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A Estátua de Zeus de Olímpia

“O nosso Zeus é um Deus de paz e de clemência, como convém ao protetor de uma terra harmoniosa e unida que deixou de conhecer a discórdia. Representámo-Lo pacífico e benevolente, numa atitude natural, pois não é Ele que dispensa a vida e todos os bens, o pai comum, o conservador e salvador de todos os homens?... A majestade da Sua atitude revela o rei que comanda como senhor; a expressão amável e doce faz pensar no pai e na sua providência; o ar grave e augusto dá a conhecer o zelador das cidades e o legislador. A semelhança humana que lhe conferi representa simbolicamente o parentesco dos Deuses e dos homens. O riso e a bondade que emanam da Sua fisionomia falam de um Deus amigo, o Deus dos suplicantes, da hospitalidade e do refúgio. Enfim, o Deus da fecundidade e da abundância transparece nessa alma simples e grande, manifestada pela atitude e nobreza da estátua, e que convém aos Imortais que têm prazer em nos cumular de todos os bens. Tais são as qualidades divinas que me esforcei por traçar, através da única eloquência que é a minha arte, sem me servir da palavra.”

Dion Crisóstomo, autor grego do século I d.c., falando em nome de Fídias, escultor grego do século IV a.c.

O mesmo Dion Crisóstomo diz, também a respeito da estátua, mas como que dirigindo-se a Fídias, o seguinte:

“Tu!, o melhor e o maior dos artistas, como é deleitosa e cara a imagem que soubeste criar! Como é duradoira a alegria que ilumina o coração de todos, Helenos e Bárbaros, que aqui vieram. Se alguém de entre eles carrega uma alma trabalhada por desgostos, ou se, por ter bebido a última gota da taça da infelicidade, o doce sono deixou de o visitar, parece que, posto em presença desta estátua, tudo o que a vida comporta de amarguras e penas será nele abolido. Deste modo concebeste e realizaste uma visão que dissipa o luto e traz lenitivo a qualquer dor.
Uma vez que não conhecemos, de entre todas as criaturas, senão uma que possui a razão, é lógico a ela recorrer para representar a razão invisível, e emprestamos a Deus a forma do corpo humano por ser receptáculo do pensamento e do conhecimento. Na completa ausência do modelo original, procuramos manifestar o inexplicável e o invisível por meio da imagem visível. Damos forma à força do símbolo para prender o imperceptível.
Pode surgir a objecção de que melhor seria não ter diante dos olhos dos homens nenhuma estátua nem representação figurada dos Deuses, sob o pretexto de que é preciso que o nosso olhar se dirija exclusivamente para as coisas celestes. Efectivamente, graças ao o impulso que nos aproxima da divindade,existe nos homens um desejo violento de A adorar e servir, de ficar perto Dela,de A abordar com sentimento em nós da Sua presença real, de Lhe oferecer coroas de flores e sacrifícios. Tal como as crianças estendem em sonhos os braços para os pais ausentes, também os homens desejam estar sempre mais perto dos Deuses e na Sua companhia.”


O Conflito Entre o Cristianismo Primitivo e a Civilização Antiga
Louis Rougier
Editora Vega
Pág 120
(postado por Antonio)
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