área sem pedras, construir uma herma é fácil. Eu tenho duas no meu jardim.

# Apolo, o que Afasta o Mal: Usa-se um pilar de pedra ou rocha em formado de obelisco (menhir), uma pedra em formato de ônfalo (esférica ou levemente elipsada), uma pedra cônica afilada, ou uma pedra cilíndrica. Uma parte da pedra é normalmente enterrada no chão para mantê-la perpedicular/ereta. Se a pedra estiver assim, pode ser considerada um altar. Pedras ou rochas assim são normalmente colocadas na frente das casas ou ao longo das estradas e representam Apolo que Afasta o Mal. As pessoas na antiguidade costumavam libar, untar de óleo ou cobrir a rocha com uma coroa de flores como oferta. A rocha, como a herma, age tanto como símbolo quanto como altar.

# Zeus Herkeios: Uma rocha em forma de cubo ou qualquer pedra com topo achatado. Normalmente colocada no quintal/pátio do lar ou ao longo da fronteira de cidades. Representando Zeus que guarda as o que está cercado. Pode-se fazer ofertas nessa pedra ou rocha, e ela age tanto como símbolo quanto como altar.

# As Cárites: 3 pedras ou rochas, protuberando para fora do chão. De fato, um dos primeiros altares às Cárites conhecidos eram três rochas grandes que saíam do chão onde as pessoas colocavam suas ofertas esfregando-as ou libando-as nas três rochas. Mais tarde, existiram vilarejos nos quais três pedras protuberantes menores eram usadas no lugar das grandes. Agiam tanto como altar quanto como um simbolismo.

# Príapo: Uma pedra cilíndrica, longa e bem afilada/cônica, arredondada e polida, é geralmente o único símbolo para este deus. Novamente, serve como um altar a Príapo.


B. Materiais com Plantas Secas (plantas não-vivas ou em disposições transitórias como folhas frescas etc):


# Hera: Troncos de árvore toscamente cortados. Em Dédala, parece ter havido um culto a Hera onde Hera era presentada por cobrir um pequeno tronco de árvore ou troncos de árvore cortados muito toscamente (de forma inacabada, sem precisão). Isso parece ter sido a imagem de culto dela.

# Zeus: Bolotas de carvalho parecem ter sido usadas para representar Zeus Katabaites.

# Dioniso: Um cone de pinha amarrado no topo de uma haste de madeira, também conhecido como tirso, era usado para representá-lo.

# Héracles: Um bastão longo colocado ao lado da porta é uma representação visual de Héracles.

# Poseidon: Cones de pinha eram usados para representar Poseidon.

# Deméter: Hastes secas tanto de trigo quanto de cevada são normalmente usadas para representar Deméter.

# Hécate: É bastante interessante que Hécate seja às vezes representada por um feixe de ervas secas!

# Asclépio: Também às vezes representado por um feixe de ervas secas!


C. Produtos Naturais (secos, não relacionados a plantas):


# Zeus: Uma pilha de lã é às vezes usada para representar Zeus. A lã cobrindo uma ânfora (um jarro de duas alças) é a representação ortopráxica de fato de Zeus Ktesios e é usado no culto doméstico.

# Hera: Uma pilha de lã branca (a lã é claramente descrita como branca) é às vezes usada para representar Hera.

# Afrodite: Conchas do mar, especialmente de ostras, são normalmente usadas para representar Afrodite, embora outras formas de conchas do mar possam representá-la.

# Poseidon: Conchas de moluscos são usadas para às vezes representar Poseidon.

# Hélio: Resina amarelo-brilhante pode ter sido usada como simbolismo para Hélio, embora nossos registros apenas registrem a época em que Hélio já tinha estátuas de culto.


D. Lugares na Casa:


# Héstia: A lareira (ou, no equivalente moderno, o forno ou a cozinha, embora na antiguidade o lugar da lareira fosse também a sala de estar ou de jantar para a maioria das famílias mais pobres) não é apenas o símbolo dela, mas também é, em certo sentido, o lugar que é sagrado a ela. A chama da lareira e a própria lareira (ou, no contexto moderno, o forno e o fogão) eram tanto seu símbolo quanto seu altar, seu temenos é na cozinha de todos. Tão poderoso era esse simbolismo que ela era uma das poucas deidades gregas que raramente tinha uma representação humana. As pessoas literalmente "viam" Héstia sempre que elas entravam na cozinha e seu altar é o local de cozinhar. As pessoas no passado literalmente colocavam comida na chama acesa como uma oferta a ela. Cada cozinha individual é literalmente um altar interno e santuário a Héstia, independente de haver ou não uma representação (icônica) dela, uma vez que os próprios gregos antigos em geral raramente a representavam, vendo a chama da lareira como sendo uma representação suficiente.

# Os Dióscuros: A cumeeira do telhado (onde as telhas se encontram em cima) é seu símbolo. De fato, um altar era usualmente erguido a eles em torno do poste central que segura a cumeeira (na arquitetura moderna, não é mais necessário ter isso em pequenas construções, devido à tecnologia melhorada de vigas). Um incenso era normalmente queimado ali e a fumaça deixada subir pela cumeeira (em muitas casas modernas você precisa ir até o ático para enxergar a cumeeira.

