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A Tolerância Religiosa na Grécia Antiga

por Alexandra Nikaios

Nesta coluna, quero mostrar que o povo helênico tinha uma compreensão clara de diferenças culturais e de crenças mundiais distintas. Os gregos não passavam pelos mesmos tipos de conflitos culturais nas crenças religiosas que passamos hoje. O formato deles era mais debater e transmutar as idéias para que elas coincidissem com os ideais gregos, uma adaptação à qual poderia não modificar sua forma. Eles tinham uma clara e concisa compreensão das diferenças culturais. Vamos tentar ver como eles lidavam com essas diferenças.

Comecemos pelo matemático e astrônomo Eudoxus, um incrédulo que questionava por que Deméter não partilhava da supervisão das questões amorosas e Ísis sim. Pelo padrão egípcio, Dioniso não poderia fazer o Nilo se erguer, nem governar sobre os mortos. Osíris é quem teria contribuído para a origem das coisas e Ísis distribuiria essas coisas. Plutarco, no entanto, estudou os egípcios e a teologia deles em torno das colheitas e mudanças de estações que afetavam as colheitas. Ele viu que as pessoas acreditavam nessas coisas como valor aparente, ignorando o óbvio e as razões familiares do porquê um incidente acontecia. Os egípcios compartilhavam e aprendiam as perspectivas culturais dos gregos, mantendo registro dos deuses gregos tanto quanto dos deuses egípcios. Eles acreditavam que todas as pessoas possuíam deuses egípcios e eram familiares a eles, só que os egípcios chamavam os deuses pelos nomes egípcios, entendendo e honrando o poder que pertencia a cada um deles.

Plutarco dizia que as pessoas têm que ter cuidado para não fazer dos deuses algo mais do que meros aspectos da natureza, roubando deles, sem querer, de suas divindades, como faziam alguns gregos que associavam apenas o vinho a Dioniso e a chama a Hefesto. Cleanthes, um filósofo estóico da Lídia, dizia que a rajada de ar que é carregada (pheromenon) através das plantações e depois sofre dissolução (phoneuomenon) é a deusa Perséfone. Plutarco diz que, ao fazer isso, é como dizer que as velas e cordas e âncoras são o piloto, ou que a taça o mel e a cisão são o médico. Plutarco observa que os humanos criam opiniões ateístas pavorosas porque colocam a divindade sobre os objetos naturais, que são insensíveis e inanimados, e são por necessidade destruídos pelos homens quando precisam usá-los. É impossível conceber essas coisas como sendo os próprios deuses, uma vez que um deus não é insensível, inanimado ou sujeito ao controle humano. Os deuses, na verdade, seriam seres que fazem uso dessas coisas, apresentam-nas a nós e provêm aos humanos coisas duradouras e constantes.

Agora vamos tentar com que isso faça sentido no nosso mundo moderno. Muitas pessoas hoje não pensam nos deuses como deuses diferentes entre pessoas diferentes. Não pensam mais em 'deuses gregos x deuses bárbaros', mas acreditam que os deuses são as mesmas providências que observam todas as pessoas e são chamados por nomes diferentes. Embora os humanos possam ser engolidos tanto por seus próprios simbolismos quanto por se tornar supersticiosos demais, eles também podem ir exatamente pelo extremo oposto e ficar com tanto medo que acabam indo despercebidamente para uma opinião ateísta. Através da filosofia, podemos estudar todos os aspectos humanos adotados e, através da razão, tentar encontrar alguma verdade.

Ainda citando Plutarco, ele acreditava que o que é bom e justo vem dos deuses, com os deuses fazendo coisas boas e justas e as enviando ao mundo. Se as pessoas usassem mais da razão, honrariam os deuses por isso. Ele diz que as pessoas se esquecem da bondade e justiça dos deuses e lhes dão atribuições humanas e naturais, como se fossem objetos inanimados, insensíveis e controláveis. Os deuses presidem sobre cada aspecto da vida, e isso é bom.

Plutarco afirmava que, embora com nomes egípcios, os deuses eram os mesmos dos gregos, e as pessoas poderiam se achegar às divindades por quaisquer nomes e significados com os quais elas estivessem confortáveis, uma vez que a essência e o ser deles (ousia) era o mesmo. Ele dizia que não se poderia haver deuses só dos gregos, como se fossem humanos que viraram deuses, porque isso daria aos mortais um falso controle que não temos. Porém, se você chama o deus de Zeus, então para você ele é um deus grego. Ou seja, ele falou de uma forma mais filosófica e ideológica do que religiosa. Isso faz crer que a religião grega era tolerante com outros deuses. E aí chegamos onde eu queria.

Os gregos eram muito tolerantes com outros deuses. Porém, não posso negar que eles eram elitistas. Eles não achavam que todos os deuses eram os mesmos, universais, com nomes diferentes, e sim achavam que todos os deuses eram os deuses gregos (que os outros chamavam por outros nomes). Se bem que eu acho que a maioria dos povos (ao menos os politeístas) pensava e ainda pensa assim.

Já os cristãos, estes pensa(va)m no paganismo como sendo algo de abominação, idolatria, feitiçaria e sacrifício humano. Um historiador chamado Hans Lietzmann declarou que "o erro do politeísmo levou as pessoas às trevas e ao caos moral". Mas o paganismo clássico da antiguidade era a fé/crença da mais alta civilização, os gregos e romanos. Um historiador do século XIX chamou o paganismo de "uma doença moral do mundo romano". Cristãos modernos, como Jerry Falwell pensa(va)m que o paganismo era(é) do mal. Mas o valor central do paganismo foi justamente a tolerância religiosa. Um prefeito pagão do século IV, Symmachus, uma vez declarou: "O que importa por qual sabedoria cada um de nós chega à verdade? Não é possível que apenas uma estrada leve a tão sublime mistério". Os pagãos faziam e fazem preces pela saúde, felicidade, segurança, uma boa vida na terra e a salvação após a morte. Eles valorizam a justiça, a misericórdia, a vida decente, a moral, a temperança, a coragem, a castidade, a obediência aos pais e magistrados, e tem uma reverência aos votos e à lei. Politeístas não são inclinados a ditar aos outros como e a quem rezar e a quem deveriam oferecer seus sacrifícios. Eles sempre foram dispostos a misturar e comparar deuses e deusas, rituais e crenças, e a buscar o favor divino de muitas deidades diferentes. Uma religião de tolerância e tradição, o paganismo era um exemplo e modelo de padrão religioso.

Nossa religião era uma religião de boas-vindas, uma religião hospitaleira. Tanto que uma das principais éticas do Helenismo é a da Xenia (hospitalidade, amizade convidativa, reciprocidade, proteção). Talvez por isso que os antigos pagãos foram tão facilmente conquistados quando da chegada dos cristãos. E depois ainda levaram a fama de malvados e imorais...

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