# Hécate: O vão da porta é considerado sagrado a Hécate e é também seu símbolo. Altares a ela em lares eram erguidos próximo a essa passagem da porta.

# Hermes: A passagem tanto da porta quanto do portão e a cerca eram sagrados a Hermes. Era ali que os altares eram normalmente erguidos.

# Héracles: A porta e o portão eram considerados sagrados a Héracles. Mais uma vez, seus altares eram erguidos próximo a portas.

# Zeus: A despensa e o quintal são considerados sagrados a Zeus, com um Zeus das Despensas tendo um altar literalmente dentro da despensa, representado por um jarro de alça dupla (ânfora) delineado de outra ânfora por ou lã ou sendo a única ânfora a ficar no topo do que é claramente um altar. E há um outro altar a Zeus Herkeios, o guardião do quintal.


E. Plantas Vivas (plantas domésticas comuns):


A lista de plantas vivas e como estilizá-las que tem sido usada como representação dos deuses é tão longa e tão exaustica, especialmente se você começar a considerar as associações dos períodos helenístico e romano com as plantas (onde você teria que considerar as plantas da Índia até a França, e da Bulgária até o sul do Egito) que não as escreverei aqui. Desnecessário dizer que muitas árvores não-tropicais encontradas no Hemisfério Norte (maçã, amêndoa, pera, laranja, avelã, carvalho, bétula, pinheiro, oliveira etc) foram usadas em algum momento ou outro como representação de uma deidade. Isto excluindo anuais e perenes, várias flores etc, que faria seus olhos saltarem se eu transcorresse a lista toda. Para tornar a vida bem mais fácil, vou citar apenas as plantas domésticas comuns.


# Zeus: Podemos dizer seguramente que qualquer planta do gênero Ficus seria provavelmente sagrada a Zeus. Os antigos gregos consideravam o figo comum (Ficus carica) e o figo sicômoro (Ficus sycomorus) sagrados a Zeus. É interessante notar que, quando eles foram à Índia, eles também começaram a associar o figo banyan (Ficus benghalensis) e os outros figos indianos (Ficus religiosa etc) do subgênero Urostigma como sagrados a Zeus! Eles também consideravam uma planta (Ficus elastica) que agora suspeitamos ser sagrada a Zeus. É interessante que, ao mesmo tempo, os gregos ao sul do Nilo começaram a identificar uma planta apenas mais tarde reconhecida como provavelmente o figo-lira (Ficus lyrata) como sendo sagrada a Zeus. Todas essas plantas parecem muito diferentes umas das outras, mas têm algo em comum, o gênero Ficus. Se dermos um passo e associarmos Zeus com Indra (como fazem os greco-budistas), então o número de espécies de Ficus conhecidas como sacras a Zeus sobe exponencialmente ao ponto de considerarmos as plantas rasteiras de figo na Tailândia sendo associadas a Zeus. Há três plantas comuns ao gênero Ficus que são usadas como plantas caseiras. Uma é o figo anão (Ficus benjamina), uma planta indiana que é popular como planta de interiores domésticos. Outra é o unha-de-gato (Ficus pumila) que é uma trepadeira sempre-verde. O terceiro é o figo lira (Ficus lyrata) que pode ser a planta descrita no sul do Nilo pelos antigos gregos, considerada sagrada a Zeus.

# Dioniso: A hera comum (Hedera helix) e todas as heras são sagradas a Dioniso e é de faro um dos símbolos mais duradouros de Dioniso. Uma das formas que os antigos faziam uma imagem de culto de Dioniso era de fato plantando uma madeira na terra e deixando a hera crescer em por cima dela.

# Artemis: Ciclâmens (Cyclamen) podem ter sido descritos na poesia antes do terceiro século AEC associados com Ártemis. Essa associação pode não ser absurda, uma vez que uma das poucas flores a realmente florescer no meio das selvas do Mediterrâneo ser o ciclâmen. Palmas são supreendentemente sagradas o bastante a Ártemis também. Embora inicialmente apenas tamareiras fossem sagradas a Ártemis, as palmas na Índia eram definitivamente vistas como sagradas a ela. A palmeira-real e a palmeira-bambu (camedórea elegante) seriam portanto sagradas a Ártemis.

# Afrodite: Ciclâmens também eram aludidos a Afrodite. Porém, rosas são sempre consideradas sagradas a Afrodite com certeza, e rosas em miniatura - que são tão comuns como planta de interiores - seriam definidamente sagradas a ela. Outra planta que é interessante e que tem uma bem conhecida associação com ser sacra a Afrodite é/são os vários tipos de orquídeas.

# Apolo: A babosa (Aloe vera) é uma planta há muito associada com Apolo e é considerada sagrada a Apolo e eram cultivadas especialmente em seus templos egípcios. Como Ártemis, todas as palmeiras seriam consideradas sagradas a Apolo. Assim, a palmeira-real e a palmeira-bambu também eram sacras a Apolo.


(texto de Astalon, 10/maio/2008, traduzido por Alexandra, 12-14/dez./2014)


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